O avanço de grandes data centers no Nordeste vem acompanhado de investimentos em tecnologia que impactam a economia da região e contribuem para a implantação de um novo ecossistema digital. No entanto, a chegada dessas infraestruturas também traz desafios, tanto do ponto de vista da sustentabilidade ambiental quanto nos aspectos sociais e territoriais. Esse foi o eixo central das discussões do painel “Tecnologia, empregos e desenvolvimento regional no entorno de data centers” realizado nesta terça-feira (15), em Fortaleza.
A mesa de discussões fez parte do evento “Nordeste como hub digital do futuro”, que integra o projeto Transição Energética, promovido pelos jornais O Globo e Valor Econômico.
Um dos maiores símbolos dessa nova onda de investimentos é o centro de dados da Omnia Data Centers em Caucaia (CE) para a chinesa ByteDance, dona do TikTok. Segundo Wellysson Costa, diretor institucional da Omnia no Ceará, que participou do painel, a região conta com um conjunto de fatores favoráveis para o desenvolvimento desses empreendimentos, incluindo disponibilidade energética e um ambiente de alinhamento entre o poder público, instituições de ensino e o setor privado.
Ele também destacou a conectividade proporcionada pela chegada dos cabos submarinos e o ambiente da ZPE (Zona de Processamento de Exportação). Apesar disso, Costa reconhece desafios relacionados à mão de obra, por exemplo. “A disponibilidade de mão de obra hoje no Brasil é um problema, e claro que na região não seria diferente. Ainda assim a Omnia tem conseguido atingir resultados muito bons. Na primeira fase, que é a fase civil, conseguimos contratar 72% da mão de obra local cearense, que foi uma surpresa inclusive para nós. Nós achávamos que teria uma dificuldade ainda maior, mas conseguimos esse número extremamente representativo para a economia local”, disse Costa.
Segundo ele, a empresa tem investido na qualificação da mão de obra local por meio de parcerias. “Começamos com as nossas turmas de qualificação em parceria com a Prefeitura de Caucaia e com o sistema S, sistema Senai. Nós já qualificamos mais de 100 cidadãos da cidade de Caucaia. Estamos agora com mais 350 vagas em aberto nesse processo e queremos atingir mais de 1.500 pessoas qualificadas”, contou.
A geração de emprego é um benefício trazido pelos projetos, mas a população local também manifesta certos receios. Adryane Goraieb, professora associada do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), esteve nos territórios afetados pelos empreendimentos e identificou que as principais apreensões dizem respeito ao caráter temporário dos postos de trabalho e ao fluxo de trabalhadores vindos de fora do Estado.
“As maiores ansiedades têm justamente relação não só com os impactos positivos, que basicamente vêm em empregos transitórios, mas também com os impactos negativos desses grandes empreendimentos e a vinda de trabalhadores de fora, resultando em poucas oportunidades para as pessoas em termos territoriais. Nosso objetivo é enriquecer o debate para pensar em benefícios diretos para quem está no território” disse.
Machidovel Trigueiro, vice-diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), explicou que a tríade do novo mundo é formada por energia, conectividade e processamento de dados. Além disso, há um quarto elemento citado por Adriane: o território.
Trigueiro, que também é secretário de Inovação de Caucaia, cuja região receberá o data center da Omnia para a ByteDance, afirma que, além desse empreendimento, outros cinco projetos devem ser instalados na região, sendo dois ainda confidenciais.
“Eu sou uma pessoa totalmente a favor da vinda dos data centers, que fique claro isso. Eu não sou contra, mas eu acho que a gente tem que se organizar e se preparar para ter contrapartidas computacionais da vinda, senão a gente vai ser território de passagem para dados que são processados e exportados dentro de um fio que vai ligar a Praia do Futuro, 18 cabos e vai distribuir (dados) no mundo. Então, isso é uma briga que a gente tem, uma briga saudável. E a solução que eu encontrei, pelo menos para Caucaia, é um parque tecnológico, que é um cluster tecnológico, um ecossistema tecnológico que vai abrigar todo esse futuro,” afirmou.
Outro ponto debatido no evento foi a questão da sustentabilidade e do consumo de água. Adriane ressaltou que a discussão sobre sustentabilidade precisa ir além da infraestrutura energética. “O desenvolvimento sustentável é essencial na perspectiva das mudanças climáticas e da transição energética, mas é importantíssimo pensarmos na justiça social. É através da aplicação da justiça social que de fato teremos uma democratização mais real em termos territoriais desses benefícios,” disse a professora.
Segundo Costa, a Omnia atua dentro de uma base sustentável, ou seja, que atua dentro de um ambiente no qual há o fornecimento de energia renovável e uso eficiente dos recursos. Ele explicou ainda que há o uso de um sistema de geração que a condensação é a ar, que reduz o conusumo de água. “O consumo de água do nosso projeto é mínimo”.
Além das questões ambientais, Trigueiro alertou que a consolidação desses investimentos no país esbarra na falta de articulação entre os órgãos reguladores federais. “Nós temos três agências reguladoras e aí voltando para tríade: energia, conectividade e dados. Nós temos uma agência que regula a energia, que não se comunica com a Anatel — que regula a conectividade —, que por sua vez não sabe nem o que está vindo aqui numa nova agência chamada ANPD, que é [de proteção de] dados. Então, esses caras eles não se comunicam. Enquanto a gente tiver nessa guerrinha, a gente não vai dar segurança jurídica às empresas”.
15/09/2026 18:59:38