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quinta-feira, janeiro 1, 2026

2026 e a encruzilhada global entre armas e desenvolvimento

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O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, usou sua mensagem de Ano Novo para lançar um “apelo urgente” aos governos: investir no desenvolvimento, e não na destruição — um apelo necessário, mas que mais uma vez terá pouco eco.

“Ao entrarmos no novo ano, o mundo encontra-se numa encruzilhada”, constatou Guterres. “O caos e a incerteza nos cercam. Divisão. Violência. Colapso climático. E violações sistêmicas do direito internacional.”

Para Guterres, ao virar a página de um ano turbulento, um dado se impõe: os gastos militares globais dispararam para US$ 2,7 trilhões, um aumento de quase 10%. Esse montante equivale a treze vezes toda a ajuda ao desenvolvimento e corresponde ao Produto Interno Bruto (PIB) de todo o continente africano.

Criada em 1945 para preservar a paz, a ONU enfrenta hoje uma crise profunda, marcada por bloqueios políticos, paralisia diante dos grandes conflitos internacionais, reformas praticamente inviáveis e questionamentos crescentes sobre seu papel em meio ao debate sobre os contornos de uma nova ordem mundial.

A Organização das Nações Unidas têm sido comparada a um “teatro de sombras”, refletindo a corrosão da arquitetura internacional criada após a Segunda Guerra Mundial para garantir um mínimo de segurança coletiva.

Essa impotência torna-se ainda mais evidente quando respostas multilaterais são mais necessárias: conflitos armados atingem níveis não vistos desde a Segunda Guerra, agravamento do caos climático, a incerteza econômica, o endividamento, as crises migratórias, a desigualdade e o colapso da ajuda global.

Em sua mensagem de Ano Novo, Guterres destacou a escalada do sofrimento humano: mais de um quarto da humanidade vive hoje em áreas afetadas por conflitos; mais de 200 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária; e quase 120 milhões foram deslocadas à força, fugindo de guerras, crises, desastres ou perseguições.

Ele alertou que, se as tendências atuais persistirem, os gastos militares globais poderão mais que dobrar, saltando de US$ 2,7 trilhões em 2024 para a soma impressionante de US$ 6,6 trilhões em 2035.

Kiev, Ucrânia — Foto: Efrem Lukatsky/AP

O aumento desses gastos está desviando recursos essenciais que são necessários para o desenvolvimento.

-Menos de 4% (US$ 93 bilhões) do total gasto com defesa em 2024 seriam suficientes, anualmente, para erradicar a fome no mundo até 2030.

-Pouco mais de 10% (US$ 285 bilhões) bastariam para vacinar todas as crianças. US$ 5 trilhões poderiam financiar 12 anos de educação de qualidade para todas as crianças em países de baixa e média-baixa renda.

-Além disso, gastar US$ 1 bilhão em forças armadas gera cerca de 11.200 empregos, enquanto o mesmo valor cria 26.700 postos na educação, 17.200 na saúde ou 16.800 em energia limpa.

-Reinvestir 15% dos gastos militares globais (US$ 387 bilhões) seria mais do que suficiente para cobrir os custos anuais de adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento.

-Segundo a ONU, cada dólar gasto com defesa gera mais do que o dobro das emissões de gases de efeito estufa de um dólar investido em setores civis.

Em discurso recente na cúpula do G20, Guterres reiterou que a desigualdade “tornou-se um câncer em nossas sociedades, concentrando poder e corroendo a confiança na democracia”. Destacou que os países em desenvolvimento, sobretudo na África, enfrentam uma “tempestade perfeita” de espaço fiscal reduzido, dívidas esmagadoras e uma arquitetura financeira global incapaz de apoiá-los — ou mesmo representá-los — adequadamente.

O secretário-geral também alertou para a crise climática. Os países não conseguiram manter o aumento da temperatura global dentro do limite de 1,5 grau Celsius. Evitar um agravamento do caos climático exige fechar, com urgência, a lacuna de financiamento para adaptação.

Guterres tem insistido para que os membros do G20 usem sua influência para pôr fim a conflitos que provocam morte, destruição e desestabilização em diversas regiões do mundo. “Precisamos de paz no Sudão, na República Democrática do Congo, no Sahel. Os desenvolvimentos alarmantes no Mali agravam ainda mais uma situação dramática, com novos riscos para toda a região e para o continente”, afirmou.

“Precisamos de uma paz justa, sustentável e abrangente na Ucrânia, de acordo com a Carta da ONU, o direito internacional e as resololuções da Assembleia Geral. Precisamos de paz em Gaza. E, do Haiti ao Iêmen, passando por Mianmar e além, devemos escolher a paz ancorada no direito internacional.”

“Em 2026, apelo a todos os líderes: levem isso a sério. Escolham as pessoas e o planeta em vez da dor”, concluiu.

No fechamento de um ano marcado por truculências, o governo de Donald Trump anunciou que os Estados Unidos fornecerão inicialmente US$ 2 bilhões em 2026 para financiar a ajuda humanitária coordenada pela ONU, após uma forte redução do apoio tradicional de Washington.

Os EUA continuarão sendo o maior doador de ajuda internacional em 2026, mas o governo Trump alertou: “O acordo exige que a ONU consolide suas funções humanitárias para reduzir despesas burocráticas, duplicações desnecessárias e influência ideológica. As agências individuais da ONU precisarão se adaptar, encolher ou desaparecer.”

[Fonte Original]

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