A percepção negativa da população sobre a economia desafia a pré-campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de dados oficiais indicarem pleno emprego, inflação controlada e crescimento do PIB, a maioria dos brasileiros diz que nos últimos 12 meses está mais difícil conseguir um emprego, o preço dos alimentos subiu e o poder de compra foi reduzido, segundo registram pesquisas de opinião recentes. Na avaliação de especialistas, a polarização do país e a sensação de insegurança em diferentes áreas, inclusive a econômica, dificultam o aumento da aprovação do governo.
Segundo a pesquisa Genial/ Quaest divulgada na quarta-feira (14), 61% acham que o poder de compra está menor do que há um ano. Para 58% dos entrevistados, o preço dos alimentos está mais caro no supermercado no último mês e para 43%, a economia piorou. A percepção negativa sobre a economia é mais acentuada nas regiões Sul (52% acham que piorou) e Sudeste (para 49%, piorou).
Dos entrevistados, 49% disseram que está mais difícil arrumar um emprego do que há um ano e para 43%, está mais fácil. No detalhamento da pesquisa por região, o Nordeste registra a maior parcela da população com essa percepção de mais dificuldade para ter um emprego (56%). Já na região Sul, 47% acham que está mais fácil e 43%, mais difícil.
A percepção contrasta com indicadores positivos. A taxa de desemprego está em 5,2%, segundo dados de novembro do IBGE, os mais recentes. É a menor da série histórica, iniciada em 2012. Já a inflação medida pelo IPCA fechou 2025 em 4,26%, a menor desde 2018 e abaixo do teto da meta – embora ainda fora do objetivo de 3%.
Como mostrou o Valor no início do mês, analistas esperam que o índice de preços ceda pouco, após a surpresa positiva do ano passado. Além disso, o equilíbrio das contas públicas segue um desafio, com potencial efeito sobre juros.
Diretora da Ipsos-Ipec, Márcia Cavallari diz que apesar dos indicadores oficiais da inflação serem positivos, “a percepção da população é de que os preços ainda estão altos”. “O governo terá de reverter essas percepções negativas da economia e aprimorar sua comunicação para recuperar confiança – um desafio que não se resolve só com dados positivos, mas com melhora palpável no cotidiano do eleitor.”
O especialista em opinião pública e eleições Mauro Paulino avalia que percepções como a sensação de insegurança da população influenciam na avaliação negativa da gestão federal e da economia. “É uma sensação de insegurança geral. Não é apenas o medo de sair às ruas, da violência, mas também uma insegurança econômica, alimentar e em relação ao futuro”, afirma. “A população identifica ameaças crescentes, que acabam por tirar o protagonismo da economia.”
Ao citar como exemplo a percepção de que está mais difícil encontrar um emprego – apesar das baixas taxas de desemprego -, Paulino diz que a precarização do trabalho e o crescimento da informalidade também geram insegurança na população. As vagas informais respondem por 37,7% dos empregos, segundo os dados de novembro do IBGE – um contingente de 40 milhões de trabalhadores sem vínculo.
“Mesmo com a inflação controlada, as pessoas percebem que o carrinho [de compras] está mais vazio apesar de gastarem os mesmos valores. Gera uma insegurança sobre a possibilidade de ter comida na mesa”, diz Paulino. “Os índices positivos da economia precisam chegar até a população.”
O especialista em opinião pública afirma que um dos desafios do governo é transformar o bem-estar da população em avaliação positiva da gestão. “Quando há esse bem-estar, as pessoas acham que o governo não está fazendo mais do que a sua obrigação. Não há reconhecimento”, diz. Além disso, Paulino avalia que a polarização no país, entre o lulismo e o bolsonarismo, tornam ainda mais difícil esse reconhecimento. “Lula nunca mais vai chegar aos 83% de aprovação que teve no segundo mandato.”
Segundo a pesquisa Genial/ Quaest, 56% acham que Lula não merece continuar mais quatro anos como presidente. A desaprovação do governo, de 49%, é ligeiramente maior do que a aprovação, de 47%.
A polarização influencia diretamente a percepção da população sobre os rumos do país, avalia o mestre em ciência política Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice. “As pesquisas refletem essa divisão política no país”, diz. Como exemplo, cita que a rejeição de Lula, de 54%, está num patamar semelhante aos 56% que acham que o país está na direção errada, de acordo com a pesquisa Genial/ Quaest mais recente.
“O ambiente econômico está relativamente bem. Teve o crescimento do PIB, a inflação cedeu, houve o reajuste do salário mínimo e a aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Mas quando o país está dividido, a oposição vai achar que tudo está errado”, afirma Noronha.
A avaliação é semelhante ao que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, diz sobre a dificuldade do governo Lula em transformar indicadores econômicos positivos em aprovação do governo. “Acredito que toda fase extremista – e estamos vivendo uma fase da extrema-direita no mundo – ela gera esse tipo de instabilidade emocional”, afirma o ministro, em entrevista ao UOL na segunda-feira (19).
Professor de Ciência Política da USP, o ministro da Fazenda avalia que a eleição presidencial não será definida pela economia. “Eu não acredito que a economia vai derrotar o governo”, diz, ponderando em seguida que pode ser que a economia também não eleja um presidente. “A economia é elemento que está sendo muito importante no mundo inteiro, mas não o decisivo para ganhar ou perder uma eleição”, afirma Haddad.
O ministro destaca que a economia não é a principal preocupação dos brasileiros, segundo pesquisas recentes. No levantamento de dezembro do Datafolha, saúde (citada por 20%) e segurança/ violência (mencionada por 16%) são as áreas mais problemáticas do governo federal. Economia/inflação/crise econômica aparece em terceiro lugar, com 11% das menções. Na pesquisa Genial/ Quaest da semana passada, economia aparece em quarto lugar (12%), atrás de violência (31 % das citações), problemas sociais (18%) e corrupção (17%).