O dólar à vista encerrou a sessão desta terça-feira em valorização frente ao real. O dia foi marcado pela maior percepção global de risco em meio à preocupação dos agentes financeiros com uma escalada nas tensões geopolíticas devido à intenção dos Estados Unidos de anexar a Groenlândia.
Apesar da maior aversão a risco, o dólar encerrou a sessão longe das máximas alcançadas no dia, indicando que a busca por proteção hoje não se deu necessariamente via compra de dólar. Pelo contrário, hoje, a fuga de ativos de risco pesou principalmente para os mercados americanos, com as bolsas em Wall Street em forte desvalorização, enquanto no Brasil o Ibovespa renovou recorde histórico intradiário.
Encerradas as negociações desta terça-feira, o dólar à vista fechou em alta de 0,30%, cotado a R$ 5,3802, depois de ter tocado na mínima de R$ 5,3592 e batido na máxima de R$ 5,4086. Já o euro comercial registrou apreciação de 0,89%, a R$ 6,3011. Perto das 17h15, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, recuava 0,79%, aos 98,607 pontos.
O dólar à vista iniciou a sessão de hoje em leve alta, puxado principalmente pela percepção maior de risco devido às tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, Groenlândia e Europa. Ainda pela manhã, houve uma valorização mais firme da divisa frente ao real. A moeda brasileira teve, por algumas horas, o pior desempenho entre as 33 mais líquidas acompanhadas pelo Valor. Uma das explicações dadas por operadores foi a de que o mercado brasileiro teria sido utilizado como “hedge” no momento de estresse global.
Por ter um volume de negociações elevado, operar em horário mais estendido do que o de outros emergentes e ter uma complexidade e robustez nos derivativos, o mercado de câmbio brasileiro acaba se tornando ideal para a compra de dólares em momentos de maior risco global. Como o estresse atual envolve os EUA diretamente, a busca por proteção não necessariamente se passa por compra de dólares. Isso, atrelado ao elevado custo de posições em dólar no Brasil (por conta da Selic elevada) pode ter feito o investidor calibrar sua posição na moeda americana, gerando maior volatilidade no dia.
Eduardo Aun, sócio e gerente de portfólio da AZ Quest Investimentos, reconhece que a maior liquidez do mercado brasileiro facilita esse tipo de movimento. “Temos um diferencial de juros elevado, um dos maiores entre os emergentes, mas para movimentos pontuais e táticos, a liquidez ganha mais relevância neste tipo de operação mais rápida”, diz. “Primeiro o investidor se protege, depois ele zera ou redistribui a proteção a outros mercados.”
O executivo da AZ Quest afirma, ainda, que diferentemente de outros momentos as tensões geopolíticas agora são mais delicadas e devem se estender por mais tempo. “As disputas que vínhamos vendo até então não faziam preço duradouro no mercado, porque havia um embate histórico por trás. Agora estamos falando de países até então aliados, por isso a volatilidade se concentrou hoje nos mercados desenvolvidos”, afirma, lembrando de eventos recentes, como o envio de tropas para a Groenlândia e o anúncio de fundos dinamarqueses sobre vender títulos americanos como exemplos de desdobramentos que podem gerar estresse nos mercados.
Para Aun, os mercados emergentes, em especial as moedas, podem se beneficiar de uma dinâmica de redistribuição de risco nas carteiras. “Tem esse risco geopolítico, mas também é preciso lembrar que há a questão institucional americana, com dúvidas sobre quem vai suceder Jerome Powell no Federal Reserve (Fed), além de o mercado vir questionando a sustentabilidade do ciclo de crescimento do setor de tecnologia nos Estados Unidos, em especial da inteligência artificial”, afirma.
A combinação desses vários vetores, ainda segundo Aun, pode gerar um maior fluxo para mercados emergentes. “Com a perspectiva de que as moedas de mercados emergentes também devem valorizar frente ao dólar, o fluxo para bolsa desses países tende a crescer. É um movimento de reflexividade”, diz, acrescentando que a busca maior por metais (como ouro, cobre e minério de ferro) em meio ao estresse atual ajuda, mais uma vez, divisas ligadas a essas commodities, muitas das quais são de mercados emergentes.
Hoje, a AZ Quest tem como posição principal em moedas a compra em euro contra o dólar. Além disso, tem algo residual favorável ao real contra o dólar. “Ainda há muito ruído político envolvendo a seara fiscal que pode vir a pressionar o câmbio. Desde o ‘Flávio Day’, estamos vendo o real pior do que os pares, com dificuldade de se recuperar. Enquanto a questão política aqui atrapalhar, fica difícil ver o real ter uma valorização mais prolongada.”