O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou a carne brasileira de “boa qualidade” nesta sexta-feira (4), durante um ato na Casa Branca em que anunciou novas medidas para tentar reduzir os preços do produto no país.
Ao falar sobre a entrada de carne estrangeira no mercado americano, Trump citou o Brasil entre os fornecedores e afirmou que o produto brasileiro passa por inspeções antes de ser autorizado a entrar nos Estados Unidos.
Trump assinou decretos voltadas ao setor pecuário que buscam ampliar a concorrência no processamento de carne nos EUA, facilitar a atuação de pequenos frigoríficos e produtores e fortalecer a indústria doméstica. As medidas fazem parte da tentativa da Casa Branca de enfrentar os preços elevados da carne bovina.
Os Estados Unidos enfrentam neste momento uma redução de seu rebanho, que caiu ao menor nível em cerca de 75 anos. Secas, incêndios e restrições à entrada de animais do México contribuíram para reduzir a oferta. O Departamento de Agricultura prevê que a produção americana de carne bovina recue cerca de 4% neste ano em relação a 2025.
Para tentar conter os preços, Trump também ampliou temporariamente em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina magra que pode entrar nos Estados Unidos dentro de uma cota com tarifa reduzida. O volume foi dividido em três etapas de 100 mil toneladas entre setembro e novembro. A Casa Branca espera que a carne importada por essa cota seja vendida por valores cerca de 25% inferiores aos preços praticados atualmente no mercado.
O Brasil pode se beneficiar da abertura. Entre janeiro e julho deste ano, os Estados Unidos foram o segundo maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China, com a compra de 233,8 mil toneladas, alta de 17,1% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Só em julho, os americanos importaram 28,9 mil toneladas do produto brasileiro. A ampliação da cota pode aumentar ainda mais esses embarques ao reduzir o peso das tarifas. Até agora, a carne brasileira enviada acima da cota regular estava sujeita a uma tarifa de aproximadamente 26%.
A decisão de Trump ocorre após uma série de contatos recentes com o empresário brasileiro Joesley Batista, um dos controladores da JBS, que também é dona de grandes operações nos Estados Unidos.
Segundo o jornal americano Wall Street Journal, Joesley esteve no Salão Oval em 20 de agosto e defendeu diretamente a Trump que uma maior entrada de carne brasileira poderia ajudar a reduzir os preços nos Estados Unidos caso o governo diminuísse a tarifa de 26% aplicada às importações acima da cota. No dia seguinte ao encontro, Trump anunciou que ampliaria temporariamente a entrada de carne estrangeira para tentar baixar os preços.
O encontro de agosto não foi o primeiro entre os dois. A agência Reuters revelou em setembro do ano passado que Joesley havia se reunido reservadamente com Trump semanas antes e levado ao presidente americano preocupações sobre as tarifas impostas ao Brasil, argumentando que as barreiras comerciais estavam encarecendo a carne para os próprios consumidores dos Estados Unidos.
A aproximação continuou neste ano. Em maio, a Reuters informou que Joesley teve papel importante na articulação do encontro entre Trump e o presidente Lula em Washington. A JBS possui uma ampla estrutura produtiva nos Estados Unidos, e a Pilgrim’s Pride, empresa americana controlada pelo grupo, doou US$ 5 milhões ao comitê responsável pela posse de Trump em 2025, a maior contribuição individual divulgada naquela ocasião.
A abertura do mercado americano ocorre justamente no momento em que a carne brasileira enfrenta uma restrição na Europa. A União Europeia suspendeu nesta quinta-feira (3) a entrada de carne e outros produtos de origem animal do Brasil depois de afirmar que não recebeu garantias suficientes sobre o cumprimento das regras do bloco relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal. O governo brasileiro contesta a decisão e ameaça adotar medidas de reciprocidade caso as negociações com Bruxelas não avancem.
