- Como na graphic novel e como a própria autora avisa, a presente crítica abordará seu tema central – depressão, suicídio e auto-mutilação – abertamente, pelo que é importante que o leitor esteja em um lugar confortável para continuar adiante.
Na capa interna, logo após a repetição do título, a cartunista britânica Zoe Thorogood diz que “esse livro é para alguém, em algum lugar”. Em minha confessada quase completa ignorância sobre os detalhes do que a jovem então de 24 anos enfrenta e relata em sua autobiografia em forma de graphic novel, tenho para mim que É Solitário no Centro da Terra é para todo mundo, em todos lugares. Claro que a voz de Thorogood ecoará mais para aqueles que passam por situações iguais ou semelhantes à que ela lida, mas quem não sofre de algum distúrbio mental – ou não sabe que sofre – simplesmente precisa aprender mais sobre eles e muitas vezes as melhores fontes são mesmo as pessoas que convivem diariamente com essas questões. O agressivo e desdenhoso “essa geração é frágil demais” bradada por membros da minha geração é de uma imbecilidade tão grande que precisa ser espanada a todo custo, algo que venho fazendo esforço há anos para fazer e compreender melhor e, com isso, perceber que aquilo que eu achava que nunca havia se aproximado de mim em minha já longínqua juventude, muito provavelmente estava logo ali na esquina, às vezes até bem mais próximo, dentro de casa mesmo.
Como Julia Wertz em Pessoas Impossíveis, Thorogood é muito honesta no que escreve e desenha. Tão honesta que já na segunda página – uma das reproduzidas abaixo – ela diz que “venho considerando me esfaquear no pescoço com um faca afiada” em uma imagem forte em que ela, no espelho, com o balão de pensamento cobrindo seu rosto, segura uma faca de cozinha com um monstro de evidente representatividade olhando-a pela porta do banheiro. É um momento que exige pausa ou, pelo menos, exigiu no meu caso, mas a forma como ela escreve, mesmo abordando assuntos tão pesados e angustiantes, é convidativa, uma espécie de bálsamo que ela usa para tentar ao máximo suavizar o que ela mesma coloca diante dos leitores, em um processo quase que natural de “bate e assopra”. Seu relato não linear cobre os últimos seis meses de 2021, com ela prestes a participar de sua primeira conferência de quadrinhos (ela há havia lançado A Cegueira Iminente de Billie Scott) e de viajar aos EUA para conhecer um rapaz com quem ela havia começado um relacionamento online, elementos que servem de arrimo ao leitor de maneira que seja possível caminhar mais facilmente pela mente de altos e baixos da autora que são manifestados por meio de seus texto e sua arte.

Falando em arte, é fascinante como Thorogood trabalha o realismo de seu cotidiano, essencialmente representado por objetos e ambientes, com elementos que transitam entre o mágico e o lisérgico, algo que começa pela forma como ela mesma se insere na narrativa, na maioria das vezes com um corpo normal, mas um rosto que mais parece um emoji rascunhado com expressões que vão do entristecido ao apático. Ela também se insere em outras idades e outras manifestações e apenas raramente no que parece ser sua representação física adulta completamente humana, o que acaba sendo uma maneira impressionantemente eficiente de comunicar seus sentimentos mutantes sem precisar recorrer a texto. As figuras humanas ao seu redor, notadamente sua melhor amiga e o jovem que ela visita nos EUA, são animais antropomórficos ou, talvez melhor dizendo, humanos com rostos de animais, algo que ela provavelmente fez para, de um lado, preservar identidades e, de outro e mais assertivamente, diria, para criar a sensação de alienação, de distância de todos ao seu redor que ela sente, como se ela fosse – e é, em sua mente – alguém isolado do mundo ao redor, com extrema dificuldade de estabelecer comunicação.
Para fazer tudo isso sem cair na armadilha do didatismo, a graphic novel que ela oferece aos leitores é, essencialmente, um trabalho metalinguístico. Ela está na história da mesma forma que está fora dela, manipulando eventos, funcionando como narradora não confiável quando ela assim decide e usando a flexibilidade da Nona Arte para construir e desconstruir cenários e momentos, para quase que literalmente clicar no botão reset e começar de novo, para refletir sobre sua solidão ao mesmo tempo que sua conflituosa necessidade de partilhar sentimentos. A jornada pelas quase 200 páginas da história é, por si só, independente da temática, um inteligente exercício narrativo que manipula a mídia constante e brilhantemente. Quando adicionamos ao exercício o drama pessoal de Thorogood, seu enfrentamento de sua depressão e seus pensamentos de suicídio, a metanarrativa ganha uma densa camada extra de sentido lógico que revela um pouco do funcionamento de como ela pensa e de como ela é afeta pelo que precisa enfrentar até encontrar algum ponto de equilíbrio.
Não é todo mundo que tem coragem de fazer o que Zoe Thorogood faz aqui. Ela, em talvez um resumo simplificado de minha parte, parece fazer uma terapia aberta em que tudo o que ela sente é derramado nas páginas sem nenhum tipo de censura ou pudor, como uma fusão entre autora e trabalho. Ao mesmo tempo em que ela se mostra um literal livro aberto, ela faz de sua vida transposta para os quadrinhos uma forma de fazer com que outros que passam pelo mesmo que ela passa encontrem algum conforto e percebam que pode haver luz no fim desse túnel, como ela faz questão de deixar claro desde o início, mesmo que encontrar essa luz não seja uma tarefa fácil. E, para aqueles que, como eu, caminham à margem dessas questões de saúde mental (ou que acham que caminham à margem), É Solitário no Centro da Terra é uma inestimável lição, um momento de reflexão e de inspiração que transcende a mídia em que se insere e consegue tocar profundamente os leitores, revelando-se como um honesto e extremamente bem executado mergulho na complexidade da mente humana. Um livro para todos, sem dúvida.
É Solitário no Centro da Terra (It’s Lonely at the Centre of the Earth – Reino Unido, 2022)
Roteiro e arte: Zoe Thorogood
Editora: Image Comics
Data original de publicação: 15 de novembro de 2022
Editora no Brasil: Editora Conrad
Data de publicação no Brasil: 30 de abril de 2024
Tradução: Andressa Lelli
Páginas: 192