20.5 C
Brasília
segunda-feira, janeiro 5, 2026

“O livro vai fazendo suas próprias curvas” – Revista Cult

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

 

Fabiane Secches, já conhecida no meio literário pelo seu trabalho como crítica e pesquisadora, estreia no romance com seu novo livro: Ilhas suspensas, que deve ser lançado pela Companhia das Letras em fevereiro de 2026. Secches encontra sua voz literária em uma narração que combina ficção e ensaio para contar a história de Mariana — uma jovem que, deslocada de seu ambiente natural em um país estrangeiro, é forçada a encarar e reavaliar suas perspectivas sobre maternidade e pertencimento.

“As viagens são daqueles que nunca deixaram sua aldeia.” A epígrafe de Ana Martins Marques, que ecoa nas primeiras páginas de Ilhas suspensas, prenuncia uma história de travessias e errâncias. Não apenas geográficas, mas também de “posições subjetivas”, como pontua a autora. “Acho que a literatura em si é uma experiência de deslocamento: para quem escreve e para quem lê”, diz.

Apesar de reconhecer traços em comum entre a própria biografia e a vida da personagem — “somos mulheres de idades parecidas e imigrantes” — Secches observa que não se trata de uma autoficção. Em vez disso, prefere reconhecer a dimensão inconsciente da escrita literária: “não penso que seja um projeto que se dê apenas de forma racional. Ao contrário. Somos tomados pelos personagens, pelo enredo e, principalmente, pelas palavras, pela linguagem, e o livro vai fazendo suas próprias curvas.”

Como pesquisadora, Secches investigou a obra da italiana Elena Ferrante, tema ao qual dedicou seu mestrado, concluído em 2019, sob orientação da professora Aurora Bernardini, que atualmente orienta seu doutorado. Sobre as recentes críticas de Aurora, no jornal Folha de S.Paulo, à autora de A amiga genial, entre outros livros, Fabiane diz compreender parte dos argumentos da professora e ressalta a importância do debate e da discordância de ideias entre as duas, “embora pensemos de forma diversa sobre isso e sobre tantos outros temas.”

Em entrevista à Cult, Secches comenta os territórios limítrofes entre crítica e literatura percorridos em Ilhas suspensas, sua relação com Aurora e o papel da psicanálise em sua escrita.

 

Quanto de Mariana e quanto de Fabiane há em Ilhas suspensas?

Essa é uma pergunta difícil de responder. Acredito que estou um pouco em cada um dos personagens, não apenas na protagonista — até mesmo em Quincas, o cachorro, seu companheiro inseparável. De forma objetiva, posso dizer que não é um livro de autoficção, embora toda escrita seja algo autobiográfica. Compartilho com Mariana algumas experiências: por exemplo, somos mulheres de idades parecidas, somos ambas imigrantes, entre outras. Mas acredito na dimensão inconsciente da escrita literária, não penso que seja um projeto que se dê apenas de forma racional, controlada.  Ao contrário. Somos tomados pelos personagens, pelo enredo e, principalmente, pelas palavras, pela linguagem, e o livro vai fazendo suas próprias curvas. A escritora Carola Saavedra disse: “Eu não sei o livro, o livro que me sabe”.

Quanto às diferenças entre a protagonista e eu, eu poderia citar outras, mas fico com dois exemplos importantes: para minha felicidade, minha mãe, diferente da dela, está viva. E, para minha tristeza, não divido a vida com um cachorro.

Escrevemos com todo o corpo e arrastamos para a escrita as nossas vivências, memórias, alegrias, dores, afetos, e também tudo que observamos e percebemos no mundo à nossa volta, perto ou longe. Mariana foi construída assim.

Mas, como psicanalista, também sei reconhecer que há muito das minhas fantasias e projeções nela, tanto quanto minhas experiências. Isso acontece também com os demais personagens. O escritor Milan Kundera dizia que personagens são como egos (“eus”) experimentais de quem os escreve. Gosto dessa imagem.

 

Deslocamento e cura parecem ser alguns dos temas centrais do livro. Que importância você atribui a esses dois temas na literatura?

O deslocamento é para mim, de fato, um dos temas mais importantes do livro, em suas diferentes acepções. O deslocamento geográfico é o mais óbvio, mas há outras formas de se sentir deslocada, e Mariana experimenta uma porção delas.

Acho que a literatura em si é uma experiência de deslocamento: para quem escreve e para quem lê. Quem lê recebe um convite de quem escreve para adentrar um outro mundo, conhecer outras pessoas, outras histórias, outras formas de viver, de pensar e de sentir. Mesmo quando há identificação, ainda estamos diante da alteridade.

Quanto à cura, não sei se usaria bem essa palavra, mas há sim um processo de transformação na vida da protagonista, uma mudança de posição subjetiva, e talvez a literatura também possa, por vezes, proporcionar isso a quem lê, cada um à sua maneira.

 

Me chama muita atenção as reflexões que o livro estabelece ao relacionar constantemente a história de Mariana a filmes e séries da cultura contemporânea, um campo que você costuma explorar em seus textos. Pode comentar um pouco a decisão de incorporar essas intervenções no texto literário? Você não acha que isso antecipa um pouco o trabalho da crítica?

Como mencionei, acredito que toda escrita é algo autobiográfica, é impossível que não seja. Além de escrever ficção, algo que faço desde a infância, eu também escrevo textos sobre cinema e literatura, o que acabou entrando no livro, mas de outro modo, sem pretensão crítica. Acredito que para Mariana, os filmes, séries e livros têm uma função que vai além da análise de uma experiência estética. São possibilidades de elaboração de questões que ela mesma carrega, por essas vias. A maioria das referências mencionadas no romance são de imigrantes, ou de pessoas deslocadas em algum sentido, temas que são importantes para ela.

Por isso, o livro mescla narração e ensaio, mas de uma maneira integrada: os trechos ensaísticos estão a serviço da construção dos personagens e do enredo, e mesmo da própria estrutura do livro.

 

“Talvez precisemos retornar a ilhas suspensas como essa de tempos em tempos.” Como você conceitua essas ilhas suspensas?

Não sei se eu conseguiria conceituar. Talvez seja uma forma poética de tentar traduzir o que as personagens sentem, de forma ora negativa, ora positiva. Ao reler o que escrevi, me dei conta que a palavra “suspensa” aparece algumas vezes no romance, o que tem a ver com os deslocamentos de que falamos. O título foi uma sugestão de um dos primeiros leitores do livro, o escritor, tradutor e editor Daniel Galera, que fez contribuições preciosas para o romance. Essa é uma delas.

 

Como você recebeu as opiniões de Aurora Bernardini sobre literatura e, mais especificamente, sobre Elena Ferrante?

Eu compreendo uma parte dos argumentos da professora Aurora, porque conheço sua formação e suas referências, embora pensemos de forma diversa sobre isso e sobre tantos outros temas — o que é natural e saudável, já que somos duas pessoas diferentes.

Mas quero ressaltar que embora ela tenha reservas em relação à literatura de Ferrante, ela não hesitou em acolher a minha pesquisa, fez apontamentos valiosos, e me acompanhou do começo ao fim.

Vivemos num mundo em que a discordância é vista como afronta, mas eu não penso assim. Gosto do debate de ideias, gosto de acreditar que é possível e, mais do que isso, que é necessário que sejamos capazes de estabelecer uma conversa respeitosa e algumas vezes enriquecedora com pessoas de quem muitas vezes discordamos.

O que seria do mundo e da arte se não houvesse diversidade? A unanimidade aniquila singularidades e, como pessoa e como psicanalista, acredito na importância de sustentá-las.

 

Como é sua relação com Aurora?

A professora Aurora tem acompanhado meu trabalho há uma década, desde antes do ingresso no mestrado, e continua sendo minha orientadora de doutorado, que agora se aproxima do fim. Ela sempre me deu liberdade para expressar minhas ideias e defender minhas interpretações, ainda que, como orientadora, também precise intervir algumas vezes. Tenho muito respeito também pela trajetória dela como tradutora do russo, do italiano, do espanhol e do inglês, que merece todo reconhecimento. Há uma que acaba de ser publicada pela editora Kalinka, Os itálicos são meus, da escritora e poeta Nina Berbérova, de mais de 700 páginas, um projeto de fôlego.

Serei sempre grata pela professora Aurora ter aberto uma porta para que eu retomasse a vida acadêmica e por todas as oportunidades que se desdobraram a partir de então.

 

Alguns livros de psicanalistas fizeram muito sucesso recentemente, propondo intersecções entre literatura e psicanálise. Como você vê esse movimento? Como a psicanálise pode contribuir com a literatura?

Desde o início, Freud sempre reconheceu a dívida da psicanálise com a arte, em especial com a literatura. Mas essa aproximação, na pesquisa acadêmica, precisa ser feita com muito cuidado e rigor, como as professoras Yudith Rosenbaum e Cleusa Rios P. Passos fazem tão bem na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo e em suas publicações, por exemplo, assim como a professora Belinda Mandelbaum faz no Instituto de Psicologia da USP.

Há outros bons exemplos, mas reforço que é um caminho espinhoso. A psicanálise que tenta diagnosticar escritores e personagens de forma categórica ignora que não há dispositivo clínico quando estão diante de um livro.

 



[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img