Os juros futuros encerraram o pregão desta sexta-feira (30) em alta, encerrando uma sequência de sete sessões de quedas consecutivas. Ainda que em ritmo mais ameno, o mercado doméstico de renda fixa seguiu o movimento global de ajuste nos ativos, após a escolha por Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve (Fed) reduzir as preocupações com a independência do banco central dos Estados Unidos.
O ajuste que afetou os mercados emergentes ainda foi impulsionado pelo rebalanceamento das carteiras de gestores globais no último pregão de janeiro.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2027 anotou leve alta de 13,475%, do ajuste anterior, para 13,485%; a do DI de janeiro de 2028 subiu de 12,68% a 12,72%; a do DI de janeiro de 2029 aumentou de 12,685% para 12,725% e a do DI de janeiro de 2031 avançou de 13,04% a 13,095%.
Diferentemente do que foi observado nos mercados acionário e cambial, os juros futuros tiveram uma sessão de volatilidade menos intensa. As taxas oscilaram entre níveis próximos dos ajustes de ontem e leve alta na maior parte da sessão, menos impactadas pela liquidação de parte das operações que foram mais populares entre gestores globais nas últimas semanas.
Nesse sentido, o comportamento ameno dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) foi, em parte, espelhado pela renda fixa local, com uma leve inclinação da estrutura a termo da curva tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Ainda assim, os juros futuros avançaram diante da forte alta do dólar no mercado doméstico e do movimento de realização global.
O principal catalisador para os negócios, hoje, foi a escolha do presidente americano, Donald Trump, por Kevin Warsh para a presidência do Fed. Ex-diretor do BC dos EUA, Warsh substituirá Jerome Powell em maio. A decisão foi bem recebida pelos investidores ao redor do mundo, já que, dentre os nomes que eram cogitados, o indicado de Trump é visto como mais ortodoxo em termos de condução da política monetária.
Embora se espere que Warsh sustente uma postura mais “dovish” (inclinada a juros mais baixos), em linha com o desejo de Trump, o provável próximo presidente do Fed não aparenta ser uma ameaça à independência da entidade, avalia o economista-chefe do Wells Fargo, Tom Porcelli. “Warsh tem falado sobre a necessidade de o Fed rever algumas de suas atuais políticas e processos de governança, mas tem mantido, publicamente, sua crença na importância da independência do banco central.”
Embora o ambiente externo tenha dominado as atenções nesta sexta, dados do mercado de trabalho do Brasil também inspiraram certa cautela dos investidores. Ao contrário dos números fracos do Caged de dezembro, a Pnad Contínua mostrou um novo recuo da taxa de desemprego do país, de 5,2% a 5,1%, no último trimestre de 2025. Embora esperado, a queda indica resiliência do mercado de trabalho, o que pode moderar a expectativa do mercado acerca do ciclo de cortes da taxa Selic.
“Do ponto de vista qualitativo, o dado também veio com leitura construtiva”, destaca Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, em nota. “O emprego com carteira no setor privado permaneceu elevado, com crescimento na comparação anual, enquanto as categorias mais associadas à informalidade mostraram sinais de acomodação relativa. Além disso, a queda da taxa composta de subutilização para 13,4% e a redução do contingente de desalentados reforçam a interpretação de que a incorporação de mão de obra segue ocorrendo de forma relativamente eficiente, sem deterioração dos indicadores amplos de ociosidade.”
Para este ano, contudo, é esperada alguma correção da forte queda do desemprego que ocorreu ao longo de 2024 e 2025, segundo Benedito. “Para a próxima medição, esperamos que a taxa de desemprego fique em torno de 5,2%”, projeta a economista.