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quinta-feira, janeiro 8, 2026

A corrida pelos chips que decidem a era da inteligência artificial

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A nova onda de chips para inteligência artificial já define energia, capital e soberania industrial, e 2026 tende a consagrar um modelo vencedor baseado em integração total entre design, fabricação e software.

O futuro já chegou. Ele tem forma de silício e cobra pedágio em energia e capital. O debate público sobre inteligência artificial ainda gira em torno de “modelos”, como se o avanço dependesse apenas de bons dados e ótimas ideias. Essa lente perdeu utilidade. 

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O gargalo real passou a morar abaixo do software, no chão de fábrica e na sala elétrica, onde se decide capacidade, eficiência e escala. Chips de nova geração saíram do papel de componente e assumiram o papel de infraestrutura crítica. 

Estamos vendo esse tema em bastante discussão na CES 2026, feira de tecnologia que ocorre em Las Vegas. Quem tratar esse tema como mera evolução de hardware perde o fio da história.

Os números indicam o tamanho do deslocamento. A receita global de semicondutores chegou a US$ 626 bilhões em 2024. A projeção para 2025, ainda a ser confirmada nos primeiros meses de 2026, aponta US$ 705 bilhões. Esse salto se concentra onde a inteligência artificial pede passagem. Semicondutores para data centers somaram US$ 112 bilhões em 2024, ante US$ 64,8 bilhões em 2023. 

Quando uma categoria quase dobra em um ano, o mercado envia um recado categórico. A economia passou a comprar potência computacional como quem compra energia.

Esse movimento tem causa direta. O setor trocou a fase do “experimento bonito” pela fase do “serviço permanente”. Treinar modelos grandes custa caro, mas operar modelos em escala custa ainda mais e com prazo maior. A inferência em tempo real, em atendimento, segurança, indústria e automação, desloca o centro de gravidade para eficiência por watt e por dólar.  

Nessa nova conta, GPU (Graphics Processing Unit), TPU (Tensor Processing Unit) e ASIC (Application-Specific Integrated Circuit) representam estratégias de sobrevivência, cada uma com prós e limites. A GPU brilha em flexibilidade e ecossistema. A TPU e os ASICs tentam arrancar eficiência e previsibilidade ao reduzir desperdício. Em 2026, a disputa premiará menos o “chip mais rápido” e mais o sistema com maior eficiência.

 

2026 pode marcar uma virada crucial no mercado de tecnologia, em que a vitória não será do chip mais rápido e sim daquele com a maior eficiência energética. (Fonte: Getty Images)

A palavra “sistema” importa. O chip deixou de ser uma peça isolada. Ele depende de memória, interconexão, empacotamento e software. E a memória virou gargalo mensurável. A HBM (High Bandwidth Memory) deve representar 19,2% da receita de DRAM em 2025, com receita de HBM projetada em US$ 19,8 bilhões. Isso explica por que a corrida se deslocou para integração 3D, empilhamento, chiplets e empacotamento avançado. 

Quando o custo e a disponibilidade de memória de alta largura de banda viram fator decisivo, a vantagem deixa de morar apenas na arquitetura do processador. Passa a morar na capacidade industrial de entregar o pacote completo, com yield alto, previsibilidade e volume.

A consequência mais desconfortável surge fora da indústria de semicondutores. A inteligência artificial exige eletricidade em escala. A Agência Internacional de Energia aponta que a demanda global de eletricidade de data centers deve mais que dobrar até 2030, para cerca de 945 TWh. 

Aqui, a ficção científica perde glamour e ganha peso físico. A ambição de modelos maiores e mais frequentes bate em redes elétricas, licenças, fontes de energia, disponibilidade hídrica, refrigeração e aceitação social. Data center virou ativo estratégico porque virou centro de consumo, de investimento e de disputa política.

Esse deslocamento também aparece na macroeconomia. Há estimativas de gasto total global com inteligência artificial US$ 2 trilhões em 2026. Esse volume consolida o argumento central: a corrida por chips já dita ritmo de inovação e passa a moldar geopolítica industrial

Países e blocos econômicos tratam cadeias de suprimentos como tema de segurança. Empresas tratam capacidade como vantagem competitiva, com contratos longos, pré-pagamentos e alianças. O discurso de “plataforma aberta” perde força quando a oferta de silício e de energia dita quem consegue atender clientes.

O capital confirma essa virada. Em 2025, até o fim de novembro, houve mais de 100 transações de data centers, com valor total pouco abaixo de US$ 61 bilhões. Essa cifra funciona como termômetro. O mercado já precificou a infraestrutura de inteligência artificial como classe de ativo. O interesse se dirige ao que sustenta escala, com resiliência e retorno previsível.

Neste cenário, a tese fica ainda mais nítida. Em 2026, a indústria tenderá a premiar abordagens integradas. Design avançado sem fabricação de alto rendimento vira promessa. Fabricação de ponta sem ecossistema de software vira músculo sem coordenação.

Software brilhante sem memória, energia e empacotamento vira vitrine. O caminho sustentável exige integração vertical em pontos críticos ou, no mínimo, alianças sólidas e duradouras entre quem projeta, quem fabrica e quem otimiza. E exige obsessão por eficiência energética, porque energia virou o limite que decide a curva de crescimento.

Essa leitura também muda a forma de enxergar “tecnologias que parecem ficção científica”. Elas já existem, mas pedem infraestrutura real. Assistentes capazes de operar fluxos inteiros, modelos multimodais com respostas em tempo quase imediato, robótica com percepção avançada e computação no edge dependem de chips eficientes e previsíveis. A magia aparente nasce de uma cadeia longa, onde um atraso em memória ou um gargalo em empacotamento compromete todo o castelo.

A conclusão merece firmeza. A corrida por chips de inteligência artificial passou a definir mais do que desempenho. Ela define acesso à capacidade, autonomia industrial e velocidade de inovação. O mundo entrou na fase em que a inteligência artificial progride no ritmo que a indústria consegue fabricar, alimentar e resfriar. 

Em 2026, vencerá quem tratar chips como fundação, energia como estratégia e software como instrumento de eficiência. O resto soará como nostalgia de uma era em que bastava “ter uma boa ideia”.

[Fonte Original]

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