Não sei quanto a vocês, mas esse negócio de “Fulaninho Mata/Massacra/Destrói o Universo XYZ” já cansou há muito tempo e, na maioria das vezes, não passa de um sinal de completa preguiça criativa. Confesso que não esperava que a trilogia de minisséries que inseriu os Predadores no Universo Marvel, mesmo que não o principal levaria a algo tão genérico como uma quarta história ampla do tipo acima e cheguei a ficar surpreso quando ela foi anunciada. Benjamim Percy, no geral, fez até um trabalho “okzinho” com Predador Versus Wolverine, Predador Versus Pantera Negra e Predador Versus Homem-Aranha, com a última história mais veementemente apontando para uma convergência narrativa, mas ele não consegue sair da linha mediana quando coloca os yautjas fortalecidos pelos vibranium roubado de Wakanda e treinados por Kraven, o Caçador, contra os heróis e vilões da Terra.
Sua melhor ideia foi fazer de Kraven o veículo de escolha para tornar possível a invasão do planeta pelo rei yautja e por seu filho com armadura de vibranium com o codinome Cemitério, dando um salto temporal de um ano dos eventos de Predador Versus Homem-Aranha, o que permitiu a construção de um plano de eliminação sistemática das mais poderosas defesas super-humanas por meio da criação de estratégias e armas específicas para cada um. Dar o tipo de destaque que o famoso vilão do Homem-Aranha merece vale muitos pontos no meu caderninho, especialmente em uma história tão ambiciosa. O problema não é a facilidade com que os caçadores alienígenas eliminam muitos de seus oponentes, começando pelos Guardiões da Galáxia e seguido de três membros do Quarteto Fantástico, pois isso está profundamente enraizado no DNA desse tipo de história, mas sim pela incapacidade de Percy e de toda a equipe criativa em efetivamente colocar algo dessa magnitude nas páginas das cinco edições da minissérie.

Vemos alguns poderosos personagens morrerem, mas a maioria perece fora das páginas, com diversos sem que sequer apareçam mortos, apenas com os “troféus” marcando seu perecimento, com toda a onda destrutiva sendo revertida por três ou quatro super-heróis e um Predador X (que foi a forma que Percy encontrou de fazer Predador Versus Wolverine encaixar-se de alguma forma nessa história) quase que em um literal estalar de dedos ao longo de meia dúzia de páginas na última edição, sem que haja sequer tempo para que as mortes sejam contabilizadas. Essa minissérie, assim como tantas outras de seu gênero – a mais recente delas na Marvel sendo Aliens Vs. Vingadores, que reitera a preguiça narrativa desses crossovers – tenta se sustentar pelas supostas “mortes chocantes” de personagens queridos, mas, muito sinceramente, nem isso acaba dando certo, já que toda a preparação dos yautjas é traduzida para as páginas de maneira simplista e corrida, somente com alguns arroubos de sanguinolência, cortesia do brasileiro Marcelo Ferreira, e nenhum de criatividade (ok, há um momento criativo na Sala do Perigo, dos X-Men, mas só), seja por Ferreira ou por seus colegas Daniel Picciotto e Brent Peeples, que se revezaram na arte.
E, aqui, diferente do que aconteceu com a integração dos xenomorfos ao Universo Marvel na citada historia dos Vingadores, em que Jonathan Hickman não soube lidar bem com a falta de páginas à sua disposição, o cerne da questão está mais para o mal aproveitamento do razoável espaço que a minissérie em cinco edições tinha. Histórias bobas desse naipe precisam compensar sua simplicidade padrão fazendo o máximo para deslumbrar, para trazer sequências de ação explosivas, de preferência com o uso de splash pages e de páginas duplas, mas não há nada disso aqui. A ação é protocolar e mirrada, sem nenhum momento realmente chamativo, com exceção, talvez, da primeira vez em que vemos o Predador X, com uma homenagem explícita ao arco Arma X, de Barry Windsor-Smith. Todo o restante é cansado e, pior ainda, descansado, como se Percy e os demais achassem que é suficiente ter “Predador” e “Universo Marvel” no título para garantir a atenção do público (e, infelizmente, muitas vezes é, vide meu próprio exemplo…).
Predador Massacra o Universo Marvel é, portanto, um capítulo final – e que nem é tão final assim – da introdução dos yautjas ao Universo Marvel que, infelizmente, é menos do que a soma do que veio antes. Havia potencial para pelo menos uma pancadaria descerebrada sem fim, mas o que ganhamos não passa de uma historia que começa enganosamente bem, mas que não demora a descansar sobre seus (poucos) louros. Os predadores mereciam mais do que Benjamin Percy conseguiu oferecer nesse supostamente grandiosos crossover. Quem sabe, em uma próxima tentativa, não sai algo melhor, não é mesmo?
Predador Massacra o Universo Marvel (Predator Kills the Marvel Universe – EUA, 2025)
Contendo: Predador Kills the Marvel Universe #1 a 5
Roteiro: Benjamin Percy
Arte: Marcelo Ferreira (#1, 2, 4 e 5), Daniel Picciotto (#1 a 3 e #5), Brent Peeples (#5)
Arte-final: Jay Leisten (#1, 2, 4 e 5), Daniel Picciotto (#1, 2 e 5), Brent Peeples (#5)
Cores: Frank D’Armata
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Kaeden McGahey, Martin Bird, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 13 de agosto, 17 de setembro, 22 de outubro, 19 de novembro e 31 de dezembro de 2025
Páginas: 120