O quadrinista indiano Ramnarayan Venkatesan, que assina como o “codinome de super-herói” Ram V, tem boas ideias, mas nem sempre consegue materializá-las da melhor forma. Sua abordagem para o Aquaman em Aquaman: Andrômeda, minissérie em três edições do selo Black Label, da DC Comics é um caso evidente de boas intenções que acabam ficando apenas nisso mesmo, sem algo que eleve a história a algo que mereça grande destaque. O conceito é de “horror espacial” em tese lovecraftiano, ainda que não haja horror algum e o espacial seja mais subaquático, com o lado lovecraftiano manifestando-se por uma ou duas páginas. No final das contas, a HQ está mais para uma versão do magistral O Segredo do Abismo em quadrinhos com o Aquaman, mas, mesmo nessa comparação, o o resultado final é enfraquecido por uma falta crônica de construção narrativa que se vale mais de forma, esquecendo o conteúdo.
Na história, a queda de uma misteriosa nave espacial no Ponto Nemo, no meio do Oceano Pacífico e conhecido como o mais remoto do planeta, leva a uma corrida entre o governo americano por meio de uma missão secreta capitaneada pelo submarino ultramoderno Andrômeda com um tripulação que sequer sabe detalhes da missão e interesses abertamente vilanescos representados pela contratação do Arraia Negra para obter o que tiver que ser obtido da embarcação. Entre esses interesses opostos, claro, há o Aquaman, que é caracterizado como uma figura mítica, de lenda, que é desconhecido por todos e que só “caminha pela Terra” quando trabalha ao lado de um povo isolado no Ártico (a inspiração na bebedeira do Aquaman de Zack Snyder é evidente, algo que é amplificado pelas tatuagens no corpo do personagem) para lembrar como era ser humano.

É uma premissa básica, diria, o que não seria um problema se sua execução narrativa não fosse igualmente básica e rasteira, com cada membro da tripulação do submarino Andrômeda ganhando sua caracterização estereotipada – o mandachuva que esconde um segredo, a cientista que encara o Aquaman como uma força da natureza, o homem durão com um passado pesado que luta para expiar seus pecados e assim por diante – e com a missão dos dois lados não ganhando nenhum tipo de desenvolvimento que justifique toda a pompa e circunstância. Não é nem que seja uma leitura ruim, pois não é, mas sim que o texto não faz esforço algum para ir além das convenções do gênero, para entregar algo que se destaque entre tantas obras parecidas por aí. Trata-se de uma daquelas minisséries em quadrinhos que vai no automático, que se apoia demais na fama e apreciação do protagonista perante os leitores e se esquece de contar uma boa história com o material que tem disponível.
Sem dúvida que abordar o Aquaman como uma criatura de lenda é uma boa ideia, mas isso, sozinho, não se sustenta, mesmo que, na arte, Christian Ward tenha conseguido materializar brilhantemente esse Arthur Curry lendário com cabelos compridos, barba espessa, olhos brancos, pele acinzentada e uma fenomenal armadura desgastada pelo tempo e pelo efeito da água salga, além de repleta de corais coloridos. Visualmente impactante, essa é uma das versões mais bacanas do Aquaman que já vi, uma amálgama melhorada daquilo que de mais interessante já fizeram com o personagem ao longo das décadas nas mais variadas mídias. No entanto, assim como a natureza mítica do Aquaman de Ram V não segura a história, essa criatividade de Ward (que é um artista de mão cheia, vale dizer) também não segura o conjunto da arte, já que o restante é, muito sinceramente, um sci-fi submarino genérico, ainda que inegavelmente bonito. Mas é como eu digo: é muito difícil um desenhista se inspirar quando o material que vem do roteirista não é tendente a arroubos criativos.
Aquaman: Andrômeda sofre da Síndrome do Gigantismo, ou seja, quer abraçar o mundo, ser muito mais do que é e, no final das contas, só consegue ser mesmo uma sombra de seu potencial. Se Ram V tivesse focado seus esforços na “lenda de Aquaman” que ele esboça, tenho certeza de que a HQ poderia ser uma releitura fascinante de um personagem que considero muito difícil de trabalhar. Infelizmente, porém, tudo o que fica, quando fechamos a última página da história é a lembrança do visual do herói por Christian Ward e isso não é nem de longe o suficiente.
Aquaman: Andrômeda (Aquaman: Andrômeda – EUA, 2022)
Contendo: Aquaman: Andromeda #1 a 3
Roteiro: Ram V
Arte e cores: Christian Ward
Letras: Aditya Bidikar
Editoria: Matthew Levine, Chris Conroy
Editora original: DC Comics (DC Black Label)
Datas originais de publicação: agosto, outubro e dezembro de 2022
Editora no Brasil: Editora Panini
Data de publicação no Brasil: novembro de 2023
Páginas: 168