No retorno das negociações após o feriado de ontem, o dia foi marcado pela aversão dos investidores aos ativos americanos, diante da escalada de tensões geopolíticas comerciais entre os Estados Unidos e a Europa. As bolsas de Nova York e o dólar tiveram firme queda, após o presidente americano, Donald Trump, ameaçar tarifas adicionais a países do continente como uma forma de pressionar a Dinamarca a vender a Groenlândia. Os rendimentos dos Treasuries subiram, especialmente na ponta longa da curva, em linha com a disparada nos juros globais diante das preocupações com o equilíbrio fiscal no Japão. O índice VIX de volatilidade, que mede o nível de estresse nos mercados, chegou a disparar 27% na máxima do dia e terminou a sessão em 20,15 pontos, no maior nível desde novembro.
No mercado de ações, as bolsas de Nova York tiveram sua pior sessão desde o “Dia da Libertação” das tarifas de Trump, em abril do ano passado. O índice Dow Jones fechou em queda de 1,76%, aos 48.488,59 pontos, o S&P 500 recuou 2,06%, aos 6.796,86 pontos, e o Nasdaq cedeu 2,39%, aos 22.954,322 pontos. Entre os setores tecnologia (-2,94%), consumo discricionário (-2,82%) e financeiro (-2,23%) lideraram as perdas.
O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de outras seis moedas fortes, recuava 0,83%, aos 98,57 pontos, no fim da sessão. O euro subia 0,72% em relação ao dólar, a US$ 1,17225.
Trump anunciou no fim de semana tarifas comerciais adicionais de 10% a partir do dia 1º de fevereiro sobre os produtos importados da Dinamarca e mais sete países da Europa, em sua tentativa de adquirir a Groenlândia. O presidente americano também disse que, caso nenhum acordo sobre a ilha seja alcançando até 1º de junho, as alíquotas aumentarão para 25%. Ele afirmou nesta terça que “não há volta” em seu objetivo de controlar a Groenlândia e não descartou a tomada da ilha pela força.
Em seguida, ele ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses, em meio a relatos de que o presidente do país, Emmanuel Macron, não estaria disposto a aderir ao seu “Conselho de Paz” para Gaza. Os líderes da União Europeia (UE) marcaram uma reunião para esta semana a fim de discutir possíveis medidas retaliatórias.
A percepção entre os participantes do mercado é de que, ao contrário do ano passado, uma retaliação da UE aos Estados Unidos parece mais provável. Os economistas do Goldman Sachs esperam que essa resposta ocorra de maneira gradual, mantendo aberta a possibilidade de uma desescalada de tensões. “Esperamos que a UE comece suspendendo a implementação do acordo comercial UE–EUA e preparando tarifas de retaliação para serem aplicadas pouco depois de quaisquer aumentos tarifários por parte dos Estados Unidos”, eles afirmam.
Apesar da turbulência, Scott Chronert, estrategista de ações do Citi, mantém sua opinião de que grande parte da incerteza relacionada à implementação de novas políticas públicas, especialmente no que diz respeito às tarifas comerciais, já tenha ficado para trás. No entanto, embora ele tenha uma visão positiva para as ações americanas em 2026, o estrategista destaca que a volatilidade deve persistir.
“Devemos esperar que a volatilidade associada a políticas, como manchetes surgindo ao longo de fins de semana, persista”, ele afirma. “Estímulos fiscais à frente das eleições de meio de mandato, uma decisão sobre a presidência do Fed e uma enxurrada contínua de propostas de políticas provavelmente continuarão”. O Citi tem um cenário-base de 7.700 pontos para o S&P 500 neste ano, com um lucro por ação de US$ 320.
Além da escalada nas tensões comerciais e geopolíticas, houve um estresse no mercado global de renda fixa. No Japão, que é o segundo maior mercado de dívida no mundo, investidores reagiram negativamente à proposta da primeira-ministra, Sanae Takaichi, de cortar impostos sobre alimentos, levando os rendimentos dos títulos da dívida japonesa (JGBs) para máximas históricas. O sentimento contaminou os mercados, o que levou a uma disparada nos juros globais, incluindo os rendimentos dos Treasuries, especialmente na ponta mais longa da curva.
No fim da sessão, os rendimentos dos Treasuries com vencimento em 2 anos subiam para 3,603%, de 3,594% no fechamento passado, e os rendimentos dos Treasuries com vencimento em 10 anos avançavam para 4,296%, ante 4,226% na última sessão. Na ponta longa da curva, os rendimentos dos Treasuries com vencimento em 30 anos eram negociados a 4,919%, de 4,839% no dia anterior.
“A fraqueza simultânea das ações e dos Treasuries dos Estados Unidos após a retórica de Trump sobre a Groenlândia aponta para um retorno do sentimento de vender ativos americanos”, comentam Ian Lyngen e Vail Hartman, estrategistas de renda fixa do BMO Capital Markets. No entanto, eles acreditam que, diferentemente da persistência desse movimento observada no ano passado, o episódio atual tende a ser mais curto.
Em meio ao clima de aversão a risco entre os investidores e com a busca por ativos seguros, o ouro teve forte valorização no dia e renovou, mais uma vez, seu recorde histórico de fechamento. O contrato futuro do ouro com vencimento em fevereiro disparou 3,71% e terminou a sessão a US$ 4.765,8 por onça-troy na Comex, a divisão de metais da New York Mercantile Exchane (Nymex).