A economia mundial resistiu relativamente bem à primeira onda do choque tarifário dado pelo presidente Donald Trump, embora os riscos de agravamento das tensões comerciais se mantenham como um dos dois maiores listados pelo Fundo Monetário Internacional na atualização do seu “Perspectiva Econômica Mundial” — o outro é a mudança de expectativas sobre a Inteligência Artificial (IA). A adaptação ao novo mundo de tarifas fez o FMI elevar o crescimento da economia global para 3,3%, 0,2 ponto percentual maior do que projetara em outubro. O Fundo prevê expansão de apenas 1,6% do PIB brasileiro, em decorrência da política monetária contracionista aplicada desde setembro de 2024.
As premissas do Fundo, que concluiu seu relatório no fim de 2025, começaram a ser postas em questão pela realidade já ao raiar do novo ano, quando os EUA sequestraram o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, ameaçando apoderar-se do petróleo do país, e, poucos dias depois, mostraram a intenção de se apossar da Groenlândia. O FMI menciona a “estabilização das tensões comerciais” como um dos fatores para a revisão das perspectivas, mas a disposição de Trump de taxar os países europeus contrários à ideia de apossar-se da Groenlândia com 10% a partir de fevereiro e 25% em junho, além da possibilidade de retaliação europeia, não se coadunam com essa expectativa.
Uma série de fatores, além da aparentemente curta trégua nas disputas comerciais, entrou em cena para aparar os efeitos das tarifas americanas. As políticas fiscais têm sido mais expansionistas que o esperado, em especial nos países desenvolvidos, e as condições financeiras se mostraram mais favoráveis ao crescimento. Além disso, foram determinantes para isso os enormes investimentos em IA nos Estados Unidos, com reflexos importantes nas economias do Sudeste Asiático.
Segundo o FMI, os investimentos atuais em tecnologia da informação atingiram a maior proporção em relação ao PIB desde 2001, época de explosão das empresas pontocom. Nos três primeiros trimestres de 2025, gastos em TI elevaram em 0,3 ponto percentual o PIB americano (de 4,3% no terceiro trimestre de 2025), eliminando o efeito negativo sobre a atividade econômica da maior paralisação dos serviços públicos dos Estados Unidos.
A IA é uma promessa de avanço econômico, mas também um dos principais pontos de preocupação para o futuro da economia global. Segundo a consultoria Gartner, os investimentos em IA atingiram US$ 1,75 trilhão no ano passado e chegarão a US$ 2,52 trilhões em 2026 (Valor, ontem). Esses investimentos colossais, antes feitos com receitas próprias e de capitalização das Big Techs, passaram a ser realizados também com dívidas e alavancagem. O aumento das apostas elevou também a percepção de risco de frustração dos resultados que a tecnologia pode proporcionar às empresas.
O FMI, no entanto, vê menor ameaça na evolução acionária das empresas envolvidas com IA em comparação com o das empresas pontocom do início do século. Ainda que seu peso no PIB seja igual nos dois casos, a evolução da IA tem sido mais gradual. A valorização de mercado foi semelhante nos dois casos, mas a relação preço-lucro das ações é bem menor agora, devido aos fortes lucros das empresas de TI, argumentam Pierre-Olivier Gourrinchas e Tobias Adrian, diretores do FMI. Isso não significa, no entanto, que mudanças de expectativa em relação aos ganhos na tecnologia não possam provocar enormes estragos na economia global.
Boa parte das empresas de IA não está listada em bolsa e recorre basicamente ao endividamento para se financiar. Depois, no caso das bolsas, há anos seguidos que as ações de TI, com a promessa da IA, vêm sustentando as altas, a ponto de que a capitalização de mercado total é de 226% do PIB. Como a aplicação em ações é disseminada nos EUA, uma correção mesmo que modesta no rumo dessas ações teria efeitos importantes para retrair o consumo, afirmam os diretores do FMI. O declínio abrupto de investimentos no setor, com queda de ações, teria efeitos fortes nos EUA e no Sudeste Asiático, deprimindo o crescimento em geral, com aperto das condições financeiras atingindo os mercados emergentes.
Se nada disso ocorrer, o avanço da IA é capaz de sustentar grande crescimento da produtividade ao longo dos próximos anos. Estudo apresentado pelo Fórum Econômico Mundial em Davos indica que as empresas que adotaram mais cedo a IA em suas cadeias de suprimento obtiveram redução de 15% nos custos logísticos e de 35% nos estoques, com economia de 25% do tempo total do processo.
Para os empresários globais reunidos nos Alpes suíços, no entanto, as tensões comerciais vieram para ficar e tornaram as cadeias de produção estruturalmente instáveis, “mais fragmentadas e, em vários casos, mais degradadas do que os líderes globais experimentaram nas últimas quatro décadas”.
Os riscos apontados pelo cenário do Fundo persistirão ao longo do tempo, com as tensões comerciais agindo para reprimir o crescimento e as ameaças de fragilidade financeira da sustentação da IA se estendendo no tempo, até que ela corresponda na prática às expectativas que criou.