O governo francês sobreviveu nesta sexta-feira (23) a dois votos de desconfiança no Parlamento, após decidir aprovar, por meio de manobra constitucional, a parte de receitas do Orçamento de 2026 sem votação final da Assembleia Nacional.
Ao todo, 269 parlamentares votaram a favor da moção de desconfiança apresentada pela esquerda radical do partido França Insubmissa, em conjunto com Verdes e Comunistas, enquanto eram necessários 288 votos para derrubar o governo. Um segundo voto de desconfiança, apresentado pela extrema direita, recebeu ainda menos apoio.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu deve agora voltar a recorrer ao artigo 49.3 da Constituição para impor a parte das despesas do orçamento à Assembleia Nacional — uma medida que quase certamente provocará novos votos de desconfiança.
O governo do presidente Emmanuel Macron tem recorrido a manobras para contornar o Parlamento depois que meses de negociações fracassaram na tentativa de aprovar um projeto de lei orçamentária voltado à contenção do déficit em uma Câmara baixa onde nenhum partido detém maioria funcional.
Le Pen diz que eleitores punirão aliados do governo
Na busca por um orçamento, Macron perdeu dois governos e viu a França mergulhar em uma turbulência raramente observada desde a criação da Quinta República, em 1958, atual sistema político do país.
Com a França dependendo de um orçamento emergencial herdado do ano passado para continuar funcionando, Lecornu fez concessões de última hora no início deste mês para garantir o compromisso dos socialistas de não derrubar o governo caso ele recorresse aos poderes constitucionais especiais.
A líder da extrema direita, Marine Le Pen, afirmou que os opositores do governo que apoiaram Lecornu no voto de confiança pagarão um preço nas próximas eleições, incluindo as eleições locais de março e a eleição presidencial de 2027.
“Não pensem que ninguém está observando vocês. O povo francês vê, e fará vocês pagarem nas urnas”, disse Le Pen aos parlamentares antes da votação. “Não apenas pelo massacre orçamentário que estão impondo, mas também pelo processo humilhante que estão utilizando.”
Lecornu afirmou que o déficit orçamentário não ultrapassará 5% do Produto Interno Bruto (PIB), abaixo dos 5,4% registrados em 2025, mas ainda bem acima do limite de 3% estabelecido pela União Europeia.
Segundo um integrante do governo, a expectativa é que o orçamento completo seja aprovado definitivamente na primeira metade de fevereiro.