Da valiosa geração de poetas que o Brasil viu se afirmar entre os anos 1960 e 1970, ao lado de Ana Cristina Cesar, Orides Fontela, Roberto Piva e Torquato Neto, Sebastião Nunes é um dos autores cuja produção confirma a vitalidade desse legado no mercado editorial brasileiro.
Recém-lançado pela Círculo de Poemas, o livro Antologia mamaluca reúne grande parte de sua obra poética – exceto aquilo que o próprio autor considera “muito ruim”, em sua “explicação quase desnecessária” –, produzida entre 1968 e 1989, quando chega a se declarar um ex-poeta.
Antes de publicar seu primeiro livreto, Última carta da América, de 1968, Nunes já havia experimentado nas mais diversas áreas do fazer artístico, como a fotografia, a dramaturgia, a pintura e a prosa experimental, à qual segue se dedicando. Descontente com as principais tendências poéticas do final dos anos 1960 – lideradas, de um lado, pelos irmãos Campos, com o movimento concretista; de outro, por Affonso Romano de Sant’Anna e Ferreira Gullar –, Nunes preferiu seguir uma linha própria, a “poesia intersemiótica”.
Antologia mamaluca nos dá uma boa amostra desse movimento, do qual Nunes segue sendo o único representante. Com um humor irônico e ácido, combinando crítica social com escatologia, sem perder de vista a dimensão lúdica das palavras, sua poesia ainda habita um território limítrofe entre a palavra e as artes visuais, com uma pluralidade de elementos visuais que povoam as páginas de suas publicações – não só livros, mas também folhetos e cartazes.
“Houve certa época em que os escritores me jogavam para as artes plásticas, e vice-versa. Para mim essa questão não tem a menor importância”, lembra o autor. Em entrevista à Cult, Sebastião Nunes comenta o papel das artes plásticas em sua formação poética, a expectativa de ser lido em um mundo no qual “a humanidade não tem futuro” e “a velhice do poeta marginal”.
Você mencionou algumas vezes o papel das bienais de São Paulo em sua formação. Você tem acompanhado as bienais recentes? Se sim, que sensação teve?
As artes plásticas tiveram papel fundamental em minha formação, especialmente a Bienal de São Paulo, pela quantidade de artistas estrangeiros convidados, com destaque para os concretistas alemães e para as instalações, em sua maioria muito originais e criativas. Foi assim que conheci músicos como Philip Glass e seu minimalismo, além de vários outros artistas de vanguarda e criadores de vídeos experimentais que eu não encontraria fora dali. Todos altamente estimulantes e de uma riqueza formal impressionante.
Hoje, se procurarmos bem, tudo pode ser encontrado na internet, inclusive artistas pouco badalados, como o casal Christo Vladimirov e Jeanne-Claude Denat, famosos por embrulhar monumentos, e o inglês Banksy, que se recusa a dar as caras, mas que está sempre aprontando ações de guerrilha, inclusive contra Israel e a favor dos palestinos.
Visitei as três últimas bienais, mas o impacto não foi o mesmo. Vi mais como curiosidade, não como uma forma de encontrar novos caminhos – e eu também não estava à procura deles. Foram visitas de cortesia aos velhos carnavais.
Em sua “Explicação quase desnecessária”, você se refere a um hipotético leitor. Gostaria de saber quem você imagina ser o seu leitor atualmente?
Gosto muito das apresentações de autores antigos, como as de Machado de Assis e Miguel de Cervantes, de modo que faço uma espécie de paródia de suas introduções. Mas, concretamente, não faço a menor ideia de quem possa ser meu leitor hoje, com tantas redes sociais disputando o espaço que antes era dedicado a textos longos – contos, novelas e romances. Haverá leitores novos e pacientes hoje? Não sei. Nichos de resistência, é claro, sempre existiram (e existirão). Imagino, porém, que hoje estejam dispersos e individualizados. Cada um por si e a arte experimental por todos.
A publicação de sua antologia parece contrastar radicalmente com o que tem sido lançado recentemente de uma nova geração de poetas no mercado editorial, talvez marcada por um espírito edificante demais. Como você vê a sua obra nesse contexto?
Não tenho comprado livros de autores novos, embora de vez em quando receba alguns. Do pouco que tenho visto, minha obra está a léguas deles – inclusive sob uma perspectiva histórica, literária e econômica.
Hoje é muito fácil editar livros. Voltando a um passado remoto, lembro – como relata Humberto de Campos em um dos volumes de Memórias secretas – de José Olympio visitando o autor e lhe prestando contas detalhadas de vendas e novas tiragens, centavo por centavo. Em 1973, eu mal tinha começado minha carreira como escritor e Sérgio Sant’Anna me intimou a mandar meu terceiro “livro” – que viria a ser o Finis operis, um envelope 66 x 48 cm em papel kraft, recheado com peças em formatos e papéis desiguais – a Ênio Silveira, o combativo editor esquerdista da Civilização Brasileira. Eu morava na Rua da Passagem, em Botafogo, no Rio de Janeiro, e estava desempregado e duro. Botei o envelopão debaixo do braço e o entreguei pessoalmente. Três dias depois, recebi um telefonema da editora pedindo para buscar os manuscritos originais, com um recado do próprio Ênio: “Nós não publicamos poesia concreta.” Ênio era radical assim; misturava um pouco as coisas. Acho que o manuscrito nem foi folheado, mas continuei fã de Ênio pelo seu radicalismo e por ter enterrado na editora duas ou três heranças.
Hoje, existem dezenas de editoras que lançam livros bancados pelos próprios autores, com tiragens de 100 a 150 exemplares – publicações que enriquecem os editores e satisfazem a vaidade dos poetas.
Destaca-se a dimensão gráfica de sua poesia, com as gravuras e fotografias que povoam as páginas de sua antologia. Em qual momento você percebeu a necessidade de ultrapassar o domínio exclusivo da palavra? Hoje, você vê seus livros apenas como livros de poesia ou também como livros de arte?
No final da década de 1960, havia basicamente duas tendências poéticas: a verbalista e a concretista. De um lado, Affonso Romano de Sant’Anna e Ferreira Gullar; do outro, os irmãos Campos, Décio Pignatari e alguns outros. Havia também movimentos paralelos, com a Poesia Práxis, de Mário Chamie, e o Poema Processo, encabeçado por Wlademir Dias-Pino e Moacy Cirne, entre outros. Eles não estavam de brincadeira. Só não se matavam porque não andavam armados e nem se encontravam, mas imagino que se odiavam de morte. Eram quase movimentos políticos.
Depois que desisti da escrita de ficção, da pintura, da dramaturgia e dos cartuns, experimentei poesia puramente verbal, mas não passava de um imitador descarado de João Cabral e Drummond. Cheguei a ganhar dois concursos na Faculdade de Direito da UFMG, mas minha poesia era medíocre. Tornar-me epígono dos concretistas? Nem sonhando: eu era orgulhoso demais para isso, mesmo porque eles só aceitavam discípulos, jamais concorrentes. Eu era amigo de Moacy Cirne e o visitava em sua casa e no escritório da editora Vozes, mas considerava o Poema Processo um movimento um tanto sujo e desconexo, digamos assim, de modo que não me imaginava ligado a eles. Foi quando juntei meus conhecimentos literários e de artista plástico, meu interesse em fotografia e cheguei a essa forma híbrida – nem uma coisa nem outra – que passei a chamar de poesia intersemiótica, e permitiu os desdobramentos que vieram a seguir.
Para responder o final de sua pergunta: houve certa época em que os escritores me jogavam para as artes plásticas, e vice-versa. Para mim essa questão não tem a menor importância.
Como tem sido a “velhice do poeta marginal”?
Diante do estilhaçamento provocado pela internet e de tanto foguetório midiático, a literatura perdeu não só a aura, mas também a importância. Quem hoje fica boquiaberto diante de um escritor, como cheguei a ficar diante de Clarice Lispector, por exemplo? Ninguém. A não ser os simples de espírito diante dos famosos da música e da TV. Assim, o poeta marginal sossegou o rabo e se tornou um velhinho recluso, a cada dia mais velho e mais recluso.
Sua poesia combina humor ácido e uma disposição constante para tocar em temas que muitos preferem evitar. De onde vem essa iconoclastia – é temperamental? Ou política? Ou geracional?
Diria que é temperamental. Mas as questões de vida e morte estão ligadas ao sentimento de que a vida é assim: de que a humanidade não tem futuro e que, mais dia menos dia, vamos explodir o planeta. Não todo o planeta, mas apenas a vida humana como ela insiste em ser: egoísta, perversa, beligerante, inconstante, brutal. Nisso, ela é apenas o repeteco da vida animal como um todo, pois nem um único de nossos neurônios avançou um milímetro sequer na direção de um ser superior que transcendesse o animal grosseiro que somos. Pena, não é? Mas é então que imagino a Terra livre de nossa presença. Com o fim dessa raça dita “superior”, a vida no solo, nas águas e no ar ficará menos tensa e mais respirável, e o planeta continuará rodando bestamente em torno do Sol, até que ele se torne uma gigante vermelha, depois uma anã branca e depois uma anã negra etc. e tal.
A quais projetos você tem se dedicado atualmente?
Incrivelmente, cheguei a uma idade terrivelmente improvável e cheia de perigos. A esta altura, o que resta a um escritor? Escrever. Apenas isto: escrever. Em meados do ano passado terminei um livro de ficção experimental, intitulado Memórias pre-póstumas de Machado de Assis, um livro engraçadíssimo, com dezenas de personagens e cerca de 250 páginas. Também assinei um contrato com minha filha Teresa, que mora na Itália, tornando-a minha agente literária no Brasil e no Exterior. Não tenho mais paciência nem saco pra cuidar dessas coisas. No momento escrevo outro livro, que talvez seja o último, cujo título é O futuro da humanidade, nem um pouco otimista, embora divertido. Nele, parodio os grandes autores distópicos e também Marcel Schwob e seu pequeno grande livro A cruzada das crianças, que inspirou O som e a fúria, de Faulkner. No fundo, o que sou mesmo é humorista.