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terça-feira, janeiro 27, 2026

Crítica | Tudo Morto e Morrendo – Plano Crítico

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Zumbis não foram criados e nem usados pela primeira vez por George A. Romero, mas o mestre trash foi o primeiro a inaugurar o conceito moderno das criaturas como corpos reanimados e, também, o visionário que trabalhou o elemento de horror como um comentário social. Seu clássico A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968, foi um divisor de águas que dá frutos constantes até os dias de hoje, com uma riqueza de abordagens pelas mais diversas mentes criativas e nas mais diversas mídias pelo mundo todo. Nos quadrinhos, é inegável que a grande obra sobre o tema é The Walking Dead, de Robert Kirkman, e é quase inevitável, na Nona Arte, deixar de apontar paralelos com a HQ que foi publicada ininterruptamente entre 2003 e 2019, ao longo de 193 edições. E esse é exatamente o caso de Tudo Morto e Morrendo (minha tradução direta do título original Everything Dead & Dying) que parte de uma premissa conhecida por quem já leu os quadrinhos de Kirkman ou viu a infinita adaptação para a televisão: o homem que, tendo sua família zumbificada, recusa-se a exterminá-los, passando, ao contrário, a conviver com eles.

No lugar do fazendeiro Hershel Greene, introduzido nos quadrinhos em Caminhos Trilhados e, na TV, em Blodletting, o roteirista canadense Tate Brombal criou o também fazendeiro Jack que, depois de uma praga zumbi a que ele é imune, continua sua vida “quase” normal por 12 anos ao lado de seu marido e de de sua filha, ambos convertidos em criaturas monstruosas e esfomeadas. Mas indo bem além do que Kirkman fez, Brombal faz de seu Jack alguém que mantém não só ativamente protege seus parentes, como também toda a população zumbificada da cidade de Caverton, alimentando-os diariamente com carne de gado, o que os mantém dóceis e com “memória muscular”, basicamente fazendo-os repetir as tarefas simples que estavam fazendo quando morreram, além de retardar a degradação física. Em outras palavras, Jack vive em uma bolha em que ele trancafiou os horrores do acontecido nos recônditos mais profundos de sua mente, recusando-se a aceitar as mortes de seus entes queridos e conhecidos, o que sem dúvida alguma o aproxima da obsessão e, claro, da insanidade.

Como Caverton é uma cidade pequena, ela nunca foi perturbada por outros sobreviventes da praga, até o dia que, claro, a minissérie em cinco edições começa, com um grupo finalmente aparecendo por lá e começando a fazer com que esse bizarro mundo idílico em que Jack vive há mais de uma década comece a desmoronar em velocidade vertiginosa. Como Romero e Kirkman, Brombal usa os zumbis não para contar uma história sobre os zumbis, mas sim para estudar a natureza humana em condições extremas. Sim, há zumbis esfomeados atacando humanos não transformados com um grau de violência explícita que agradará todos aqueles que procuram por isso, mas o importante, aqui, é tentar compreender os dois lados dessa história. No caso de Jack, vemos um homem cujo processamento da dor de suas perdas passou pela construção de uma proteção mental que o faz viver uma gigantesca mentira, uma fábula criada por ele como instrumento de defesa. É o caso do amor que se torna obsessão e, depois insanidade. No caso dos forasteiros, que abordarei apenas no conjunto, por eles serem trabalhados dessa forma pelo roteiro, a questão é o quanto a vontade de fazer o bem, de lutar pela humanidade faz justamente o contrário e desumaniza as pessoas, ampliando a crueldade e a insensibilidade?

E é isso que evita que Tudo Morte e Morrendo torne-se “apenas mais uma história de zumbi”. Tate Brombal é cuidadoso na forma como deixa os dois lados dessa contenda em posições ambíguas e entrega ao leitor a responsabilidade de tirar suas próprias conclusões. Jack é o protagonista, claro, e, portanto, em tese o personagem por quem devemos torcer, mas a coisa não é tão simples assim. O luto infinito de Jack é palpável e Brombal constrói cuidadosamente esse elemento por meio de flashbacks que revelam os detalhes de todas as conquistas e falhas do personagem durante sua vida pré-pandemia, algo especialmente doloroso e complexo para um homossexual em um mundo intolerante. Jacob Phillips consegue lidar muito bem com a materialização das ideias do roteirista, especialmente a forma como passado e pressente são abordados, com traços diferenciados e cores de Pip Martin que oscilam entre os tons mais fortes e alegres e os mais terrosos e sombrios. Os forasteiros, por seu turno, ganham vernizes de individualidade que são mais estereótipos do que qualquer tentativa de dar profundidade a eles, com Brombal de certa forma contando que o leitor será capaz de preencher os espaços vazios que ele propositalmente deixa, tarefa que não é nada difícil para quem tem o mínimo de intimidade com a premissa.

O choque de mundos é brutal, portanto. O mundo de Jack começa a desabar com velocidade e não parece haver nenhuma possibilidade de um meio-termo ser encontrado, o que cria uma atmosfera tensa e angustiante que funciona como um pêndulo, ora mostrando as verdades de um lado, ora de outro, de maneira a evitar visões maniqueístas e óbvias. Sim, torcer por Jack é mais fácil, mais conveniente, mais natural, mas o que Jack, vivendo do jeito que vive, subtrai dos poucos sobreviventes? E os sobreviventes, será que eles não podem respeitar o estilo de vida de alguém que criou uma rotina estranha, mas que parece funcionar? O que Brombal parece querer é mostrar que, em um mundo insano, o que é realmente inaceitável e prejudicial para todos é a falta de pontes que favoreçam o diálogo e a união. Se tudo é sempre encarado como opostos inconciliáveis, a tendência é que os conflitos se amontoem e que o final seja trágico. E Brombal, como Romero e Kirkman antes dele, tenta desesperadamente mostrar o quanto estamos equivocados em nosso cotidiano.

Tudo Morto e Morrendo (Everything Dead & Dying – EUA, 2025/26)
Contendo: Everything Dead & Dying #1 a 5
Roteiro: Tate Brombal
Arte: Jacob Phillips
Cores: Pip Martin
Letras: Aditya Bidikar
Editoria: Eric Harburn
Editora original: Image Comics
Datas originais de publicação: 03 de setembro, 08 de outubro, 19 de novembro e 17 de dezembro de 2025; 21 de janeiro de 2026
Páginas: 191



[Fonte Original]

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