A Associação dos Cientistas Ambientais do Brasil (AMB) divulgou no último domingo (18) uma carta em oposição à eventual eleição de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. No texto, a entidade se dirige a quem votou em Flávio no primeiro turno e a quem não foi votar para que votem “contra o negacionismo e em defesa da vida, da ciência e do futuro do Brasil”.
Para a AMB, as propostas de Flávio “revelam intenções incompatíveis com as evidências científicas amplamente consolidadas” e com “compromissos fundamentados na ciência” para o enfrentamento dos problemas socioambientais.
Do outro lado da disputa, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), conhecida popularmente como Bancada do Agro, declarou apoio a Flávio antes mesmo do primeiro turno.
A frente é presidida pelo deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR) e tem como vice-presidente um nome anteriormente cogitado para dividir a chapa com o senador: a senadora Tereza Cristina (PP-MS).
A FPA argumentou que a decisão se deve a convergências entre os interesses que defende e as propostas do plano de governo de Flávio. Expressou ainda a esperança de que o Congresso Nacional, em 2027, consiga aprovar “soluções que tragam um novo ambiente econômico de estabilidade, previsibilidade e prosperidade”.
As duas entidades não são equivalentes. A AMB é composta por profissionais formados em ciências ambientais e ciências socioambientais de universidades públicas e privadas ao redor do país. Já a FPA é composta por parlamentares ligados ao agronegócio.
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Veja as propostas
Agro
Os planos de governo de Lula e Flávio possuem abordagens diferentes sobre agronegócio e meio ambiente, mas há convergências práticas, sobretudo em relação ao agro. Convergem, por exemplo, na proposta de fortalecer o seguro rural para ampliar a proteção financeira.
Ambos os candidatos falam do agro como um setor estratégico. Lula afirma que o agronegócio é “fundamental” para o PIB e para a balança comercial. Já Flávio foca na importância para a segurança alimentar e para o crescimento econômico do país.
Sobre o financiamento do setor, Flávio fala em ampliar o acesso ao crédito e disponibilizar instrumentos de securitização e reorganização das dívidas. Lula, por sua vez, é mais específico: propõe ampliar o orçamento do Plano Safra, harmonizar as taxas de juros com a rentabilidade e conceder financiamento a máquinas, irrigação e técnologia.
Já em relação à irrigação, o candidato do PL foca na desburocratização do acesso à água, enquanto Lula foca nas mudanças climáticas para propor o aumento das áreas irrigadas.
Uma das divergências fortes, no entanto, é em relação à regularização fundiária. Apoiado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o petista enfatiza a reforma agrária e a titulação de terras a quilombolas e comunidades tradicionais. Flávio, por sua vez, fala em proteger o direito de propriedade e a segurança jurídica, ao mesmo tempo em que quer acelerar a titulação de terras a pequenos proprietários.
Meio ambiente
Quanto ao meio ambiente, Lula promete alcançar o desmatamento líquido zero até 2030. Flávio, por sua vez, estabelece como meta zerar o desmatamento ilegal até 2029. As propostas não são equivalentes: a meta de Lula considera o balanço entre desmatamento e recuperação da vegetação, enquanto a de Flávio admite supressões autorizadas pela legislação.
Os dois candidatos defendem o mercado de carbono e mecanismos para transformar a preservação ambiental em fonte de renda. O programa de Lula destaca a continuidade do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e dos instrumentos de financiamento climático. Já Flávio promete consolidar o mercado regulado de carbono e ampliar o pagamento por serviços ambientais a produtores, comunidades e proprietários que conservem vegetação nativa ou recuperem áreas degradadas.
As diferenças voltam a aparecer na fiscalização. Flávio propõe concentrar a repressão em crimes como grilagem, ocupação de terras públicas e desmatamento ilegal, ao mesmo tempo em que afirma que produtores que cumprem a legislação não devem ser tratados como suspeitos. O candidato também promete eliminar sobreposições entre Ibama, Funai e ICMBio. Lula defende a continuidade dos planos de prevenção e controle do desmatamento, do manejo integrado do fogo e das políticas para garantir o cumprimento do Código Florestal e da Lei da Mata Atlântica.
Há ainda diferença na política climática internacional. Lula reafirma a meta brasileira de reduzir entre 59% e 67% das emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035 e propõe continuar o debate internacional sobre uma transição para longe dos combustíveis fósseis. O plano de Flávio não apresenta meta geral equivalente de redução de emissões, mas prevê ampliar biocombustíveis, mercado de carbono, bioeconomia e outras fontes de energia limpa.