Tom King sempre foi destinado a escrever para a indústria de quadrinhos. Nos anos 90, ele foi estagiário tanto na DC Comics quanto na Marvel Comics, chegando a trabalhar com ninguém menos do que Chris Claremont, mas sua vida distanciou-se da Nona Arte com o 11 de Setembro, levando-o a estudar e a passar nos testes para a unidade antiterrorismo da CIA, onde ficou por sete anos até o nascimento de seu primeiro filho, que provavelmente o levou a largar essa atividade e dedicar-se novamente às artes, começando com o romance A Once Crowded Sky, sobre super-heróis, ao lado de Tom Fowler, que desenhou algumas páginas como uma HQ, criando um “romance ilustrado”, por assim dizer, que foi publicado em meados de 2012. E a repetição de sua parceria com Fowler é que o levou a realmente debutar como roteirista de quadrinhos por meio do conto Tomado pelos Demônios (It’s Full of Demons), publicado na coletânea temática Time Warp, da Vertigo Comics, em março de 2013 e por aqui no ano seguinte, em Vertigo Especial #2.
Falar sobre essa história é, basicamente, estragar a leitura para quem não a conhece, pois, nela, vemos dois jovens irmãos brincando em 1901 até que o menino, Addie, é brutalmente assassinado com um tiro na cabeça por uma pessoa com “roupa de astronauta” que sai do que parece ser um rasgo dimensional ou no espaço-tempo. O que segue, daí, é a trágica vida da irmã sobrevivente, Paula, que não consegue conciliar o que viu com a realidade ao seu redor, em um mundo em constante modificação. Os leitores mais tarimbados provavelmente captarão a “reviravolta” criada por Tom King logo no começo seja pelas pistas temporais ou espaciais que, diria, são bastante evidentes e que dão vida a um cenário que provavelmente é um dos mais construídos mentalmente no imaginário popular, mas que não explicitarei aqui para evitar spoilers.
Seria perfeitamente justo afirmar que King seguiu o caminho mais fácil e que o que justifica sua historieta é apenas e tão somente o final, mas, mesmo que isso seja verdade em muitas situações nos quadrinhos, no cinema e na televisão, não vejo como sendo o caso de Tomado pelos Demônios. O clichê usado por King é muito bem empregado e a construção política que é, para nós, o pano de fundo da vida de Paula, é ambicioso e cuidadosamente construído em um espaço tão curto e, ainda por cima, sem ser o aspecto narrativo principal a ponto de dar vontade de saber mais detalhes sobre o que vemos muito rapidamente aqui e ali. No primeiro plano, ou seja, no foco da abordagem de King, vemos Paula desde o momento da morte de seu irmão até sua morte décadas depois enfrentando seus demônios e tentando encontrar um lugar no mundo, pelo que temos uma narrativa econômica, mas mesmo assim fascinante sobre uma mente se esfacelando e uma vida inteira sendo destruída em razão de um evento crítico no passado. Quando, finalmente, entendemos sem sombra de dúvidas o que aconteceu, permanecem as indagações morais que, então, passam a ter ser encaradas a partir da destruição de Paula.
Na arte, Fowler consegue ser tão eficiente e econômico quanto King no roteiros, materializando as narrativas macro e micro com fluidez e fazendo com que os avanços temporais sejam suaves, claros e lógicos dentro da história. Tomado por Demônios é, para todos os efeitos, um começo de carreira da mais alta qualidade para um dos mais requisitados roteiristas da atualidade. Claro que, a partir desse ponto, as portas para a prolixidade do ex-agente da CIA Tom King seriam abertas com vigor, mas isso é tema para críticas futuras de suas várias maxisséries.
Tomado pelos Demônios (It’s Full of Demons – EUA, 2013)
Contido em: Time Warp #1 (2013)
Roteiro: Tom King
Arte: Tom Fowler
Cores: Jordie Bellaire
Letras: Dezi Sienty
Editoria: Mark Doyle
Editora original: Vertigo Comics (DC Comics)
Data original de publicação: 27 de março de 2013
Editora no Brasil: Editora Panini (Vertigo Especial n° 2)
Data de publicação no Brasil: junho de 2014
Páginas: 08