Os consumidores americanos podem estar gastando mais para abastecer nos postos de combustíveis, porém os contribuintes também arcarão com os custos do abastecimento do oitavo porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos. O contrato foi concedido à Newport News Shipbuilding, divisão da Huntington Ingalls Industries, para o Reabastecimento e Revisão Complexa (RCOH, na sigla em inglês) da embarcação de guerra.
O massivo e plurianual processo de manutenção de meia-vida incluirá o reabastecimento dos dois reatores nucleares do porta-aviões, além da modernização e atualização da embarcação para garantir que permaneça operacional por mais 25 anos. O termo “complexo” não é um exagero, visto que exigirá que o porta-aviões seja parcialmente desmontado e depois remontado.
O procedimento responde por cerca de 35% de toda a manutenção e modernização de todo o ciclo de vida do navio, visto que inclui a atualização dos equipamentos de propulsão, sistemas eletrônicos e de apoio ao combate, infraestrutura habitacional e intervenções em milhares de componentes e tanques da embarcação. O CVN-75 chegou à NNS na quarta-feira e iniciará o processo de reabastecimento após anos de planejamento.
“Adotamos uma abordagem proativa, desde o pedido de materiais de longo prazo até a realização de milhares de inspeções e trabalhos preliminares, para garantir o sucesso do RCOH do USS Harry S. Truman”, disse Bryan Caccavale, vice-presidente de gestão de programas da NNS, em comunicado oficial da empresa. “Este extenso projeto de engenharia e construção para preparar o navio para retornar à frota é um esforço conjunto entre construtores navais, fornecedores e nossos parceiros da Marinha, e nos sentimos honrados em fazer nossa parte.”
Primeiro RCOH sob a gestão do PAE Maritime
O CVN-75 será o oitavo superporta-aviões da classe Nimitz a passar pelo RCOH. Será também o primeiro a realizar o procedimento desde a criação do Portfolio Acquisition Executive Maritime, organização centralizada do Departamento da Marinha dos EUA responsável direta pela entrega de navios de superfície, porta-aviões e capacidades de combate marítimo do início ao fim do ciclo de vida. O órgão foi estabelecido em março deste ano como parte das diretrizes de modernização de aquisições de defesa. O objetivo do departamento é reduzir a burocracia, acelerar a entrega de capacidades, aumentar a prontidão da frota e gerenciar a base industrial.
A estrutura utilizada é a de Teto Fixo com Incentivo, projetada para compartilhar riscos e incentivar o desempenho do construtor naval na busca do cumprimento dos prazos de entrega estabelecidos.
“Esta concessão é o exemplo mais recente de como estamos aproveitando abordagens contratuais inovadoras para impulsionar melhores resultados”, afirmou o contra-almirante Casey Moton, diretor interino do PAE Maritime, em nota da Marinha dos EUA. “Nossas equipes de gestão de programas e contratação trabalharam lado a lado para alcançar um contrato que incentiva o cumprimento de prazos, aborda as lições aprendidas e compartilha o risco de forma adequada para que possamos reentregar o Truman à frota dentro do orçamento e do cronograma.”
Trabalhos adicionais necessários
Além da manutenção regular do RCOH, a NNS reparará os danos estéticos externos resultantes da colisão do CVN-75, ocorrida em fevereiro de 2025, com o navio de carga de bandeira panamenha Besiktas-M, de 53 mil toneladas, nas proximidades do Canal de Suez.
O impacto com o navio mercantil Besiktas-M danificou um sponson (plataforma saliente) no convés de boreste, próximo a um dos elevadores de aeronaves, e rasgou as deparas externas de dois depósitos e de um espaço de manutenção. A execução do reparo foi adiada para lidar com acúmulos de trabalho mais amplos no estaleiro.
Durante o RCOH, a NNS também realizará o jateamento e a pintura do casco e das obras mortas, além de reparos nos propulsores, caixas de mar, eixos e lemes.
A Marinha dos EUA buscará evitar atrasos anteriores registrados durante o período de manutenção do RCOH do USS George Washington (CVN-73). A embarcação iniciou seu reabastecimento em 4 de agosto de 2017 e o processo se estendeu por 2.117 dias (aproximadamente cinco anos e nove meses), tempo quase equivalente ao necessário para construir o porta-aviões e cerca de dois anos a mais do que o previsto para um RCOH. Parte dos atrasos ocorreu por causa da pandemia de Covid-19 e do confinamento nacional, que paralisaram totalmente os trabalhos por um período.
Para grande parte da tripulação, a experiência foi extremamente desgastante. Os marinheiros moraram a bordo do porta-aviões durante a reforma — que era um canteiro de obras ativo — ou foram alojados em barcaças, enfrentando deslocamentos diários de duas horas. Muitos ficaram sujeitos a ruídos ensurdecedores, ventilação deficiente e sistemas de apoio sobrecarregados.
Tragicamente, nove marinheiros tiraram a própria vida durante o RCOH, incluindo três em uma única semana em abril de 2022.
O cenário levou a Marinha dos EUA a emitir recomendações abrangentes para melhorar a habitação, o estacionamento e os recursos de saúde mental nas manutenções em estaleiro. Adicionalmente, a Marinha dos EUA fará com que contratadas terceirizadas assumam uma parcela maior do trabalho, liberando os marinheiros para realizarem treinamentos técnicos avançados, matricularem-se em programas acadêmicos ou até mesmo migrarem para funções de desenvolvimento de carreira enquanto o CVN-75 estiver inativo.
Ainda assim, haverá muitos marinheiros que permanecerão no USS Harry S. Truman durante seu RCOH. Embora alguns possam acabar desempenhando funções genéricas fora de sua especialidade, muitos estarão presentes para ajudar na modernização do navio e adquirir experiência prática sobre como os sistemas são instalados e integrados.
O CVN-75 foi entregue originalmente à Marinha dos EUA em 1998. Agora, o USS Harry S. Truman tem conclusão do RCOH prevista para novembro de 2031. Ao ser reentregue à frota, a embarcação será “o porta-aviões da classe Nimitz mais tecnologicamente avançado”, segundo a Marinha dos EUA.
O USS Harry S. Truman iniciou formalmente seu período de preparação (Smart Start) para o RCOH em novembro de 2025, organizando o navio e a tripulação para o esforço plurianual de manutenção e modernização. O aspecto mais importante e custoso será o cumprimento do cronograma.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes EUA