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sábado, janeiro 31, 2026

Crítica | Senhor Milagre (2017-2019) – Plano Crítico

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Tudo bem que Tom King já vinha escrevendo quadrinhos mensais de super-heróis para a DC Comics desde meados de 2014, estreando no que seria seu formato preferido – as maxisséries de 12 edições – com Os Ômega Men, em 2015, mas é impressionante constatar a velocidade vertiginosa de sua “curva de aprendizado”, pois ele não só escreveu e publicou sua HQ autoral O Xerife da Babilônia com também Visão, a única para a Marvel, em impressionante simultaneidade, com as duas, mais impressionantemente ainda, revelando-se como obras-primas, como quando ele, ato contínuo, retornou com esse formato para os super-heróis da DC sem deixar de encarar mais mensais, ele produziu  Senhor Milagre, desta vez repetindo sua parceria com Mitch Gerads, acertando em cheio novamente. É muito raro encontrar um roteirista que escreva tão rapidamente obras tão boas e que, ainda por cima, consiga escolher a dedo suas parcerias artísticas para entregar obras que parecem reviver o boom que inaugurou essa tendência na década de 80.

Senhor Milagre é, em resumo, um pesado e denso drama psicológico sobre um homem que viveu infância e juventude profundamente traumáticas que o levava a tentar escapar de tudo sem sucesso, até que, adulto e finalmente longe desse horrores, mas ainda profundamente marcado pelo trauma, ele tenta escapar da própria vida. Poderia muito facilmente ser uma obra sem personagens em uniformes coloridos e o uso de Scott Free, o razoavelmente obscuro Senhor Milagre, um dos vários personagens criados por Jack Kirby nos anos 70 em seu Quarto Mundo, deu a King o tipo de liberdade que ele dificilmente encontraria com outros mais badalados por aí, ainda que seja comendável que a DC Comics tenha encampado esse tipo de abordagem iniciada com os também obscuros Ômega Men, considerando que a mesma editora famosamente negou o uso dos personagens da Charlton Comics para Alan Moore usar em Watchmen.

A maxissérie começa logo depois da tentativa de suicídio de Scott Free que é evitada por sua esposa, Grande Barda, o que imediatamente choca e prende a atenção do leitor. No pano de fundo da vida conturbada desse casal, há o eterno conflito entre os planetas gêmeos Nova Gênese e Apokolips, a representação espacial de Kirby para o Paraíso e o Inferno, com tanto Scott quanto Barda tendo que participar do conflito, transportando-se de seu apartamento em Los Angeles via Tubo de Explosão. É, para todos os efeitos, o cotidiano de um homem com saúde mental abalada que precisa trafegar entre uma simples vida de casal e seus shows de “artista de fuga” e uma guerra em que bilhões morrem de maneiras horríveis, com King mantendo seu foco no micro, mas usando o macro para colorir a narrativa e mostrar que o trauma sofrido por Scott Free não é algo que está apenas em seu passado, mas, também, em seu presente e em seu futuro, pois, na medida em que a trama avança, ele acaba naturalmente galgando a escada hierárquica no conflito. E é perfeitamente possível afirmar que esse caos da guerra representa as transformações vertiginosas pelas quais o mundo tem passado nas últimas duas décadas, com toda a ansiedade, insegurança e horror que isso causa, ou seja, Senhor Milagre é uma história 100% terrena que por acaso tem seres fantásticos.

A conversa do roteiro de Tom King com a arte de Mitch Gerads é íntima e intensa a ponto de ser uma coisa só. O traço realista do desenhista e colorista funciona tanto para a vida de Scott e Barda na Terra, quanto para suas aventuras no Quarto Mundo, com uma transição da realidade para uma fantasia galgada na realidade que funciona maravilhosamente bem. O que, porém, cria essa conexão umbilical entre texto e imagem é o próprio conceito de realidade. O que exatamente estamos vendo diante dos nossos olhos? Tudo aquilo que acompanhamos realmente acontece ou parte – ou tudo? – está na mente do protagonista? O que é reflexo de seu sofrimento, dor e trauma e o que é realidade? Será que a realidade é o sofrimento, dor e trauma de Scott Free? Para pontuar essa flutuação entre o real e imaginário, Gerads usa muito a divisão em nove quadros – na proporção 3x3x3 como Barnaby Bagenda fez em Os Ômega Men e que acabou se tornando outra marca das obras de King que ele certamente elegeu a partir da popularização da estrutura por Dave Gibbons, em Watchmen – para criar diálogos constantes com Scott Free e, principalmente, para passar a impressão de que estamos vendo tudo pela tela de uma televisão, algo que a “interferência” na transmissão por vez distorce e esmaece, mantendo o leitor em constante estado de dúvida.

King é, manifestamente, verborrágico. Ele simplesmente adora escrever e escrever e escrever, mas, aqui, em Senhor Milagre, essa sua característica natural que nem sempre dá completamente certo, funciona como uma característica do protagonista que transita entre melancolia e euforia como uma enlouquecida agulha de detector de mentiras. Não é uma maxissérie para ser lida de uma tacada só e nem para se ter pressa na apreciação da narrativa visual. Essa não é uma “mera” história de super-heróis e lê-la dessa maneira é jogar tempo e dinheiro no lixo. Como disse logo no início, o que King nos entrega é uma aula magna sobre discussões de saúde mental, responsabilidade, paternidade e sobre o relacionamento entre casais em um pacote “colorido” cheio de participações de personagens kirbyanos do Quarto Mundo, inclusive, claro, o todo-poderoso Darkseid. O que acontece ao final da série é algo a ser discutido e interpretado livremente, pois King e Gerads mantém a ambiguidade até o último quadro, sem dar respostas fáceis ao leitor que, claro, pode querer agarrar-se a uma interpretação monolítica – e normalmente mais fácil – mas que justamente tira toda a graça do trabalho da dupla criativa.

O que temos é a vida como ela é, mas se ela fosse vivida por personagens superpoderosos parte da realeza do Quarto Mundo. Scott Free é um homem com quem muitos de nós podemos nos identificar e não digo isso apenas por suas questões de saúde mental, mas, também, por seu dia-a-dia mesmo, por sua busca da fama com seus truques de fuga nos palcos em que se apresenta, o amor que sente por sua esposa e a forma como ele processa tudo aquilo por que passo durante décadas depois que seu pai biológico o trocou pelo filho biológico de Darkseid para garantir a paz entre os dois titãs, mas que lhe roubou a vida que ele tinha direito. Scott Free foge, mas ele também tenta voltar e se encontrar. Senhor Milagre é sobre a tentativa – a necessidade, diria – de se aceitar o passado, por mais terrível que ele seja, de forma que seja possível construir um futuro em que esse trauma faça parte, mas não o dirija. Livrar-se das correntes tanto do que veio  antes como do destino, estão no DNA dessa impressionante maxissérie que, posso dizer sem nenhum medo de errar, é uma das maiores obras-primas dos quadrinhos mainstream de super-heróis desse século e olha que estamos falando de um Tom King tecnicamente ainda no começo de sua carreira.

Senhor Milagre (Mister Miracle – EUA, 2017/19)
Contendo: Mister Miracle #1 a 12
Roteiro: Tom King
Arte e cores: Mitch Gerads
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Moly Mahan, Brittany Holzherr, Maggie Howell, Jamie S. Rich
Editora original: DC Comics
Datas originais de publicação: outubro a dezembro de 2017; janeiro a dezembro de 2018; janeiro de 2019
Editora no Brasil: Editora Panini
Datas de publicação no Brasil: dezembro de 2018 e junho de 2019 (dois encadernados); novembro de 2023 (edição de luxo)
Páginas: 376



[Fonte Original]

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