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terça-feira, janeiro 27, 2026

A viva voz de Leonilson  – Revista Cult

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Em 1990, o artista visual cearense Leonilson tinha 33 anos e estava no auge de sua promissora trajetória no circuito artístico – foi quando decidiu comprar um pequeno gravador de fitas cassete. Seu objetivo era reunir pensamentos, impressões e material biográfico suficiente para organizar uma autobiografia: Frescoe Ulisses.

Pouco a pouco, as 19 fitas, gravadas entre 1990 e 1993, foram assumindo as feições de um diário sonoro; nesse diário, o artista registra (com a mesma sensibilidade empregada em suas obras) fragmentos acerca de diversos temas: narrativas do cotidiano, opiniões, afetos, sonhos, dúvidas e a luta contra o HIV – que o infectou e encerrou precocemente sua vida, em 1993.

Agora, pela primeira vez, as transcrições de seus registros sonoros chegam ao público – no livro Leonilson: Diários de uma voz, publicado pelo Projeto Leonilson: iniciativa fundada por amigos e familiares do artista com a intenção de manter viva a memória do artista, por meio da pesquisa, catalogação e divulgação de sua obra.

A publicação, em formato de caixa de fitas cassete, aproxima o leitor do artista; e os diferentes encartes propõem um caminho de leitura que alia a ordem cronológica das gravações a eixos temáticos recorrentes em sua fala – com destaque para suas andanças pelo mundo, seus amores, a solidão e a tensão entre dor, esperança de cura e morte diante da epidemia de Aids dos anos 1980.

Quem assina a organização de Leonilson: Diários de uma voz é o escritor João Anzanello Carrascoza, que, em referência a uma das obras do artista, classifica o autor das gravações como “um artista com fogo nas mãos”: “o fogo da imaginação, a chama da afeição pelo mistério do semelhante, o elemento que faz o cru da realidade ser o cozido pelos sentimentos, a labareda de indignação ante os preconceitos.”

Ele relata que o período de pesquisa arquivística para a elaboração do texto final foi um vagaroso, porém contundente processo de imersão no universo pessoal do artista, que inicia suas gravações “como um rio ruidoso, com o tônus de alegria, mas acaba arrastado para a foz de seu destino pela inesperada correnteza da Aids”. Segundo ele, “ouvir as fitas e ler as suas respectivas transcrições, sobre as quais depois trabalhei para organizar o material, me levaram às águas profundas da rarefeita mas ainda assim sublime condição humana”.

Sua afinidade com o artista, no entanto, vem de longa data, desde que “Leonilson brota nas artes nos anos 1980”, uma década à frente dos escritores da chamada Geração 90 (que Carrascoza integrou ao lado de autores como Luiz Ruffato, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, dentre outros). Carrascoza conta: “atraía-me, além da singularidade de seu estilo, o uso de frases, máximas, micropoemas e outras formas de inclusão da palavra em suas obras. Como escritor, de modo semelhante, me valia de imagens, desenhos, fotos e demais modos de figuratização em minhas histórias”.

“Tem tanta coisa pra fazer. Tenho tanto trabalho na cabeça que eu quero executar, tem tanta gente que eu quero deixar feliz, tem tanta coisa pra aprender. As pessoas…”, encerra a voz do artista, já internado no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, em sua última gravação, datada de 11 de janeiro de 1993.

Carrascoza conclui: “Leonilson deixou um ensinamento, com o qual, como escritor, eu compartilho: fazer um texto, seja uma pintura, seja um romance, é, inegavelmente, uma declaração de amor: para o outro, para si mesmo e, sempre, para a humanidade. Que foi uma responsabilidade, das maiores que já recebi, mas também uma dádiva, à qual não sei se faço jus, ter sido o seu confidente póstumo.”



[Fonte Original]

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