O posicionamento sobre o fim da jornada 6×1 é um dos principais temas que dividem candidatos à Presidência, mas não o único a pautar o debate sobre modelos de trabalho nestas eleições. Postulantes ao Palácio do Planalto também divergem sobre a existência ou não de regras diferentes para trabalhadores por aplicativos e, de forma mais tímida, o que pode ser feito para enfrentar os efeitos da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho. Em linhas gerais, eleitores poderão escolher entre planos que preveem a manutenção das regras da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) ou a flexibilização das normas.
A divergência começa em um tema ainda em votação no Congresso, a redução da jornada de trabalho sem corte de salários por meio do fim da escala 6×1, apoiada pelo governo e no programa do atual presidente e candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e também pelo candidato Augusto Cury (Avante) em entrevistas.
O candidato Flávio Bolsonaro (PL) não é contrário ao fim da escala 6×1, conforme sua campanha afirmou em resposta ao Valor, mas defende sua versão ampliada, “para escolher a melhor carga horária que se adapte à sua realidade”. Não fica claro se haveria algum limite à jornada de trabalho.
Em linha semelhante, o candidato Romeu Zema (Novo) defende “uma alternativa flexível à CLT”, com prevalência do negociado sobre o legislado e a possibilidade que as partes possam definir regras como o percentual e o valor da remuneração variável atrelada ao desempenho e a jornada diária, que poderá ultrapassar oito horas, desde que respeitado o limite de 44 horas semanais.
Hoje, pela CLT, a “duração normal do trabalho” não deve passar de oito horas diárias, com a possibilidade de serem fixados outros regimes. O texto permite, por acordo individual escrito, a jornada 12 horas de trabalho e 36 de descanso.
A ideia de “negociado sobre legislado” que aparece na proposta de Zema também é defendida por Flávio e é refutada pelo programa de Lula. No texto protocolado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio defende “permitir que trabalhador e empresa combinem diretamente as condições de trabalho que funcionam para os dois, dentro da lei, em vez de seguir uma regra única imposta a todos”.
Apesar de prever “maior liberdade contratual e flexibilização das relações de trabalho” o candidato ponderou que a implementação dessas mudanças, incluindo jornada específica para mães e jovens, depende do aprofundamento de estudos e discussões junto ao Congresso Nacional e à sociedade.
O candidato ainda prevê duas formas de contratação mais flexíveis. Uma, para os jovens entre 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego, com menor custo na folha, e outra, para trabalhadores acima de 50 anos, desempregados há pelo menos 12 meses.
Em linha similar, Zema prevê zerar os encargos sobre o equivalente a um salário mínimo na contratação de quem está há mais de um ano na informalidade, em empresas de todos os setores.
O programa do candidato Lula prevê o combate à “pejotização espúria” com fiscalização e regras que inibam migrações fraudulentas, além de “aprimorar a legislação trabalhista”, alterando regras que induzem à precarização das condições de trabalho, fraudes presentes em terceirizações, e retomando assistência sindical nas homologações de rescisão do contrato de trabalho.
O plano prevê um “sistema de proteção aos trabalhadores na economia digital e de plataformas”. Um projeto de lei para regulamentar o trabalho de motoristas de aplicativo chegou a ser enviado pelo governo, mas não avançou.
O programa do atual presidente não detalha iniciativas para lidar com o avanço da IA sobre postos de trabalho, assim como o de outros candidatos. Mas, em resposta enviada ao Valor, Edinho Silva, coordenador-geral da campanha de Lula e presidente nacional do PT, informou que a redução da jornada 6×1 é primeiro uma demanda dos trabalhadores que precisam de mais tempo para saúde física, mental, família, mas também faz parte de uma “concepção mais ampla”.
“Precisamos aumentar a produtividade e desenvolver a economia em um mundo em que a tecnologia, principalmente a Inteligência Artificial, afetará diversos postos de trabalho”, afirmou.
“Assim como outras tecnologias inovadoras que vieram no passado, a IA terá impacto de destruir muitos empregos mas também de criar. Todas as grandes inovações foram assim, destruíram e criaram”, aponta Bruno Ottoni, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UerjJ), especialista em mercado de trabalho. “O governo poderia tentar trabalhar nesse processo, nessa transição. No fundo será necessário ajudar as pessoas a transitarem em suas carreiras”, afirmou.
A IA destruirá empregos, mas também criará. Todas as grandes inovações foram assim”
— Bruno Ottoni
Ainda segundo Ottoni, o principal ponto que opõe primeiro e segundo colocados, o “negociado sobre o legislado” é um tema que, na prática, varia com as situações concretas. “A grande questão nesse debate é se o legislado vai vingar, porque o Brasil tem muita informalidade”, aponta. Para Ottoni, o problema da aplicação prática das normas passa por diversos temas trabalhistas.
“Quando se fala no fim da escala 6×1, em que medida o Congresso legislar e dizer que não pode mais terá real impacto na vida dos trabalhadores?”, questiona. O professor considera importante discutir esses temas mas também monitorar e fazer uma análise de impacto após as medidas para saber quais são os efeitos, de fato, das políticas.
Segundo Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) na área de mercado de trabalho, o fim da escala 6×1 tende a gerar algum aumento no custo do trabalho, que teria que ser absorvido pelas empresas. As consequências, segundo o pesquisador, seriam maiores para as empresas menores, podendo afetar contratações futuras e a produção. O pesquisador estima que não deve gerar, necessariamente, desligamentos, pelo custo de demissão, mas redução de contratações nos próximos anos.
Para Duque, o “negociado sobre o legislado” tende a reduzir o poder de barganha de trabalhadores de baixa qualificação, privilegiando a desigualdade, uma vez que os de maior qualificação têm maior barganha individual e podem aumentar seus salários.
O Brasil chega às eleições com taxa de desocupação em 5,3% (no trimestre encerrado em julho de 2026, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O número de pessoas ocupadas chegou a 103,3 milhões, o maior já registrado pelo IBGE. Na comparação com o ano passado, o aumento foi de 0,9%. Em relação ao trimestre anterior, há 1 milhão de trabalhadores a mais.
A produtividade por hora trabalhada, por sua vez, caiu no primeiro trimestre, recuando 0,5%, ante igual período de 2025, quando variou 0,3%, conforme dados são do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Segundo Daniel Duque, quando o mercado está aquecido não importa muito qual legislação vigente, o desemprego fica baixo. Mas, a depender das regras, o desemprego demora mais a baixar em uma situação de crise. “É um trade off, não existe modelo certo, os dois têm benefícios e problemas que dependem da escolha de sociedade”, afirma, sobre modelos com maior ou menor regulação.
Os programas de governo de Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado não apresentam uma área destacada para mercado de trabalho, mas mencionam algumas iniciativas ao longo do texto dentro de outros temas. Cury cita, por exemplo, que o “governo brasileiro precisa valorizar pequenos empreendedores” e prevê melhores condições de trabalho para professores e forças de segurança, sem detalhar o que seria feito. O candidato aponta preocupação com o desemprego gerado pela inteligência artificial e aponta o empreendedorismo como resposta geral ao mercado de trabalho.
O programa de governo do candidato Renan Santos também não traz previsão específica para o mercado de trabalho, mas em declarações e material disponibilizado em seu site, propõe “substituir a CLT dos anos 40 por um marco de flexibilização radical”, extinguir a Justiça do Trabalho e usar seus R$ 23 bilhões anuais para reduzir impostos sobre a folha.
Pela proposta, contratante e contratado decidem livremente as modalidades de contrato, “dentro de limites de jornada e de parâmetros que evitem abusos”, afirma, sem dizer quais seriam. A proposta “posiciona-se frontalmente contra a PEC do fim da escala 6×1”. Será possível, “comercializar sua força de trabalho de acordo com sua necessidade, podendo acumular diferentes contratos ou jornadas sem as amarras da CLT”, diz o texto.
Ronaldo Caiado, por sua vez, fala em modernizar o mercado de trabalho e cita pontos gerais, sem detalhar, como a necessidade de promover formação contínua, intermediação digital, apoio à transição profissional, inclusão de jovens e mulheres, segurança para novas formas de trabalho e redução dos custos “que empurram pessoas e empresas à informalidade.”
O candidato também menciona formar trabalhadores para a “economia do futuro”, preparando as pessoas para as oportunidades reais de trabalho, com formação técnica conectada às vocações de cada região. Nesse trecho cita a expansão do ensino técnico e profissional e a atualização dos currículos para inteligência artificial, automação, entre outros pontos.
Todas as campanhas dos candidatos citados foram procuradas. Somente as equipes dos candidatos Flávio Bolsonaro e Lula responderam questionamentos feitos pela reportagem, por e-mail.