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- Author, Dalia Ventura
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 8 min
“Esta é a primeira vez que enterro alguém que já havia sido enterrado antes“, disse o sacerdote encarregado de realizar o funeral de Mick Meany, segundo sua filha Mary.
No seu livro de 2015 You can’t eat roses, Mary! (“Você não pode comer rosas, Mary!”, em tradução livre), ela recorda que, nesta segunda ocasião, o único a comparecer foi um jornalista local.
Mas o seu primeiro enterro, 35 anos antes, contou com a presença de uma multidão e da imprensa mundial… e ele estava vivo!
Não se trata de um daqueles erros que aconteciam até o início do século 20, quando ainda não havia critérios padronizados para certificar a morte.
O enterro de Mick Meany foi um evento anunciado — um espetáculo orquestrado para cativar o público e atrair a atenção da imprensa. E deu certo, pois foi noticiado não apenas no Reino Unido, onde aconteceu, mas em lugares distantes, como os Estados Unidos e a Austrália.
Esta história extraordinária começa em um pub irlandês, mas longe da Irlanda.
Seu protagonista, Meany, era filho de um fazendeiro de Tipperary, na República da Irlanda. E, como fizeram vários outros de seus compatriotas desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ele havia se mudado para a Inglaterra em busca de trabalho, para poder sustentar a família.
Seu sonho era ser campeão mundial de pugilismo, mas trabalhava como operário na construção civil. A ilusão de triunfar no ringue foi desfeita por um acidente de trabalho, que lesionou uma de suas mãos.
Mas, de outro acidente, surgiu uma nova ideia. Ele estava cavando um túnel, que caiu por cima dele.
O que se conta é que, enquanto estava enterrado sob os escombros, surgiu a ideia de um novo sonho: bater o recorde de tempo enterrado vivo em um caixão.
Parece estranho. E é, na realidade.
Mas as competições de resistência incomuns estavam na moda nos Estados Unidos desde a década de 1920. E, em 1966, um marinheiro as levou para a Irlanda, onde permaneceu enterrado durante 10 dias.
Mas este período não era nada em comparação com a façanha de Digger O’Dell, que havia passado 45 dias embaixo da terra no Estado americano do Tennessee. E este era o recorde que Meany se propôs a superar.
Objetivo macabro

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Mas por que alguém iria se empenhar para fazer algo que, ao longo da história, foi usado como método de tortura e, para a maioria de nós, é um pesadelo?
Os motivos dos chamados artistas funerários, aparentemente, eram vários. Havia desde o simples prazer de bater recordes até ganhar dinheiro, além das tentativas de chamar a atenção para alguma questão.
O’Dell, por exemplo, foi sepultado voluntariamente 158 vezes ao longo da vida, frequentemente para ganhar dinheiro, promovendo lugares ou produtos. Em 1971, ele foi enterrado pela última vez para promover um plano elaborado por ele para baixar os preços da gasolina.
Meany teve diversas razões para tentar a façanha.
Com 33 anos de idade, sem qualificação, nem educação superior, nem talentos evidentes, sua única possibilidade parecia ser continuar fazendo o que já fazia: trabalhar como operário na construção civil.
Uma façanha como esta, por mais tétrica que pareça, poderia fazer seu nome figurar no Livro Guinness dos Recordes. Com isso, ele esperava ganhar dinheiro suficiente para voltar para a Irlanda e construir uma casa.
“Eu não tinha futuro na vida real”, declarou ele. “Por isso, quis ficar embaixo da terra e demonstrar o meu valor.”
Meany também acalentava o sonho de ser um campeão mundialmente famoso. E, como não poderia ser boxeador, resolveu apostar na glória de ser o melhor na macabra proeza de resistência.

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Por mais incomum que fosse seu propósito, tudo foi curiosamente se abrindo para que ele o atingisse.
Meany vivia em Kilburn, um bairro no norte de Londres que, na época, era um “enclave irlandês”, o lar de muitos de seus compatriotas.
Um dos vários pubs da região era o The Admiral Nelson, administrado por Michael “Butty” Sugrue — um personagem singular, que havia sido lutador e homem forte no circo.
Ele continuava fazendo truques, como carregar uma pessoa sentada em uma cadeira usando apenas os dentes. E também era empresário e, ocasionalmente, promotor de lutas de boxe.
Quatro anos depois, Sugrue levaria Muhammad Ali (1942-2016) para lutar na capital da República da Irlanda, Dublin.
Meany comentou, entre uma cerveja e outra, sua ideia de ser enterrado vivo. Sugrue imediatamente saiu a campo e, pouco tempo depois, não havia como voltar atrás.
Sua filha Mary conta que sua mãe ouviu no rádio que um homem tentaria quebrar um recorde mundial passando mais de 45 dias embaixo da terra. Ele não havia contado nada, mas ela sabia que era seu marido e desmaiou.
Ele queria realizar a façanha na Irlanda, mas sua família o impediu. O medo era que ele sofresse a mais horrível das mortes, o que a Igreja Católica não veria com bons olhos.
Mas, segundo Mary, ele nunca entendeu esses motivos. E, no dia 21 de fevereiro de 1968, Meany fez o que todos pediram para que ele não fizesse.
No subterrâneo
Sugrue organizou todo um espetáculo.
Ele teve a ideia de fazer com que Meany comesse sua “última ceia” no pub, em frente à imprensa mundial, antes de fechar a tampa do caixão.
Vestido com um pijama azul e meias, o aspirante a campeão entrou no caixão de 1m90 de comprimento por 78 cm de largura, forrado com espuma, que foi fabricado especialmente para a ocasião.
Ele levou consigo um crucifixo e um rosário. Antes de ser encerrado, ele declarou:
“Faço isso por minha esposa e minha filha, e pela honra e glória da Irlanda.”
Encerrada a cerimônia e ao som de um tenor irlandês, uma procissão de curiosos e equipes de televisão acompanhou Meany pelas ruas de Kilburn, até o local que seria sua morada por, talvez, pelo menos um mês e meio… mais um dia, para bater o recorde.
Depois de sepultado sob toneladas de terra, a 2,5 metros de profundidade, o irlandês conseguia respirar graças a dois tubos de ferro fundido. Por ali, ele também recebia jornais e livros para ler à luz de uma tocha, além de alimentos, bebidas e cigarros.
Chá e torradas, carne assada e sua cerveja preta favorita… ele tinha de tudo. Mas “não era um hotel embaixo da terra”, diria ele posteriormente.
E, para as necessidades menos elegantes, uma portinha dava para uma cavidade embaixo do caixão, que servia de sanitário.

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Foi instalada uma caixa de doações no local e era possível pagar para falar com Meany.
A façanha atraiu astros como o pugilista Henry Cooper (1934-2011) e a atriz Diana Dors (1931-1984). Eles visitaram Meany no seu túmulo.
De um telefone instalado dentro do caixão, ele conversava com o mundo exterior. A linha o conectava ao pub The Admiral Nelson, onde Sugrue cobrava por cada ligação.
A imprensa o acompanhou por algum tempo, mas a realidade foi deixando sua façanha de lado. A guerra do Vietnã (1959-1975, com participação dos Estados Unidos a partir de 1965) e o assassinato de Martin Luther King (1929-1968) eclipsaram, com toda a razão, tudo o mais que acontecia naquela época.
Ainda assim, Sugrue garantiu que o dia da “ressurreição” de Meany não passasse despercebido.
Da glória para o esquecimento
Entre bailarinas, músicos e jornalistas, o caixão foi desenterrado e levado para o pub de caminhão, no dia 22 de abril — 8 semanas e 5 dias após a sepultura.
Uma multidão acompanhou a procissão. E, quando a tampa foi retirada, Meany surgiu sorrindo, de barba e com óculos de sol, para proteger os olhos.
Ali estava ele: sujo e desalinhado, mas indiscutivelmente vitorioso.
“Gostaria de aguentar mais cem dias”, declarou ele. “Estou encantado por ser o campeão do mundo.”
O exame médico confirmou que Meany estava em boas condições de saúde.

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Mais uma vez, como no dia em que foi enterrado, Meany sentiu a admiração das pessoas, como sempre havia almejado.
Ele pensou ter realizado o sonho de ser mundialmente famoso. E previa que tudo aquilo viria acompanhado de uma fortuna.
Sua filha Mary conta que, se ele superasse o recorde de O’Dell, havia a promessa de uma viagem pelo mundo com seu caixão e 100 mil libras em dinheiro.
Era um valor alto. Para se ter uma ideia, uma casa de três andares em um bairro elegante de Dublin custava, em 1970, cerca de 12 mil libras.
Depois de 61 dias embaixo da terra, Meany quebrou o recorde com folga. Eram necessários 46 dias e ele passou mais 15 sepultado.
Mas a viagem não se concretizou e a fortuna também nunca veio. Ele voltou para a Irlanda sem um centavo no bolso, segundo Mary.
Como se isso não bastasse, sua esperança de que a façanha fosse registrada oficialmente também não se realizou. O Guinness nunca reconheceu seu recorde porque nenhum representante estava presente para verificar o feito, como ocorreu na maioria dos outros artistas funerários.
Mas, com a imprensa mundial como testemunha, ninguém poderia duvidar dos seus 61 dias.
Ocorre que, poucos meses depois naquele mesmo ano, uma ex-monja chamada Emma Smith superou a proeza de Meany. Ela permaneceu sepultada voluntariamente por 101 dias em um parque de diversões em Skegness, na Inglaterra.
Foi apenas agora, pouco mais de duas décadas depois de sua morte (em 2003), que a história de Mick Meany voltou às manchetes, com o elogiado documentário Buried Alive/Beo Faoin bhFód (“Enterrado vivo”, em tradução livre), que está sendo apresentado em festivais de cinema.
Disso, provavelmente, ele teria gostado.