A disparada do preço do ouro, batendo recordes sucessivos nos últimos meses, aumentou o interesse dos investidores mais do que nunca. O fenômeno foi identificado até pelo Google. As buscas por “investir em ouro” quase triplicaram nos últimos três meses (+190%) e, no Brasil, devem alcançar o maior nível desde agosto de 2020, durante a pandemia — o segundo maior desde o início da série histórica do Google Trends, em 2004.
A máxima histórica do metal foi a US$ 2.600 por onça-troy (medida padrão no mercado global que equivale a 31,1 gramas), registrada nesta segunda-feira (12). No acumulado do ano passado o ganho da commodity ultrapassou os 60%.
Entre instrumentos de investimento como fundos, ETFs (fundos de índice negociados em bolsa) e contratos futuros, há uma categoria pouco conhecida, cujo mercado ainda engatinha: as “criptos de ouro”. Elas compõem a categoria das stablecoins no mercado cripto, que são lastreadas e pareadas a ativos reais, com commodities e moedas fiduciárias.
Entre os principais exemplos de “criptos de ouro” estão o Tether Gold (XAUT), o PAX Gold (PAXG) e o Matrixdock Gold (XAUM). Juntos, esses tokens somam cerca de US$ 2,3 bilhões em valor de mercado — uma fração ínfima perto das criptos de dólar, como o Tether (USDT) e o USD Coin (USDC), que superam US$ 260 bilhões, somados. Os dados são da plataforma agregadora de preços Coingecko.
O que são e qual é o papel das stablecoins de ouro
Esses tokens funcionam como uma versão digital do ouro, representando frações do metal armazenado em custódia pelos emissores. Assim como em outros veículos, a ideia é permitir que o investidor acesse ouro sem precisar lidar com barras, cofres ou logística física, utilizando redes blockchain. Essa tecnologia funciona como um livro de registros digital e público, onde cada transação é verificada e guardada de forma segura. Assim, ninguém pode alterar as informações depois.
“As stablecoins de ouro levam para o mundo digital o que o ouro já representa há séculos: reserva de valor”, explica Hector Fardin, cofundador e diretor financeiro da fintech Avenia. “Elas resolvem a logística de não precisar guardar uma barra em casa e acrescentam atributos nativos de blockchain, como negociação 24h, todos os dias e liquidação instantânea.”
Segundo Lucca Freire, presidente da UnblockPay, empresa que oferece tecnologia para pagamentos com stablecoins à bancos e fintechs, o papel é parecido com o das criptos de dólar. “O ouro, assim como o dólar, tem função histórica de reserva de valor — por isso, ao ser tokenizado, ele permite exposição a um ativo mais estável dentro do ambiente cripto.”
Para que servem: investimento ou proteção?
Na prática, as stablecoins de ouro ainda são pouco usadas. Servem mais como porta de entrada para curiosos do universo cripto ou como instrumento de proteção patrimonial, acompanhando o preço do metal.
“Os fundamentos são os mesmos do ouro físico ou de um ETF: é possível buscar exposição tática e, sobretudo, proteção”, diz Fardin. “A versão tokenizada só muda o canal de acesso e a eficiência operacional, não a tese.”
Freire destaca também o fator praticidade. “É uma forma simples de acessar o ouro — sem precisar comprar barras, guardar em cofre ou lidar com a parte física. Tudo acontece via blockchain, com liquidez global.”
ETF ou stablecoin de ouro: qual faz mais sentido?
Para o investidor tradicional, o ETF de ouro ainda é o caminho mais comum e regulado. Já as stablecoins de ouro aparecem como alternativa para quem já tem familiaridade com carteiras digitais ou exchanges, segundo os especialistas.
Na B3, a bolsa brasileira, estão listados dois ETFs com exposição a ouro: o GOLD11, da XP Asset, e o GLDX11, gerido pela Investo. Há também o AURO11, da Buena Vista Capital, que paga dividendos, e o GBTC11, da Hashdex, que combina ouro com Bitcoin. Além do GOLB11, do BTG, que combina contratos futuros de ouro e Letras Financeiras do Tesouro (LFTs).
“Se a pessoa já tem conta em corretora, o ETF ainda pode parecer mais conveniente. Mas ativos tokenizados tendem a ganhar espaço porque oferecem liquidação instantânea e fracionamento nativo”, diz Fardin.
Para Freire, as criptos de ouro “fazem mais sentido para quem quer controle direto sobre os próprios ativos ou já está habituado ao ecossistema cripto”. “Mas é um mercado pequeno e em formação”, alerta.
As stablecoins de ouro ainda representam um nicho minúsculo, mas ilustram como o ouro também passou a ter sua versão digital. Num momento em que o metal volta aos holofotes e o interesse pelo tema dispara, esses tokens mostram que até o ativo mais tradicional do mundo financeiro pode ganhar uma roupagem cripto — ainda que, por enquanto, mais como curiosidade tecnológica do que como alternativa de investimento.