Depois de Predador Versus Wolverine e de Predador Versus Pantera Negra, é chegada a hora de o Homem-Aranha ser a caça dos alienígenas yautjas nessa integração da famosa franquia cinematográfica da Fox ao Universo Marvel, mesmo que em uma realidade paralela. Se, no caso do Carcaju, a abordagem de Benjamim Percy foi na linha de inserir os yautjas retroativamente na cronologia do herói e, no do Pantera Negra, o vibranium é o grande objetivo dos extraterrestres, no caso do Amigão da Vizinhança, o roteirista joga com a simplicidade ao nos apresentar a um Predador renegado psicopata que caça sem honra e com requintes de crueldade, esfolando suas vítimas em Nova York durante uma onda de calor que lembra de longe a que vemos em Predador 2: A Caçada Continua.
Seguir a linha de um serial killer em uma cidade como Nova York faz todo sentido, especialmente quando o herói que o enfrenta é o Homem-Aranha, tradicionalmente mais “pé no chão”, mesmo que essa afirmação, hoje em dia, já não seja tão verdadeira quanto há algumas décadas. Essa escolha permite um mistério razoável, uma latitude surpreendentemente grande para o artista brasileiro Marcelo Ferreira desenhar quadros bastante explícitos de violência e um bom uso das habilidades do Aranha, além de justificar com lógica infalível a entrada de Kraven, o Caçador na história. É como uma versão menos ousada, mas, ao mesmo tempo – e talvez por isso mesmo – narrativamente mais eficiente que os crossovers anteriores, sem que Percy perca tempo com complexidades que pouco agregam ao conjunto da obra.
E é apenas nessa terceira história com os Predadores lidando com heróis clássicos da Marvel Comics que realmente percebemos que há um plano maior que as conecta e as leva a uma convergência específica que, na data em que escrevo a presente crítica, foi encerrada nos EUA. Pode parecer muita coisa para uma minissérie de apenas quatro edições lidar com um mínimo de qualidade, mas, na verdade, Percy acerta o ritmo e, sem se preocupar com caracterizações e desenvolvimentos complexos de personagens que, na verdade, não são estritamente necessários, ele consegue alcançar um bom equilíbrio. Tudo é muito objetivo, sem firulas, só mesmo pancadaria. Claro que não é a oitava maravilha do mundo, muito longe disso, mas as peças se encaixam tanto como uma história autocontida, quanto como um degrau importante em uma narrativa macro mais ambiciosa que deságua em Predador Mata o Universo Marvel.

O que definitivamente não funciona é a linha narrativa paralela que coloca Mary Jane, em um metrô, como potencial vítima do Predador esfolador. Fica forçado demais, coincidente demais que logo o par romântico do Aranha corra perigo em uma cidade tão grande e tão populosa quanto Nova York. Não que eu esperasse uma construção narrativa que fugisse desse tipo de artifício quase amador, mas teria sido bem melhor se Percy ou não abordasse MJ na minissérie ou parasse para pensar melhor em como trabalhá-la mais organicamente na história. Cheguei a recear que ele resolvesse colocar até a Tia May na caçada para tornar tudo ainda mais bobo, mas fico feliz em constatar que ele não chegou a tanto.
Por outro lado, o uso de Kraven na minissérie é particularmente interessante, pois é um dos raros momentos em que as habilidades e a ferocidade do personagem são abordados com vontade e quase que completamente sem freios, sendo sua presença a única que eu realmente acho que deveria ter sido ampliada, nem que isso significasse que uma quinta edição tivesse que ser adicionada à história. Aqui, Kraven ganha o tipo de destaque que nem os yautjas costumam ter tanto nos filmes quanto nos quadrinhos, fazendo valer seu status de maior caçador da Terra e um inimigo honrado do Homem-Aranha, como uma espécie de antítese ao Predador psicopata. E a última cena com o vilão é intrigante e cheia de potencial para a minissérie seguinte, se, claro, ele não for esquecido, o que seria um crime.
Predador Versus Homem-Aranha ganha muitos pontos por não tentar reinventar a roda. Benjamin Percy faz um simples bem feito, com Marcelo Ferreira materializando a história com muita categoria e fluidez de movimentos, respeitando as características de cada personagem e, melhor ainda, sem em momento algum deixando-se perder em meio ao emaranhado das pancadarias. E, claro, como bônus, há diversas páginas marcantes e até chocantes, especialmente para uma HQ com o Homem-Aranha. Agora é aguardar para ver com será a convergência das histórias na que potencialmente é a última minissérie desse projeto.
Predador Versus Homem-Aranha (Predator Versus Spider-Man – EUA, 2025)
Contendo: Predador Versus Spider-Man #1 a 4
Roteiro: Benjamin Percy
Arte: Marcelo Ferreira
Arte-final: Jay Leisten
Cores: Frank D’Armata
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Kaeden McGahey, Lindsey Cohick, Sarah Brunstad, Martin Bird, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 23 de abril, 28 de maio, 25 de junho e 16 de julho de 2025
Editora no Brasil: Editora Panini
Data de publicação no Brasil (encadernado): dezembro de 2025
Páginas: 116