Para que a alta-costura siga florescendo, é preciso cultivá-la como plantas em um jardim. Depois da moda, os jardins eram a grande paixão de monsieur Christian Dior, que disse ter desenhado “mulheres-flor com cinturas finas feito lianas e saias amplas como corolas” ao elaborar o design do que viria a ser seu New Look.
Não faltaram flores na manhã da segunda-feira (26), na estreia de Jonathan Anderson na couture da Dior: do convite do desfile (remetendo aos ramalhetes de ciclâmen presenteados a ele por John Galliano) aos brincos-buquê com pétalas de seda, passando por bordados densos ou jacquards acetinados, a coleção de primavera-verão da maison foi um show de frescor.
Abaixo, listo as coisas que você precisa saber sobre o aplaudido début da Dior na semana de alta-costura de Paris. Eu amei!
DE VOLTA AO FUTURO
O frescor de um jardim revestindo o teto dialogava com a modernidade do cenário espelhado pelo qual as modelos desfilaram. “Ao se inspirar na natureza sempre há algo a aprender. A natureza não oferece conclusões fixas, apenas sistemas em movimento, evoluindo e se adaptando “, diziam as notas que nos aguardavam nos assentos do show, no Museu Rodin. Para Jonathan Anderson, a alta-costura segue esse mesmo raciocínio: “um laboratório de ideias onde a experimentação é inseparável da arte e das técnicas consagradas, ativadas com conhecimento vivo”.

TUDO SÃO FLORES
No convite, nas roupas, nos sapatos, nas bolsas, nos brincos. As flores que inspiraram a tradição da maison foram protagonistas do desfile. Surgiram realistas, como nos brincos pendentes em forma de orquídea, ou perfumando a coleção com twist oriental em jacquards de tecidos acetinados; um olhar que remete diretamente a algumas das criações de John Galliano durante seu período como diretor criativo da Dior – o estilista britânico é, até hoje, uma das grandes referências de Anderson.

NA TRILHA SONORA
Clássicos como “As Quatro-Estações” mas também músicas que davam o recado, como “Wrap Your Troubles in Dreams” (em português, algo como “embrulhe seus problemas em sonhos”) de Nico. A couture é para sonhar!

UPCYCLING NO GABINETE DE CURIOSIDADES
Sedas originais da era Rococó revestiram acessórios, enquanto uma miniatura do século 18 feita pela artista veneziana Rosalba Carriera foi emoldurada entre pérolas. Fósseis milenares e fragmentos de meteoritos foram incorporados em joias com status de objeto de arte; tudo parte do gabinete de curiosidades de Anderson (cuja pesquisa passou, também, por um exemplar da pedra brasileira água-marinha).

FRESH START NO CASTING
Natural de Paraí, cidade do Rio Grande do Sul com pouco mais de 7 mil habitantes, a brasileira Julia Bregalda foi um dos destaques do casting de modelos que riscou a passarela. Julia foi revelada à indústria fashion em 2018, quando venceu o concurso The Look of The Year. “Estávamos todos com muita expectativa por fazer parte dessa história. Cada look que era vestido nas modelos fazia a equipe se emocionar! Foi um prazer trabalhar com o Jonathan, ele é uma pessoa incrível e que sempre admirei”, conta a modelo à coluna. Olho nela!

COLABORAÇÃO DU JOUR
Foi com a ceramista britânica Magdalene Odundo. Deu para ver a influência da artista nos vestidos amplos com tecidos moldados feito o movimento de rotação da argila em um torno (a saber: foram mais de dois meses de desenvolvimento para um único vestido). Perfeitos vasos para vestir a “mulher-flor” de que Christian Dior tanto falava.

FOREVER YOUNG
Cabelos cor-de-rosa, calças de shape moderno, um olhar inesperado para o tricô: a couture de Jonathan Anderson mostrou uma preocupação clara com o rejuvenescimento dos códigos tipicamente associados com a alta-costura. Moda para os novos tempos (e uma nova clientela).

OS FLASHES NA FILA A
De John Galliano a Pierpaolo Piccioli (que comanda a Balenciaga) e Pharrell Williams (atual diretor criativo da linha masculina da Louis Vuitton), os big players da indústria fashion compareceram em peso para mostrar seu apoio à estreia de Anderson na couture. Rihanna, Jennifer Lawrence, Anya Taylor-Joy, Parker Posey e Taylor Russell foram algumas das celebridades que concentraram os flashes na primeira fila.

TEM QUE VER DE PERTO
Os acessórios ganharam protagonismo na coleção, pensados como couture; únicos e exclusivos. Bolsas foram moldadas como objetos esculturais, inspirando novas maneiras de se carregar e incorporando materiais que vão de pedras ornamentais a laca (foco na reinvenção de ícones como a Lady Dior!). Sandálias, mules e scarpins-desejo recriaram pétalas de ciclâmen em seda – vale o zoom no famoso bico quadrado assinado no passado por Roger Vivier para a maison.

LÁ VEM A NOIVA
Mona Tougaard encerrou o desfile com um vestido all-white espetacular (nada menos que três pessoas foram necessárias carregar a cauda da peça até a boca da passarela antes da entrada final da modelo!).
Com Antonia Petta e Milene Chaves
Donata Meirelles é consultora de estilo, atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle
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