Crédito, Erik Thor/Arquivo pessoal
No dia em que completaram dez anos de casados, a escritora, doutora em Educação e sexóloga Ilana Eleá fez uma proposta para o marido: sair da monogamia e abrir a relação.
Ela já vinha estudando o tema há algum tempo e começava a escrever o primeiro livro de uma trilogia erótica, Emma e o sexo (ed. E-galaxia). Por isso, conta que usou “a cartada da Emma” para colocar em prática o que vinha pesquisando.
O marido aceitou a proposta, e eles celebraram bebendo champanhe.
Formando-se como terapeuta sexual pela Contemporary Center of Clinical Sexology, a brasileira, que vive na Suécia desde 2011, conta que seu formato de relação hoje é possível porque ela mudou.
“Eu tinha ciúme no meu relacionamento anterior, inclusive de fantasia”, conta.
Sua vida conjugal, ela diz, é muito melhor hoje, vivendo o que ela chama de “relacionamento misto” há cinco anos.
Mas não romantiza. “Um terço dos relacionamentos que abrem depois terminam. Por outro lado, essa também é a média de relacionamentos monogâmicos que terminam. Ou seja, no fundo, dá no mesmo. Então é melhor você escolher qual o formato com que você se identifica mais.”
Aos que escolhem por um relacionamento não monogâmico, Ilana explicou, na entrevista à BBC News Brasil a seguir, as fases mais comuns pelas quais os casais passam e quais os passos para quem deseja iniciar essa mudança.
BBC News Brasil – O termo que você usa para falar dos relacionamentos fechados é monogamia consensual. O que quer dizer?
Ilana Eleá – Eu acho muito importante, antes de discutir qualquer tema relacionado com a não monogamia, deixar bem claro de qual monogamia estamos falando.
Eu trabalho com o conceito de não monogamias, no plural, que no inglês é consensual no monogamys, ou seja, não monogamias consensuais.
Esse conceito trabalha com uma ideia plural vasta. Todo e qualquer tipo de relacionamento que seja consensual entre os envolvidos e que flexibilize, de alguma maneira, em qualquer grau, essa ideia pressuposta de exclusividade, seja afetiva, seja erótica, romântica sexual, é entendido dentro do conceito guarda-chuva.
Todas essas práticas vão caber dentro das não monogamias consensuais.
BBC News Brasil – E quais são essas práticas?
Eleá – Cabe praticamente tudo, se for feito com consentimento de todas as partes envolvidas. E não tem um juízo de valor ou um juízo moral. Por exemplo, quem pratica swing [troca de casais] seria menos evoluído ou menos ético do que quem tem um relacionamento aberto? Ou quem vive o poliamor seria mais elevado do que quem vive outras formas de relacionar? Para o campo da Psicologia, da Sexologia, não existe isso.
E é esse conceito de não monogamias no plural, que é usado nos manuais de formação de psicólogos e sexólogos internacionalmente.
BBC News Brasil – Quais são os primeiros passos que os casais costumam dar para abrir um relacionamento?
Eleá – O modelo mais comum é o chamado don’t ask, don’t tell [não pergunte, não conte]. Seria algo como “eu acho que eu estou entendendo que a exclusividade talvez não seja tão possível e desejada entre a gente. Mas eu não quero saber. Não me conta, e eu também não vou perguntar”.
Geralmente, quando você começa por essa linha, muito rapidamente você percebe que ela é muito vulnerável. Porque está faltando a comunicação sincera, a honestidade. A pessoa fala “vou ficar até mais tarde no trabalho”, e você pensa “será que está mesmo no trabalho? Será que encontrou outra pessoa?”. Então, o que era para aproximar, acaba distanciando.
Mas antes ainda de conversar com o seu parceiro, sua parceira, pense: o que a gente tem aqui no nosso relacionamento? Qual é a nossa força? O que está faltando? A gente sente que está faltando alguma coisa? Qual é a nossa curiosidade? Qual é a minha curiosidade? Qual é o meu desejo? Qual é o meu limite?
Isso a gente chama de inventário emocional. É quando você ali, sozinho, pensa se tem alguma fantasia que você gostaria de ter realizado, que não realizou, e que talvez não caiba dentro do seu formato de relacionamento.
Tem alguma coisa, uma curiosidade incrível por alguma coisa? Um desejo? Anota. Não é fácil, porque às vezes a gente se censura, mas tente chegar o mais próximo da honestidade possível. Ninguém está vendo ainda. É só você com você. Pense no que é hábito. Pergunte: tenho escolha? E se eu tivesse escolha, como é que seria?
Passo número dois: diálogo. Antes de abrir qualquer relação para qualquer formato, tem que abrir o diálogo. É um momento duro, que não é fácil, principalmente para quem cresceu socializado dentro dessa ideia de que o amor romântico, a monogamia, seria a forma mais nobre de se amar e que simboliza o respeito e a lealdade entre as pessoas que se amam. E aí são feitos os acordos. Até onde? Você vai abrir como? Com quem?
Tem gente que fala que em viagem pode (risos). E [é importante] não ridicularizar, não minimizar esses limites, ter empatia para o limite do outro. Entender que tudo isso é uma desconstrução muito grande dentro do que a gente entende como o esperado da gente.
Então, todos os passos são bem-vindos. E esse ritmo psíquico de cada um na relação tem que ser entendido. Porque se você pensa, “ah, eu vou impor a minha vontade”, isso não é consensual. Os dois querem realmente? Estão prontos? Seus limites estão definidos e os seus transbordamentos também estão definidos?
E aí o terceiro passo, que é parte também fundamental desse tripé, é a rede de apoio. Vá ler sobre o assunto, escutar podcast. Procure grupos de acordo com o seu interesse. Você tem interesse em swing? Quem são as pessoas que se organizam também sobre isso, como rede? Esse contato de comunidade é importante, porque não é fácil. Você pode sofrer muito estigma.
Procure um acompanhamento, um guia terapêutico, de preferência com profissionais que tenham uma visão pluralista, que entendam que essa seja uma forma, ou sejam formas dignas de viver o amor.
BBC News Brasil – É comum que casais que estão juntos há muito tempo decidam abrir a relação como uma espécie de última tentativa antes da separação? Por que isso acontece?
Eleá – Abrir para consertar algo que não está bom, esquece. Vai dar ruim, como se diz. Não vai dar certo. Não é terapia. Não é a última carta do baralho.
A abertura acontece geralmente de forma consciente e integrada quando o relacionamento está bom, mas você quer melhorar junto. Você já tem ali a sua rede, a sua capacidade de comunicar o que você deseja, de ouvir o outro, e querem tentar juntos.
Um terço dos relacionamentos que abrem depois terminam. Por outro lado, essa também é a média de relacionamentos monogâmicos que terminam. Ou seja, no fundo, dá no mesmo. Então é melhor você escolher qual o formato com que você se identifica mais.
BBC News Brasil – O que é “poliamor com ou sem hierarquia”?
Eleá – Dentro desse vasto campo de práticas relacionais das não monogamias, tem o swing, o relacionamento aberto, o poliamor. E esse poliamor se divide. É muito vasto. São pessoas que se interessam por não ter só flexibilidade entre erotismo e amor, mas também por nutrir vínculos, com uma ou mais pessoas, amorosos, duradouros, familiares. Tem uma variedade…
Tem um poliamor hierárquico, que geralmente você define quem pode estar dentro. Tem até gente que fala que parece uma monogamia dentro da não monogamia. Ali você tem a hierarquia do casal.
Isso vale para o relacionamento aberto também. Você tem o casal, e geralmente você flexibiliza para encontros fortuitos, eróticos, sexuais, recreativos. Mas a hierarquia significa que o relacionamento do casal vem primeiro.
Já no poliamor não hierárquico, por exemplo, a pessoa que mora com você não precisa ser escolhida [como prioridade] só por conveniência. Se você está com desejo, você vai priorizar aquela relação, e não a dita nesting partner [em termos gerais, parceiro romântico com quem se divide também a casa].
E aí tem várias configurações: anarquia relacional, não monogamia política.

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BBC News Brasil – O que seria a anarquia relacional?
Eleá – É uma ideia ainda mais radical: a amizade não seria diferente de um relacionamento amoroso. É contra esse tipo de marcas identitárias e etiquetas nos relacionamentos.
A anarquia relacional também traz a importância dos amigos. É um dos grandes críticos daquela coisa que a gente já sabe, se apaixonou, sumiu (risos).
De forma empírica, sabemos que de 5% a 7% da população adulta na Europa, EUA e Canadá já vivem em alguma dessas formas relacionais dentro das não monogamias.
A maioria vive relacionamento aberto, depois você tem o swing, depois o poliamor nas suas vertentes. A anarquia relacional aparece menos.
BBC News Brasil – Qual que é a diferença do relacionamento aberto para os poliamorosos?
Eleá – É bem grande. O relacionamento aberto quase sempre abre para uma possibilidade de vínculo, que geralmente é aquela ligada ao não romance. Por exemplo, você pode ir e ter a sua liberdade sexual, mas você não vai se apaixonar.
BBC News Brasil – É o sexo casual?
Eleá – Isso. Você pode até negociar, não sei se vai funcionar sempre, mas a intenção é essa de se manter como um casal de força. A entidade casal está ali. Então alguém sai e volta para esse lugar, para o conforto do seu relacionamento principal.
Já o poliamor pressupõe que é uma via que inclui o amor, inclui a paixão, abraça a energia do relacionamento novo, a NRE – New Relationship Energy -, que a gente sabe o que é, porque a gente já foi apaixonado várias vezes na vida.
O poliamor abraça essa energia, entende que muito provavelmente isso pode acontecer. Não pretende esconder e não conversar sobre isso. Podem ser relações sexuais ou não, inclusive também as arromânticas ou assexuais.
A partir do momento que você pode amar de diferentes formas, não fica aquela pressão, de dizer “nossa, eu sou a arromântica e não posso estar num relacionamento”, ou “nossa, eu sou assexual, e não posso estar no relacionamento”.
BBC News Brasil – E quando o casal tem energia diferente nesse aspecto, então um prefere o sexo casual, mas o outro gosta de se envolver. É possível fazer um acordo?
Eleá – É um acordo maravilhoso. É o acordo que eu vivo, que eu chamo de acordo misto, sensual, amoroso, empático.
Eu tenho um pé no poliamor. Não num poliamor tão inteiro, robusto, mas com a ideia de que é possível, sim, amar, se envolver e ter relações românticas com mais de uma pessoa. E, ao mesmo tempo, o meu marido querido já tem um interesse maior pelas relações casuais, pelos encontros mais recreativos.
Ele tem a sua bandeirinha linda para explorar esse lado. Eu tenho a bandeirinha dupla que eu posso explorar tanto esse lado, mas eu também, se tiver que amar, se eu tiver que me apaixonar, se eu tiver que ter uma relação paralela, eu tenho.
Isso também é conversado. A gente volta para o inventário: o que cada um quer?
BBC News Brasil – O que faz com que você queira voltar para casa mesmo estando apaixonada por outra pessoa?
Eleá – A partir do momento que você já leu sobre o assunto, ouviu vários podcasts sobre o assunto, já entende o que é essa energia que pode acontecer e pode atravessar, você passa a não ter medo dela.
Você sabe que literalmente paixão é coisa que dá e passa, muito provavelmente. Aquela coisa de associar a paixão ao amor, já descobrimos que não [acontece] necessariamente. Por isso que a rede de apoio, a leitura são tão fundamentais.
E aí tem várias coisas lindas, que é o chamado aftercare, ou o cuidado que vem depois. Se seu companheiro, sua companheira, volta de um encontro muito maravilhado, como você faz? Geralmente tem gente que diz “ah, quero ficar de conchinha quando voltar”, ou “a gente vai ler uma poesia junto”.
Porque, no fundo, as pessoas são diferentes. Esse encantamento que aconteceu por outro não quer dizer que vocês já não tiveram. E que esse amor que vocês têm é um amor válido, lindo e é uma base muito maravilhosa para outros tipos de exploração.
No estudo, a gente também vê o seguinte: que cerebralmente a área da paixão, relacionada com dopamina, com o que é novo, com aquilo que você ainda não tem, não é a mesma da área de segurança e do amor. E elas conseguem conviver. Então elas não precisam ser inimigas.
BBC News Brasil – O que é a monogamia compulsória?
Eleá – A monogamia compulsória tem muito a ver com o seguinte: ninguém nasce monogâmico. E ninguém te pergunta: “você tem interesse em ser monogâmico? Você está de acordo?”.
As leis, crenças, os contos de fada, a expectativa familiar, a moral, tudo está muito amarrado dizendo que a forma de amar a dois exclusivamente, e aí abre os parênteses que a gente sabe para que lado caiu exclusivamente, com os homens tendo sua liberdade, e as mulheres sendo punidas até a morte.
Esse sistema é muito mais ligado à herança, a relação entre Igreja e Estado das Leis, linhagem, do que necessariamente com amor exclusivo.
Então, ela vem daquele conceito inicial que seria da heteronormatividade compulsória, ninguém pergunta, todo mundo parte do pressuposto que você é heterossexual.
Existe essa perspectiva de que a monogamia é isso, é o que temos, é o que é esperado, é o que é bom, o que é limpo, virtuoso. E quem sai ou quem tensiona, em maior ou menor grau, essa ideia, é estigmatizado, é tido como o pecador, como o errado.
Aí vem as não monogamias e falam: você está bem nesse formato? Você já pensou que você poderia ter outro? Você pode construir o seu, inclusive. Então não é tão compulsório assim.
Claro, estamos falando do Ocidente, de privilégios também. Em algumas culturas, isso não é uma pergunta possível.
Por isso a beleza das não monogamias, no plural. Porque também não é como poligamia, que é um sistema legal, religioso, obrigatório, muitas vezes desigual.
Eu acredito que todo formato de relacionamento, inclusive monogâmico, quando as pessoas estão ali alinhadas por escolha, vivendo aquilo, seja por fé, seja porque é o que o ritmo psíquico delas dá conta, também acho maravilhoso.
Eu não sou contra a monogamia. Sou pela pluralidade das formas de amar e para que as pessoas possam consentir, escolher e negociar esses arranjos.
BBC News Brasil – E quando você fala sobre esses temas nas redes sociais, como é a receptividade em relação às mulheres?
Eleá – A primeira vez que fizeram uma entrevista comigo tem uns anos atrás, num jornal de grande visibilidade, eu recebi 2,5 mil comentários de ódio. E aí, eu, como pesquisadora que sou, lembro de ter feito uma tabela para tentar categorizar de onde vinha esse ódio. Tem uns ódios muito engraçados, dizendo que “isso é traição gourmet“, que “você é uma vendida”, “faz isso porque não quer perder seu macho”, “isso não é amor verdadeiro”.
E eu lá categorizando: filosófico, político, ferida histórica. Realmente, recebi muito ódio, mas também muito apoio. Posso dizer com orgulho que muitos casais e muitas pessoas, a partir dessa conversa, se sentiram autorizados para conversar mais sobre o assunto, mergulhar e passear sobre esses relacionamentos e se encontraram. Recebo cartas amorosas, agradecendo até hoje, fico muito feliz.

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BBC News Brasil – Mas esse ódio vinha mais das mulheres ou era misturado?
Eleá – Misturado. Também com uma marca conservadora muito forte.
Vou falar das críticas que as mulheres fazem das não monogamias, mas antes de qualquer coisa, tenho que lembrar que são as mulheres as que mais pedem para abrir as relações. Além disso, são as mulheres que estão levando as organizações, as pesquisas, são as líderes comunitárias sobre o assunto, são as que mais pesquisam, que estão envolvidas. Mulheres e queers.
É importante saber que quem está vivendo dentro das não monogamias, em termos de satisfação emocional e sexual, estão muito felizes. E muito bem, obrigada. E muito parecido também com quem é monogâmico. De novo, em termos de número de estatística, dá no mesmo. Não temos, mesmo com estudos de grande porte, nada que indique que um formato vai ser mais feliz e próspero do que o outro.
Mas as mulheres que criticam as não monogamias consensuais, que geralmente são aquelas que não vivem dessa forma, tem vários tipos, que eu também já categorizei.
Algumas, por exemplo, vêm com uma ferida histórica, que é aquela que diz “abrir para homem? Você está brincando, né? Esse homem que sempre pôde sair, fazer baderna, não se responsabilizar. Agora você vai assinar a falta de responsabilidade? E eu que fico aqui cuidando da casa com o filho, não tenho a mesma possibilidade. Às vezes estou grávida. Vou para onde? Para casa de swing, tá louco?”.
Tem uma segunda crítica, que vem da voz feminina, mas não só, que é uma crítica estrutural e política, que já entra para a monogamia como um todo, como um sistema opressor patriarcal capitalista, que fetichiza certos corpos, objetifica, descarta outros. É onde entra toda a interseccionalidade, o pensamento decolonial.
Mas aí já é toda uma luta política. Elas entram, necessariamente, contra a não monogamia, mas contra qualquer tipo de relação hierárquica focada na entidade casal.
E tem o terceiro, que seria a devoção quando tem fé, religião misturada.
BBC News Brasil – Quais são os medos que as pessoas em geral têm em relação à não monogamia?
Eleá – Quando a gente está na monogamia, a gente tem aquele medo da traição, do relacionamento acabar. Existem outros medos, da juventude que nos abandona, dos filhos, que saem de casa. Então os medos vão existir e eles são constituintes do humano.
Mas o medo dentro das não monogamias consensuais, é como se jogassem uma luz dentro. Então, se eu estou com medo de ser traída, bota luz nisso e fala “agora você vai ver”.
Eu até lembro da primeira vez que a gente foi para um clube de swing, eu pensava “gente, eu vou conseguir ver o meu marido amado?”.
BBC News Brasil – E conseguiu?
Eleá – Consegui ver. Eu achava que não ia saber muito bem como lidar com esse momento. E foi importante para a gente, foi um marco. Eu achava que ia morrer, mas não morri (risos).
Conversar sobre isso e não ficar só no travesseiro, chorando com medo, se perguntando se ele está te traindo [é importante].
Nas nossas áreas no cérebro, uma tem a ver com o nosso apego, com a segurança, e outra, com a busca pelo que é novo, pelo que é misterioso, que não se possui. E essas duas áreas nem sempre dialogam.
Então, quero diminuir o medo, porque o medo existe, ele é real em todos os formatos. Só que nas não monogamias consensuais, você bota luz em cima deles e fala: E agora? Vamos falar sobre isso?
BBC News Brasil – Você acha que as pessoas que estão num relacionamento não monogâmico tendem a conversar mais sobre a relação do que as que não estão?
Eleá – Quinhentos mil por cento mais. É dito que a comunicação é um ponto radical. Tem até um livro do Jonathan Kent, A World Beyond Monogamy [Um mundo além da monogamia, em tradução livre], em que ele fala: comunicar até a morte. É uma comunicação contínua. Não é assim, eu conversei agora, eu abro o relacionamento, e depois? Como é que você volta? Eu não posso mais falar nada? Estou ali rendida, presa, amarrada para sempre? Não é isso.
Então, tem que comunicar de novo: “Olha, como é que eu me senti. Me senti mal. Acho que vamos dar um passinho para trás. Ou vamos dar um passinho para frente. Vamos dar dez passinhos para frente (risos). Isso eu gostei, isso não gostei, preciso de mais atenção aqui, preciso lembrar quanto que eu sou amada, o quanto que eu sou desejada”. É uma contínua comunicação.
Também temos pesquisas falando sobre qual é o medo para quem foi socializado como mulher e para quem foi socializado como homem. Esse medo fica até separado entre existencial, ou seja, de não estar mais no centro [das atenções].
Para o homem, geralmente entra uma coisa de comparação com a sua virilidade. “Como a minha mulher vai estar com outro homem?”. E o medo da mulher é o de ser abandonada, trocada, de ser substituída, de ser esquecida, de não ser mais a escolhida.
E também tem uma coisa do aspecto social que os dois temem. Mas a mulher teme mais, porque, em termos sociais, o que a sociedade vai dizer? O que os amigos do trabalho vão dizer? Você acha que é igual?
O homem já traiu há muito tempo e é colocado sempre panos quentes, porque [dizem que] é uma coisa incontrolável, do desejo masculino. E mulher? É chamada de quê? Promíscua, prostituta, vagabunda, que não valoriza a família, não sabe o que é amar.
BBC News Brasil – Você hoje é mais feliz do que quando tinha uma relação monogâmica?
Eleá: Sem dúvidas. É claro que também tem uma coisa sobre a pessoa que sou hoje. A pessoa que conheceu meu marido há quase quinze anos, vindo de uma história de trauma, de traição extraconjugal terrível que me marcou, me levou para o inferno, aquela pessoa não estaria nunca preparada para chegar e abrir uma relação. Eu tinha ciúme no meu relacionamento anterior, inclusive de fantasia. Então eu saí fragilizada, e a gente vem ali forte no nosso laço monogâmico de exclusividade, e aí a gente tem o primeiro filho, tem o segundo filho…
Eu também não romantizo e digo que [tem que abrir a relação] em todas as fases, com todo mundo. Minha história foi essa. Eu venho de um lugar de dor, de desespero, de solidão, muito machucada. A exclusividade me deixou segura, esse amor me resplandeceu. E aí, com o passar dos anos, começa a descer, no nosso caso, em termos de desejo, esse Eros começa a dar umas falhadas.
E é muito comum: 40% dos relacionamentos de mais de dez anos, ficam no chamado sexless marriages [casamento sem sexo].
Se a pessoa está sem ter intimidade, relação sexual, encontro erótico, porque os dois estão exaustos e assim estão felizes, não vou criticar. Mas [é diferente] quando tem a discrepância de desejo, quando um quer, e o outro não, ou quando isso é uma forma de abafar, “não quero falar sobre isso, que eu tenho medo, vamos continuar aqui, cuidando dos filhos e se ocupando com outra coisa, porque a gente já não se olha”.
Esse foi o caminho para mim, comecei a perceber isso e aí, por coincidência da vida, entro em contato com as ideias da Esther Perel [psicoterapeuta americana, autora de diversos livros, dentre eles, Sexo no cativeiro]. E aí, por entrar em contato com o podcast dela, começo a ficar interessada. Lembro que quando eu a vi pela primeira vez em um Ted Talk, eu fiquei nervosa. Porque eu falei: “ih, acho que ela está falando da gente”.
E aí fui procurar mais. É claro que tive a nossa querida Emma [personagem da trilogia que está finalizando]. E quando eu começo a escrever, já de cara penso que a Emma tinha que viver um relacionamento poliamoroso, ou investigar essas relações não monogâmicas. Então eu começo a pesquisar sobre o assunto. E é com essa carta que a gente começa. Na verdade, ela vem pela mão da literatura, da minha escrita, não o contrário.
BBC News Brasil – Foi você quem propôs abrir a relação?
Eleá – Sim, no nosso décimo ano juntos. A gente tinha combinado que a gente não queria se dar um presente material. E aí, estávamos tomando champagne, e eu falei: “Eu tenho um presente para a gente que é uma proposta. O que você acha da gente abrir o nosso casamento?”.
Já tem quase cinco anos de estrada nessa história. Mas eu acho importante dizer que a gente não começou dessa forma. Eu não sei se a Ilana daquele momento teria nem vontade, nem ferramentas para lidar.
As configurações dependem muito. Mas desde que a gente teve essa coragem de conversar, que a gente teve esse momento mágico de falar “caramba, eu vou tirar essas amarras. Eu consigo me aproximar da honestidade, não só dentro da minha cabeça, mas comunicar isso para quem eu amo”.
E, ao mesmo tempo, entender que eu não posso ser tudo. Que pretensão é essa? “Ah, mas então termina”. Não. Por que eu tenho que terminar? Se a gente se ama, a gente tem quinhentas mil coisas maravilhosas. E aí tem que terminar porque disseram que só existe um tipo de amor?