A eleição voltou a elevar o risco na Bolsa brasileira, mas, em 2026, o investidor não recebeu a mesma compensação em retorno observada em pleitos anteriores. Às vésperas do primeiro turno, a volatilidade atingiu níveis recorde, enquanto o Ibovespa acumulava desempenho bem abaixo da média histórica nas janelas mais próximas das urnas.
Neste ciclo, a incerteza eleitoral se soma a juros e inflação historicamente elevados nos Estados Unidos, tensões geopolíticas e à disputa por capital com mercados considerados mais seguros – além do trade de inteligência artificial -, ampliando o risco sem a contrapartida de rentabilidade.
Levantamento da Nomad mostra que, até 18 de agosto, o Ibovespa acumulava queda de 11,5% nos seis meses anteriores ao primeiro turno, ante recuo médio de 2,2% entre 2006 e 2022. Em três meses, a baixa era de 4,4%, enquanto a média histórica apontava alta de 7,1%. A comparação muda no horizonte de 12 meses: em 2026, o índice avançava 15,3%, acima da média de 7,8%, indicando que o descolamento negativo se concentrou justamente na aproximação da eleição.
Dados mais recentes de volatilidade reforçam o aumento da percepção de risco perto da votação. O S&P/B3 Ibovespa VIX, que mede a expectativa de volatilidade do mercado acionário brasileiro, bateu na sexta-feira, 2, novo recorde, aos 33,21 pontos, maior nível desde o lançamento do indicador, em março de 2024.
Calculado a partir das opções sobre o Ibovespa, o VIX Brasil mede a volatilidade implícita esperada para os 30 dias seguintes. Quanto maior o indicador, maior a expectativa de oscilações intensas do índice, tanto para cima quanto para baixo. Acima dos 30 pontos, a metodologia indica um ambiente de turbulência mais elevada.
Esse padrão tem paralelo em eleições anteriores. Segundo a Nomad, a volatilidade do Ibovespa tende a aumentar no intervalo entre o primeiro e o segundo turno. Em 2014, 2018 e 2022, ela avançou depois da primeira votação e continuou subindo até a segunda.
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A estrategista de ações da Nomad, Rebecca Nossig, afirma que a particularidade de 2026 está justamente na ausência de uma compensação proporcional para o aumento do risco. “Há uma queda relevante e a volatilidade não está se traduzindo em retorno por conta do cenário de juros nos Estados Unidos, inflação e guerra.”
Na avaliação dela, o investidor enfrenta neste ano não apenas a incerteza característica da eleição brasileira, mas uma competição internacional por capital mais intensa do que em pleitos anteriores.
“Juro mais alto é bom para carry trade [estratégia em que o investidor toma dinheiro emprestado em um país com taxas de juros baixas para aplicá-lo em ativos de outro país com juros mais altos], mas tira dinheiro da Bolsa porque a renda fixa está pagando mais. Nesse contexto de aversão a risco, com petróleo em patamar elevado e sem espaço para corte de juros, esse dinheiro do estrangeiro foi tirado do Ibovespa e colocado em mercados mais seguros. E tivemos também o trade de IA: o investidor queria se alocar em inteligência artificial, e aqui não tem”, afirma.
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Dados da B3 mostram que os estrangeiros voltaram ao Brasil ao longo de setembro, pautados inclusive por um cenário de maior acirramento na disputa entre o presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o que sustenta a expectativa de que um governo aliado à direita represente maior austeridade fiscal. O ingresso, porém, não compensou a forte saída de agosto, quando preocupações com o cenário fiscal, o rebaixamento na recomendação de alocação por grandes bancos (como o JP Morgan) e a realocação para tecnologia tiraram R$ 18,1 bilhões do mercado.
Rebecca considera essa concorrência com ativos americanos uma diferença relevante em relação aos ciclos eleitorais anteriores. “O Brasil, em 2026, está lutando contra o mercado mais seguro do mundo pagando juros muito altos. É algo que não vimos nas demais eleições.”
A economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, Bruna Centeno, também vê a volatilidade como elemento central nesta reta final da disputa. “Volatilidade, sem dúvida, será o ponto da próxima semana. Não é algo que será definido no primeiro turno”, afirma. Ao mesmo tempo, Bruna avalia que os preços dos ativos brasileiros podem limitar parte do afastamento dos investidores. “O que importa é o preço. O capital vai para onde é melhor remunerado e não tem viés. Se estiver descontado aqui e for um bom preço de entrada, ele virá. Isso é histórico.”
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Mais recentemente, Rebecca identifica sinais de uma retomada tática do interesse pelo Brasil, com realização de lucros no segmento de inteligência artificial, maior procura por emergentes e a alta do petróleo, que favoreceu empresas relevantes para o Ibovespa. “Os investidores realizaram bons lucros, viram que os preços estavam esticados e começaram a olhar para mercados emergentes. Isso acabou trazendo o investidor para cá para um trade tático”, diz.
O analista de investimentos do Andbank, Fernando Bresciani, avalia que a incerteza não deverá desaparecer com a primeira votação. “Depende demais do segundo turno. Aí se começa a ter mais certeza do que poderá vir, quem será o ministério e podem começar a vir as coisas. Tem muita incerteza ainda.” Para ele, o nível elevado dos juros adiciona outro obstáculo à renda variável justamente em um momento de maior risco político. “A bolsa é inimiga do juro, e o inimigo está forte. Então tem que agir dentro dela com cautela.”