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sexta-feira, janeiro 2, 2026

Quase 1/3 dos trabalhadores do país tem emprego exposto à IA

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Quase um terço da população ocupada no Brasil está exposta, de alguma forma, à Inteligência Artificial (IA) generativa no seu fazer profissional, sendo que pouco mais de 5 milhões de pessoas estão no grau máximo de exposição. Essa exposição é maior entre as mulheres, os mais jovens, os mais escolarizados, na região Sudeste e no setor de serviços, em especial nos serviços de informação e comunicação e nos serviços financeiros.

Essas são os apontamentos de um estudo do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) e da carta do mês do instituto, apresentados ao Valor. “Ocupações intensivas em tarefas analíticas repetitivas e processamento de informação apresentam alta exposição ao potencial de automação via IA”, escreve na carta Luiz Guilherme Schymura, diretor do FGV Ibre.

Os pesquisadores do instituto calculam que 29,8 milhões de trabalhadores, ou 30% dos empregados, tinham exposição à IA generativa no terceiro trimestre de 2025, último dado disponível da Pnad Contínua trimestral, do IBGE. Em 2012, esse contingente era de 23,2 milhões de pessoas, ou 27% da população ocupada. Essa exposição à IA pode ser positiva, isto é, complementar ao trabalho convencional, ou negativa, quando leva à substituição completa do trabalhador.

“O copo não está meio cheio, ele está cheio para o trabalhador, o mercado de trabalho está indo muito bem. Ainda não vemos esse impacto da IA no agregado, mas se, de fato, a adoção tecnológica continuar nesse ritmo e puder ter um efeito de substituição maior, isso vai acontecer”, afirma Fernando de Holanda Barbosa Filho, autor do estudo junto com Paulo Peruchetti, Janaína Feijó e Daniel Duque. “Nunca foi tão rápida a velocidade de adoção de uma nova tecnologia no mundo”, acrescenta.

Os pesquisadores do FGV Ibre replicaram para o Brasil uma metodologia de mapeamento do grau de exposição das ocupações às IA tomando como base um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 2025, que atualizou o Índice Global de Exposição Ocupacional à IA generativa.

Primeiro, os pesquisadores traduziram a lista de ocupações do sistema internacional ISCO-08 para a classificação de ocupações da Pnad Contínua. A partir disso, classificaram as ocupações no Brasil de acordo com a exposição à IA nos seis níveis propostos pela OIT: nenhuma, baixa e gradientes de 1 a 4 (da menor para a maior).

As pessoas percebem a importância de se qualificar. O mercado está demandando cada vez mais isso”

— Paulo Peruchetti

Entre o primeiro trimestre de 2012 e o terceiro de 2025, a proporção de expostos no gradiente 1 diminuiu (de 35,8% para 30,5%), enquanto para todos os demais gradientes aumentou. A participação de trabalhadores expostos à IA no nível 4, o maior, foi de 16,1% em 2012 para 17,6% em 2025.

Os pesquisadores cruzaram a análise com outros indicadores socioeconômicos (ver detalhes ao lado). Em termos de gênero, o grau de exposição das mulheres (35,4%) é maior que dos homens (25,2%). A região com maior exposição é a Sudeste (32%), e a com a menor é o Norte (25,3%), seguida do Nordeste (26,7%). A exposição à IA é decrescente com a idade, sendo maior entre jovens de 14 a 29 anos (35,9%) e menor nas faixas de 45 a 59 anos (24,5%) e de 60 anos ou mais (25,7%).

No caso da escolaridade, o grau de exposição à IA é crescente, saindo de 10,2% para aqueles sem instrução ou com fundamental incompleto para 42,7% entre os com superior completo.

Segundo os pesquisadores, a literatura internacional já apontou que o grau de exposição à IA tende a crescer com o grau de qualificação exigido das atividades, normalmente correspondente a um maior nível de qualificação dos ocupantes desses postos. Assim, uma das razões para a maior exposição das mulheres (ante os homens) e dos jovens (ante faixas etárias mais altas) no Brasil poderia ser o maior nível de educação dos primeiros grupos. Da mesma forma, apontam, o contraste entre Sudeste e Norte-Nordeste pode se dever ao diferencial de desenvolvimento dessas regiões.

Entre os setores analisados, o menos exposto é a agropecuária, com apenas 1,5% das ocupações com algum grau de exposição à IA. O mais exposto é o de serviços de intermediação financeira, com 90,6% de exposição. “Tem empregos que vão acabar, não tem dúvida. E outros serão criados. A pessoa sabendo usar a IA vai proteger o seu emprego. Alguém que não sabe usar a IA, provavelmente, não vai conseguir se reposicionar”, afirma Barbosa Filho.

Os pesquisadores do FGV Ibre citam um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostrando que, enquanto em economias avançadas como Estados Unidos e Reino Unido o percentual de trabalhadores expostos à IA é de cerca de 60% do total ocupado, em economias emergentes como Brasil, Colômbia e África do Sul essa proporção está em torno de 40%.

O desafio, no entanto, é que cerca de metade da exposição à IA em economias avançadas é de natureza complementar, enquanto para o Brasil, por exemplo, cerca de 20% da população ocupada possui alta exposição e baixa complementaridade com a IA, tornando esses trabalhadores bastante vulneráveis à perda do emprego, dizem os pesquisadores do FGV Ibre. Por outro lado, apontam, pouco mais de 20% dos trabalhadores brasileiros possuem, segundo o FMI, alta exposição, mas também elevada complementaridade à IA, o que pode gerar benefícios em termos de maior produtividade e salário, afirmam.

“Tem mais um trem da história passando. A questão é se a gente vai conseguir subir nele ou não. E, mesmo fazendo tudo certo, vão existir perdedores, precisamos pensar como proteger essas pessoas”, afirma Barbosa Filho.

Os pesquisadores do FGV Ibre defendem uma agenda de política pública para lidar com esse cenário. “Essa agenda é para ontem, porque até podemos não ver ainda impacto no agregado, mas, na hora que começa a onda, ela não para. Quando a tecnologia começa a ficar disponível a um preço acessível, as pessoas começam a usar em massas. Aí, não adianta correr atrás do rabo. Precisamos nos antecipar”, diz Barbosa Filho.

Na área de educação e requalificação, os pesquisadores dizem ser preciso investir em educação básica de qualidade, estatística, habilidades digitais, programação e, sobretudo, competências transversais, como resolução de problemas, comunicação e trabalho em equipe. “De alguma forma, acho que as pessoas estão percebendo essa importância de se qualificar. O mercado está demandando cada vez mais isso. Se as pessoas não forem se adaptando, isso vai ser um problema”, afirma Peruchetti.

Em termos de proteção social e políticas ativas, os deslocamentos setoriais e ocupacionais da IA aumentam a importância de sistemas de seguro-desemprego, de programas de transferência de renda e políticas ativas de intermediação, qualificação e subsídios à recontratação, capazes de reduzir a duração do desemprego e apoiar transições entre ocupações, afirmam os pesquisadores.

“Do ponto de vista de política pública, essa rede de proteção social me preocupa menos, porque já mostramos na pandemia que somos capazes. Preocupa mais a preparação para quem está entrando no mercado de trabalho e nosso modelo de requalificação”, afirma Barbosa Filho.

Adotar um sistema de intermediação de mão de obra e de qualificação ágil e flexível é medida emergencial, segundo ele. “Qualificação profissional, hoje em dia, não é mais um curso longo meses como era no passado. São pequenas pílulas de competências necessárias para adaptar esse trabalhador. É preciso adotar um sistema com agilidade para identificar rápido o problema e flexibilidade para adotar a solução.”

São necessárias ainda medidas na área de regulação do uso de IA no ambiente de trabalho, dizem os pesquisadores. Para eles, é preciso controlar o uso da tecnologia para monitoramento, avaliação contínua de desempenho e automação de decisões de RH. Pesquisas alertam ainda para riscos de vieses algorítmicos, discriminação e intensificação do trabalho, além de assimetrias de poder entre empresas e trabalhadores, apontam.

Tudo isso demanda, segundo os pesquisadores, marcos regulatórios que garantam transparência, explicabilidade mínima e mecanismos de contestação de decisões automatizadas, além de participação de sindicatos e representações trabalhistas na governança de tecnologias no local de trabalho. “Quão mais difundida a legislação permitir o uso de IA, maiores serão os desafios. A trava inicial vai ser regulamentação. Por isso existe uma discussão sobre IA responsável. Na minha opinião, isso é alguma forma de tentar regulamentar o uso para fazer com que seus impactos ocorram de forma mais gradual”, afirma Barbosa Filho.

Por fim, há questões de políticas de concorrência e difusão tecnológica. A concentração de capacidades de IA em poucas grandes empresas de tecnologia, dizem, levanta questões de poder de mercado, captura de dados e distribuição dos ganhos de produtividade.

“Existem duas forças atuando ao mesmo tempo. Dentro de uma mesma empresa o uso da IA pode diminuir o fosso entre os empregados. Alguns estudos mostram que o trabalhador que mais se beneficia é o menos produtivo dentro de uma mesma ocupação. No entanto, em relação a outro setor que não consegue adotar IA, esse fosso pode aumentar. O que vai determinar o resultado é o quanto vamos conseguir adotar tecnologia de forma horizontal na economia”, diz Barbosa Filho.

Políticas de concorrência, padrões abertos, promoção de ecossistemas de IA aberta e apoio a pequenas e médias empresas para adoção da tecnologia são, segundo os pesquisadores, peças importantes para evitar que os benefícios fiquem concentrados em um número pequeno de agentes.

“Setores de alta competitividade e produtividade não podem perder tempo, porque essa é uma corrida, o mercado deles não é local, é mundial. As empresas de ponta já estão adotando, e eu acho que não estamos ainda preparados para proteger o trabalhador e oferecer a complementaridade ideal”, afirma o economista.

[Fonte Original]

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