Mais de 158 milhões de brasileiros são esperados neste domingo nas urnas para decidir os destinos do país pelos próximos quatro anos. Independentemente das escolhas que farão — as pesquisas sugerem uma disputa equilibrada entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —, o dia de hoje deve ser celebrado por representar, mais uma vez, o mais sagrado ritual das democracias: o voto.
A vontade do eleitor é soberana, e somente a ele cabe eleger os políticos que o representarão. Para cumprir tal direito, alguns percorrerão longas distâncias até o local de votação, outros estarão mais perto das seções eleitorais, sem filas numa eleição mais simples. Ao fim, saberão que, com o gesto ao mesmo tempo simples e grandioso de digitar poucas teclas na urna eletrônica, terão ajudado a escrever a História do Brasil.
O recado saído das urnas é cristalino. Representa a vontade do cidadão comum, expressando os rumos que deseja para o país. Em eleições de segundo turno, o “sim” a um candidato é um “não” ao concorrente, e ganha quem tiver mais votos. Ganha a democracia.
Esta é a décima eleição presidencial consecutiva desde a redemocratização. O brasileiro vive o período democrático mais longevo da História do país. É verdade que, nestas quatro décadas, nem tudo seguiu o roteiro vislumbrado. Houve dois impeachments de presidentes, uma tentativa de golpe de Estado, diversas cassações e escândalos de corrupção. Em todos esses casos, contudo, a democracia, valendo-se de suas próprias instituições, superou a crise e seguiu em frente, revigorada.
A enorme quantidade de eleitores e as dimensões continentais do Brasil impõem desafios logísticos colossais, que têm sido superados exemplarmente a cada eleição. Em termos de tecnologia, organização e confiabilidade, o trabalho da Justiça Eleitoral brasileira se tornou referência no mundo todo. As eleições do primeiro turno mais uma vez demostraram um sistema ágil, robusto e confiável. Com menos candidatos, a tendência é a apuração do segundo turno ser ainda mais célere. Na noite de hoje, o país já deverá conhecer seu próximo presidente e os seis governadores que faltam.
Na eleição para presidente, espera-se um pleito acirrado. No primeiro turno, Flávio chegou à frente de Lula por uma diferença inferior a 2 pontos percentuais, ou 2,2 milhões de votos. As duas campanhas têm conclamado o eleitor a ir às urnas, temendo que o resultado seja influenciado pela abstenção. No primeiro turno, ela alcançou o recorde de 21,08%, ou 33,4 milhões de eleitores. Num pleito equilibrado, tamanho contingente pode fazer diferença.
O equilíbrio nas urnas reflete duas visões de Brasil. Pela análise da votação do primeiro turno, o Brasil que escolheu Lula está ligado às classes mais pobres, a negros, mulheres e minorias, à força da Região Nordeste, mas também ao mundo sindical, acadêmico e científico, a expoentes da classe artística e ao funcionalismo público. É um Brasil que acredita na proteção do Estado, em mais benefícios sociais e mais direitos trabalhistas, tem uma visão progressista nos costumes e valoriza a intervenção estatal na economia.
O Brasil que escolheu Flávio, em contraste, é essencialmente conservador nos costumes e mais religioso, com força entre os evangélicos. Está ligado às classes médias urbanas, aos centros do agronegócio no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, mas também à elite financeira paulistana, a setores do empresariado e a pequenos empreendedores de todos os tipos. É um Brasil que quer ver o Estado longe das relações econômicas e de sua vida. Embora exija condições dignas de trabalho, prefere a flexibilidade da economia digital à rigidez das leis trabalhistas.
Apesar de aparentemente serem antagônicos, esses dois Brasis são complementares. Na realidade, formam um só país, onde os mesmos problemas afligem a todos: a qualidade sofrível dos serviços públicos, em especial saúde e educação; a violência nas ruas e o avanço assustador do crime organizado sobre os territórios, sobre a economia e sobre as instituições; a vida caótica nas grandes cidades com carências de habitação, transporte e saneamento; o desequilíbrio crônico das contas públicas, num Estado capturado e corroído por interesses corporativos e paroquiais, incapaz de financiar, mesmo com carga tributária escorchante, tudo o que a Constituição promete.
Ao longo da campanha, foi notável a falta de um debate robusto sobre tais problemas. Questões como Previdência, segurança, saúde, educação foram tratadas de forma superficial e enviesada. Os dois candidatos exorbitaram nos anúncios de bondades para agradar a nichos eleitorais. Prometeram mundos e fundos sem dizer de onde tirariam os recursos para pagar. É evidente que, no próximo governo, o país precisará passar por um ajuste fiscal para equilibrar as contas. Mas isso tampouco foi discutido seriamente.
Na campanha de modo geral, os ataques pessoais prevaleceram sobre as propostas. A resistência dos candidatos a participar de debates também prejudicou o direito do eleitor à informação. No primeiro turno, os brasileiros foram às urnas sem assistir a um único confronto de ideias entre os principais postulantes à Presidência. Felizmente, o equívoco foi corrigido no segundo turno.
O parágrafo único do artigo primeiro da Constituição afirma textualmente: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Está na hora de o eleitor exercer esse poder, sem interferência de parentes, amigos, patrões, influenciadores ou quem quer que seja. Deve escolher quem mais se identifica com suas aspirações. A imprensa profissional tem contribuído para informar os cidadãos, revelando erros, irregularidades e também acertos dos políticos. Cabe a cada um de nós fazer sua escolha. Ao vitorioso, cumprir o que prometeu. E ao derrotado, respeitar a voz das urnas. É assim que funcionam e vivem as democracias.