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A União Europeia deu um novo passo em direção à aprovação do acordo comercial com o Mercosul. As negociações se arrastam por mais de 25 anos e enfrentam resistência de países como Itália e França.
Com o apoio de 15 dos 27 Estados-membros do bloco europeu, o sinal verde permite que Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, assine o tratado. O Parlamento Europeu ainda precisa aprovar o texto antes que ele entre em vigor.
Segundo cálculos do governo federal, o acordo, que conecta dois dos maiores blocos econômicos do mundo, envolverá 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 22 trilhões (R$ 118,1 trilhões). O principal impacto econômico deve ser sentido no setor agropecuário, com a ampliação do acesso a novos mercados.
O último avanço relevante havia ocorrido ao fim de 2024. Em 6 de dezembro daquele ano, líderes do Mercosul e da União Europeia anunciaram a conclusão das tratativas iniciadas mais de duas décadas antes.
O ambiente comercial global, no entanto, mudou desde então. Em 2024, o cenário internacional ainda operava sob a expectativa de alguma estabilidade institucional, apesar das tensões geopolíticas persistentes e da desaceleração do multilateralismo. A guinada protecionista dos Estados Unidos, em 2025, alterou esse equilíbrio. A imposição de tarifas amplas, a revisão de compromissos comerciais e a postura mais unilateral do governo americano passaram a afetar diretamente os fluxos globais de comércio e investimento. Com isso, o acordo UE–Mercosul passou a assumir um papel estratégico ainda mais relevante.
“O acordo fica mais importante diante da nova configuração comercial global”, afirma Leo Braga, professor de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio. Segundo ele, o enfraquecimento do multilateralismo não é recente, mas vem se aprofundando ao longo das últimas décadas. “Desde meados dos anos 2000, passando pela crise de 2008 e pela pandemia, houve uma queda muito significativa nos incentivos ao comércio multilateral, especialmente a partir das grandes potências. Em um cenário em que os Estados Unidos assumem uma posição mais unilateral e isolacionista, o acordo ganha significado muito relevante para a dinâmica comercial global entre esses dois blocos.”
Para especialistas, a mudança de postura dos Estados Unidos acelerou decisões que, em circunstâncias normais, poderiam levar ainda mais tempo para amadurecer.
“Esse momento foi decisivo para que, depois de quase três décadas de negociação, União Europeia e Mercosul chegassem aos termos a que chegaram”, diz Braga. Na avaliação dele, a deterioração das relações comerciais com os EUA elevou o custo da inação para os europeus. “Não há dúvida de que o cenário global contemporâneo da política do governo Trump foi um incentivo muitíssimo importante para que os blocos pudessem chegar a esse consenso.”
Leonardo Paz Neves, analista do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, concorda que o tratado ganha peso não por reverter a tendência protecionista global, mas por fortalecer os países que ainda apostam em maior abertura comercial. “As tarifas adicionam um novo componente e acentuam uma tendência que já vinha desde 2016. Ele não reverte isso, mas fortalece quem acredita em maior abertura comercial.”
Para o economista Igor Lucena, o acordo também se torna mais relevante em relação a 2024 por passar a cumprir uma função estratégica mais clara: organizar zonas de influência econômica em um cenário de competição entre grandes blocos. Segundo ele, a iniciativa ajuda União Europeia e Mercosul a se posicionarem de forma mais coordenada em um comércio internacional cada vez mais fragmentado e marcado pela lógica bilateral.
Embora o tratado não substitua o mercado americano para nenhum dos lados, ele cria uma alternativa importante em um momento de retração dos fluxos comerciais. Para o Brasil, o ganho potencial tende a ser maior do que para a Europa, já que o país sente de forma mais intensa os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
“Imaginar que o Brasil possa suprir demandas do tamanho das que a União Europeia tinha com os EUA é pouco provável”, afirma Braga. “Mas, do ponto de vista brasileiro, a União Europeia pode ser mais valiosa agora, considerando a perda ou diminuição do mercado americano.”
Leonardo Paz Neves, da FGV, ressalta que o principal efeito do acordo, neste momento, é ampliar a resiliência econômica. “Ele não limita diretamente as perdas trazidas pelas tarifas, mas cria mais válvulas de escape. O Brasil passa a ter mais opções e menos dependência de decisões arbitrárias de um único parceiro.”
Agro em alta
Na prática, o maior impacto econômico deve se concentrar no setor agropecuário. A entrada ampliada de produtos agrícolas brasileiros em um mercado historicamente protegido é vista como um dos principais ganhos do tratado. “A União Europeia sempre dificultou a entrada de produtos agrícolas. Resolver essa frente é um avanço enorme”, diz Braga.
Mas também há desafios. Com a intensificação do comércio com a Europa, o Brasil será pressionado a modernizar seu parque industrial. Segundo Braga, para que produtos brasileiros consigam competir com os europeus, será necessário elevar os níveis de produtividade, tecnologia e eficiência. Igor Lucena, economista e CEO da Amero Consulting, destaca que a redução de tarifas para a importação de máquinas e equipamentos pode acelerar esse processo e aumentar a competitividade do país no médio prazo.
Reposicionamento estratégico
Os efeitos econômicos são os primeiros a vir à cabeça, mas há outro aspecto de grande relevância: o reposicionamento político dos dois blocos. Em um momento em que a regionalização comercial ganha força, o acordo cria uma zona de influência transcontinental, reforçando o papel do Mercosul como bloco comercial — e não apenas político.
“Isso representa o multilateralismo europeu em ação e a ideia de que é possível criar cadeias produtivas transcontinentais”, afirma Lucena. “É o oposto da visão americana atual, que privilegia acordos bilaterais.”
Para Braga, o acordo vai além de tarifas e volumes de comércio. Na avaliação do professor, o avanço do tratado indica que, mesmo em um contexto de retração do multilateralismo, ainda é possível construir arranjos amplos, previsíveis e baseados em regras.