Crítica | Monstro: A História de Lizzie Borden – Plano Crítico

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A série antológica Monstro, idealizada por Ryan Murphy e Ian Brennan para a Netflix, consolidou um padrão dramático focado na dissecação psicológica de figuras criminosas infames e na desconstrução do espetáculo midiático que orbita seus atos. Há alguns recortes entre as idas e vindas, em suas linhas narrativas, escolhas que funcionam melhor entre uma temporada e outra, mas, no geral, o saldo reflexivo e o entretenimento são garantidos em seus oito episódios padronizados em torno dos 50 minutos. Longe de ser apenas um retrato puramente factual do subgênero true crime, a produção estabeleceu como convenção principal a mistura entre fatos históricos e liberdades ficcionais, utilizando frequentemente narradores não confiáveis e múltiplas perspectivas para questionar a subjetividade da verdade e as falhas institucionais do sistema jurídico e da imprensa. Os roteiros exploram a fundo os traumas de infância, os abusos domésticos e os ambientes sociais opressores que moldam ou catalisam o comportamento desviante de seus protagonistas. Há um esforço estético e narrativo constante para alternar entre o horror visceral das atrocidades cometidas e uma perturbadora empatia dramática, forçando o espectador a confrontar não apenas a violência em si, mas a complexa engrenagem social que permite o florescimento da monstruosidade humana dentro de contextos cotidianos.

Até então, essa abordagem múltipla guiou a antologia por diferentes períodos e temáticas da história criminal estadunidense, evoluindo significativamente a cada nova temporada lançada na plataforma. A jornada começou com o retrato sombrio do canibalismo e do preconceito sistêmico em Jeffrey Dahmer, avançou pelo parricídio motivado por abusos e traumas familiares na controversa perspectiva dos Irmãos Menendez e, logo depois, mergulhou no horror psicológico profundo de Ed Gein, cujas bizarrices rurais moldaram os maiores mitos do terror na cultura pop. Em sua quarta empreitada, a franquia expandiu seus próprios limites ao lançar A História de Lizzie Borden, marcando a primeira vez que uma mulher assume o papel central da antologia. Ambientada na sufocante e patriarcal Era Vitoriana do final do século XIX, a trama reimagina os célebres assassinatos a machado com um viés marcadamente feminista e provocativo, interligando a repressão de gênero vivida pela protagonista a outras figuras históricas femininas e estabelecendo uma linha do tempo conceitual que debate as razões estruturais pelas quais as mulheres matam. Com alto potencial, a jornada possui muitos bons momentos, mas a escolha corajosa de mudar de linha temporal nem sempre rende coesão. Isso fica bastante evidenciado desta vez, com a intrigante história de Borden, central, mas nalgumas vezes, mas dispersa diante da ansiedade do texto dramático em interligar a sua biografia com ícones de outras épocas.

Desta vez, Monstro gira em torno do sufocante cotidiano da abastada e disfuncional família Borden no final do século dezenove, onde a protagonista Lizzie Borden, interpretada por Ella Beatty, vive sob o controle financeiro e psicológico de seu avarento pai Andrew (Charlie Hunnam), e de sua hostil madrasta Abby (Rebecca Hall). A rotina de humilhações e repressão emocional da era vitoriana começa a se estilhaçar com a chegada da nova empregada doméstica Bridget Sullivan (Vicky Krieps), apelidada de “Maggie”, a “irlandesa” que rapidamente se torna a principal confidente, aliada e interesse afetivo de Lizzie. A personagem introduz uma forte influência subversiva na casa, alimentando os desejos ocultos de vingança de Lizzie e incentivando-a a abraçar sua própria escuridão interior. À medida que a dinâmica de poder e desejo entre as duas mulheres se intensifica, o ambiente doméstico se transforma em um caldeirão de fúria reprimida que culmina no sangrento e infame duplo homicídio a machadas, desencadeando um julgamento midiático que divide a opinião pública da época e deixa marcas indeléveis na história criminal.

A estrutura narrativa é tecida, construindo pontes conceituais que conectam a fúria feminina por meio dos séculos, por meio de figuras históricas marcantes. Essa ligação começa quando Maggie presenteia Lizzie com um livro sobre a Condessa de Sangue, Elizabeth Báthory, uma nobre húngara do século dezesseis famosa por seus massacres, interpretada em sequências estilizadas e góticas pela própria Vicky Krieps, aqui ótima em sua dupla interpretação. O fascínio de Lizzie por essa figura atemporal serve como o catalisador psicológico necessário para o seu próprio crime, mas a série expande essa teia histórica ao saltar para o final dos anos 1980 e começo da década seguinte, para introduzir Aileen Wuornos, vivida por Sarah Paulson. A notória assassina em série do século XX surge na narrativa, demonstrando uma obsessão pelo legado deixado por Lizzie Borden, fechando um ciclo temporal complexo onde a história de violência de uma mulher reverbera e inspira a próxima geração. Através desses paralelos entre a Hungria renascentista, o Massachusetts vitoriano e a fúria urbana de quatro décadas atrás, a antologia utiliza o recurso não linear para debater as razões estruturais e o sofrimento histórico que transformam mulheres em criminosas ao longo das eras. Paulson é uma atriz brilhante e entrega um desempenho espetacular, mas é nesta abordagem que a temporada encontra seu gargalo.

Explico mais adiante, no desfecho. Vamos, por enquanto, aos aspectos estéticos.

A direção de fotografia desta temporada de Monstro utiliza o contraste visual para traduzir a opressão psicológica vivida pela protagonista, dividindo-se entre a rigidez cinzenta da Massachusetts vitoriana e o calor febril das mentes criminosas. Nos cenários do final do século dezenove, as câmeras adotam planos estáticos, composições simétricas e uma iluminação naturalista e fria, que simula a luz que passa por janelas pesadas, evocando a sensação de aprisionamento e monotonia doméstica. Esse realismo histórico é quebrado de forma radical durante os saltos temporais e os delírios de Lizzie, momentos em que a fotografia assume cores saturadas, tons expressionistas de vermelho e movimentos de câmera muito mais fluidos e agressivos para representar a libertação e o caos. Esse trabalho visual se alinha perfeitamente ao design de produção, que reconstrói a residência dos Borden não como um lar acolhedor, mas como uma extensão física da avareza e do puritanismo de Andrew Borden, repleta de móveis escuros, cômodos claustrofóbicos e papéis de parede em tons sufocantes que amplificam a tensão constante entre os personagens. Em contrapartida, as sequências da Condessa de Sangue ganham uma suntuosidade gótica e decadente, enquanto o núcleo dos anos oitenta foca no visual decadente e nas texturas granuladas de motéis marginalizados de beira de estrada. O design de som também entrega um excelente trabalho. Cada machadada é cuidadosamente entregue para que nossa audição se sensibilize. A forma nunca é uma má questão de Monstro.

Os problemas mencionados anteriormente? Simples. O desenvolvimento de Aileen Wuornos não recebe o devido esmero na edição, o que gera quebras de ritmo e, por vezes, atrapalha o andamento da curiosa história central de Lizzie Borden. Embora a violência gráfica seja uma ferramenta importante para retratar a brutalidade desses crimes reais, a produção frequentemente descamba para o sensacionalismo visual desnecessário, provando que esses excessos narrativos e estéticos comprometem o impacto da obra. Ainda assim, essas escolhas irregulares não tornam a antologia ruim, mas evidenciam como o equilíbrio teria elevado ainda mais o potencial desse novo ano. Essa abordagem focada no choque resulta na perda de uma oportunidade preciosa para aprofundar as motivações do passado dos personagens, deixando de lado nuances psicológicas que enriqueceriam o enredo. Ao priorizar os excessos visuais e a brutalidade imediata, a narrativa esvazia o aspecto lendário e quase mitológico que cerca a figura de Lizzie. No fim, a obsessão em chocar o público se sobrepõe à construção de um mistério mais refinado e historicamente fascinante. Em algumas passagens, tornam os episódios longos demais, nos desfocando do ponto nevrálgico de todo drama apresentado.

Assim, a série nos mostra que o legado da personagem ainda lateja. A presença de Lizzie Borden na cultura popular ultrapassou os limites do registro histórico para se consolidar como um dos mitos fundadores do true crime norte-americano, gerando um fascínio que atravessa gerações. O impacto inicial de seu caso se manifestou de forma folclórica por meio de uma famosa cantiga infantil de corda que imortalizou os assassinatos de forma macabra e exagerada, repetida por décadas em pátios escolares como uma lenda urbana musicalizada. Essa transformação de uma figura real em um ícone pop de terror demonstra como o público tendeu a processar a violência doméstica extrema através do folclore e do humor sombrio, transformando o machado em um símbolo quase mitológico de rebelião e horror. Ao longo das décadas, o nome de Lizzie Borden deixou de evocar apenas o horror de um crime não resolvido e passou a personificar o mistério da mente humana, o mistério da culpa protegida pelo silêncio social e o choque de uma sociedade que se recusava a acreditar que uma mulher de alta classe pudesse cometer tamanha atrocidade. Esse é um apelo cinematográfico e televisivo duradouro que reside justamente na ambiguidade de sua figura e no potencial de reinterpretação que sua história oferece para diferentes épocas e movimentos artísticos.

Monstro: A História de Lizzie Borden (Monster: The Lizzie Borden Story – EUA, 2026)
Criação: Ian Brennan
Direção: Max Winkler, Sarah Adina Smith
Roteiro: Ian Brennan
Elenco: Ella Beatty, Vicky Krieps, Charlie Hunnam, Rebecca Hall, Billie Lourd, Joey Pollari, Jessica Barden, Sarah Paulson, Linda Reiter, Scarlett DeMeo, Alan Heitz, Ezra Buzzington, Jessie Lee
Duração: 434 minutos/08 episódios.



[Fonte Original]

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