A política econômica do novo governo Lula ainda está sendo definida, em conversas intensas que vêm ocorrendo nos palácios do Planalto e Alvorada. O resultado deverá sair do embate de ideias entre integrantes da atual equipe econômica e quadros históricos que deram as cartas no passado em governos petistas.
No primeiro dia após o segundo turno, o presidente Lula chamou ao Palácio do Planalto o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o ministro do Planejamento, Bruno Moretti. Essa ala defende a continuidade e o aprofundamento do ajuste nas contas públicas em curso, com medidas já sinalizadas, como o aperfeiçoamento do arcabouço fiscal. As conversas ainda estão em curso e haverá novos encontros.
Outro grupo com acesso aos ouvidos do presidente Lula tem entre seus integrantes mais notórios o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que é uma referência entre os nomes que deram as cartas em governos passados. E o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, subiu no palco no discurso da vitória no domingo.
Há diferentes visões dentro desse grupo formado por veteranos na política econômica, mas nele há uma razoável convergência em torno do diagnóstico de que, neste quarto mandato, o presidente Lula deveria evitar repetir o que consideram um erro cometido na reeleição da presidente Dilma Rousseff.
Muitos desses ex-integrantes da equipe econômica avaliam que o impeachment da presidente Dilma se deveu ao ajuste nas contas públicas liderado pelo então ministro da Fazenda Joaquim Levy.
Ou seja: o problema não teria sido a fragilização das contas públicas ocorrida sob a liderança de Mantega – o real vetor da recessão dos anos seguintes -, mas sim uma espécie de estelionato eleitoral representado pelo ajuste nas contas públicas sob a mão forte de Levy.
Nos meses que antecederam a eleição, os técnicos da área econômica procuraram passar para o mercado, em mensagens muito cuidadosas, algumas diretrizes do ajuste pretendido. Deveria haver uma revisão do arcabouço, para torná-lo menos permissivo. A indexação de despesas ao salário mínimo é agenda espinhosa, mas que precisa ser examinada. As generosas renúncias e incentivos fiscais também fazem parte do cardápio básico.
As críticas dessa ala mais desenvolvimentista não se dirigem apenas à política fiscal. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, tem sido acusado de tentar tutelar a política fiscal – e a direção mais geral da política econômica – com uma política de juros que consideram excessivamente altos. Rechaçam o diagnóstico de que os juros altos são, na verdade, uma consequência do fiscal fora dos trilhos.
A disputa pelos ouvidos do presidente Lula entre os dois grupos – um pró-ajuste e outro que defende uma política desenvolvimentista, algo como dobrar a aposta do que foi feito durante a campanha eleitoral – inclui a definição de novos nomes para compor o novo governo.
Desde segunda-feira (26), circulam no mercado financeiro rumores sobre pessoas que eventualmente possam compor a diretoria do Banco Central, que tem dois cargos vagos e terá mais dois em fevereiro.
Um dos nomes que chamaram a atenção de participantes do mercado financeiro é André Roncaglia, representante brasileiro no Fundo Monetário Internacional (FMI).
Em setembro, conforme noticiado pelo Valor, Roncaglia havia dito, em um artigo, que a “ambição desmedida” que levou à definição da meta de inflação de 3% pode ser um “fator de explicação da elevada taxa de juros brasileira”.
Na visão de participantes do mercado, hoje há uma incerteza muito grande na política econômica. Foi isso que levou à reprecificação no primeiro dia de pregão após o segundo turno das eleições. Os preços não estão oscilando de forma tão dramática porque estão à espera de uma definição que represente uma âncora fiscal.
Os comentários sobre a tentativa de nomear economistas de perfil mais desenvolvimentista para o BC têm disseminado o receio de que seja quebrada a única âncora que vem funcionando: a política monetária.
A credibilidade do BC tem impedido que, mesmo num quadro de muita indefinição, a taxa de câmbio suba a patamares muito mais altos. O diferencial de juros externo e interno foi um dos motivos mais citados para o dólar ter recuado depois de chegar a R$ 5,60. O risco é a taxa de câmbio superar R$ 6 e as expectativas de inflação sofrerem novas rodadas de deterioração, o que levaria a uma profecia autorrealizável de inflação mais alta.
Neste momento, os mercados também estão na expectativa da escolha do ministro da Fazenda. Conforme antecipado pelo Valor, alguns dos nomes cogitados são o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o vice-presidente Geraldo Alckmin.
Muitos participantes do mercado consideram que a definição, o quanto antes, do ministro da Fazenda é fundamental para que ele seja identificado como o fiador da agenda econômica que será implementada.