O preço do petróleo tem impacto nos custos de produção de cimento, já que a maior parte do combustível usado nos fornos das cimenteiras vem do coque, subproduto do petróleo. A intervenção americana na Venezuela, contudo, não deve afetar diretamente o setor, porque o coque utilizado pelas empresas brasileiras vem do Golfo do México e da Califórnia, segundo o Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (Snic). Já um barateamento geral da commodity pode chegar ao custo de produção, embora Paulo Camillo Penna, presidente da entidade, minimize esse impacto.
A indústria brasileira de cimento ampliou as vendas em 3,7% no ano passado, atingindo 67 milhões de toneladas de material comercializado. Foi o segundo ano com alta nas vendas, após o crescimento de 3,9%, em 2024, e quedas de 2,8% e 0,9%, em 2022 e 2023.
O aumento registrado em 2025 ficou acima da estimativa do Snic, que reúne os dados. A entidade começou 2025 antevendo um crescimento de 3% a 3,5% nas vendas, mas reduziu a previsão, em meados do ano, para alta de 2%.
Segundo semestre mais forte em vendas
Segundo Penna, o segundo semestre foi mais forte em vendas. As 6,3 milhões de toneladas de outubro marcam o mês com maior volume de vendas desde outubro de 2014, ano recorde em venda de cimento na série histórica do Snic, com 73 milhões de toneladas. Em dezembro de 2025, foram comercializadas 4,9 milhões de toneladas, crescimento de 4,7% sobre o mesmo mês de 2024.
Para a entidade, a queda do desemprego e o aumento da massa salarial foram dois dos principais fatores que levaram ao desempenho positivo no ano. Isso porque dois terços do cimento vendido no país são destinados, principalmente, ao varejo.
O programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que se manteve em expansão, e os investimentos em obras de infraestrutura — com destaque para saneamento — e pavimentação em concreto ajudaram nas vendas a granel.
Todas as regiões do país apresentaram aumento nas vendas de cimento no ano, com destaque para o Nordeste, cuja alta foi de 7,2%. No Norte, foi de 4%; seguido pelo Sul, com 3,1%; Sudeste, com 2,7%; e Centro-Oeste, cujo aumento de 1,9% foi o menor entre as cinco regiões.
Ainda assim, a indústria brasileira de cimento trabalha com 38% de capacidade ociosa, conta Penna. As vendas de 67 milhões de toneladas ainda estão longe dos 108 milhões de toneladas de capacidade produtiva instalada, de acordo com o sindicato.
A entidade elevou sua projeção da capacidade instalada, anteriormente em 94 milhões de toneladas, após anúncios de obras de retrofit (reforma) em fábricas e a instalação de novos moinhos para produção de cimento. “Nós tivemos 21 fábricas fechadas”, diz, mas o momento é de “incremento grande em investimentos, principalmente atrás de competitividade eficiência”.
Os investimentos visam atender a regiões com baixa oferta do material. Por seu peso e relativo baixo custo, o cimento costuma ser comercializado próximo dos locais de produção.
Para 2026, a entidade projeta um crescimento “mais modesto”, segundo Penna, mas acima de 1,5%. “[O crescimento de 2025] é importante, porque foi sobre uma base já importante”, diz, daí a estimativa mais contida para o ano atual.
O programa Reforma Casa Brasil, anunciado em novembro do ano passado, deve ter resultados positivos, por atacar justamente a dificuldade do consumidor de comprar materiais para a sua casa no varejo, após o boom de vendas no setor durante a pandemia. A política oferece taxas mais baixas de juros para a compra de materiais.
Para 2025, era projetada uma queda de 0,5% no faturamento da indústria de material de construção, segundo a Abramat, entidade que representa os fabricantes do setor, ante a alta de 5,8% registrada em 2024 — os dados do ano passado ainda são parciais.
Variação na matriz energética
A taxa de coprocessamento da indústria de cimento, termo para o uso de combustíveis alternativos ao coque de petróleo, recuou de 32% para 30%, de acordo com a entidade.
Segundo Penna, isso se deve a uma variação na matriz energética, com maior uso de resíduos industriais e lixo, e menor de biomassa. “Manter uma massa grande de investimentos em combustível alternativo é uma preocupação permanente, porque é um hedge [ao petróleo]”, ressalta.
O preço da commodity, em queda, dificulta o crescimento da taxa de coprocessamento. O uso de combustíveis alternativos ao coque também é um caminho para reduzir as emissões do setor de cimento. O Snic trabalha com uma meta de neutralizar as emissões de carbono até 2050.