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sexta-feira, janeiro 9, 2026

Estes Bilionários de Wall Street Devem Lucrar com a Incursão de Trump na Venezuela

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Forbes/ Reprodução

A refinaria da Citgo em Lemont, Illinois, fornece milhões de galões de combustível por dia ao mercado de Chicago

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Depois que os militares dos EUA capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro no sábado, observadores de Wall Street rapidamente apontaram o maior vencedor: Paul Singer, gestor de hedge funds com patrimônio estimado em US$ 6,7 bilhões (R$ 38,19 bilhões), famoso por investir em ativos em dificuldades ao redor do mundo. A Amber Energy, startup sediada em Houston e apoiada pela Elliott, venceu recentemente um leilão em um tribunal federal dos EUA para comprar a empresa petrolífera venezuelana Citgo — que possui três refinarias na Louisiana, no Texas e em Illinois, além de uma rede de distribuição com 4.000 postos da marca Citgo — por US$ 5,9 bilhões (R$ 33,63 bilhões), valor que muitos consideram uma pechincha.

Apoiador de Trump e um dos financiadores da equipe de transição do ex-presidente, Singer pode de fato ser o maior beneficiado, mas está longe de ser o único magnata de Wall Street prestes a lucrar com o acordo envolvendo a Citgo. A Forbes conversou com várias pessoas envolvidas na operação e descobriu que há outros grandes nomes apoiando a Elliott e a Amber na disputa para administrar a Citgo, além de diversos hedge funds e gestoras de investimentos posicionados para capturar ganhos expressivos.

Segundo uma fonte familiarizada com o negócio, a Elliott está financiando um terço do capital próprio e liderando um consórcio de pesos-pesados de Wall Street. O grupo inclui a gestora de investimentos alternativos Oaktree Capital Management, com sede em Los Angeles, comandada pelos bilionários Howard Marks e Bruce Karsh, de acordo com duas pessoas próximas ao assunto. Também faz parte do consórcio o hedge fund Silver Point Capital, com US$ 43 bilhões (R$ 245,1 bilhões) em ativos. Sediada em Greenwich, Connecticut, a empresa foi fundada e é administrada por Ed Mulé e Robert O’Shea, ex-sócios do Goldman Sachs Group que ocuparam cargos de liderança na divisão de renda fixa do banco.

A Apollo Global Management, comandada por outro bilionário apoiador de Trump, Marc Rowan (patrimônio de US$ 8,3 bilhões, ou R$ 47,31 bilhões), que chegou a ser cogitado para o cargo de secretário do Tesouro, está liderando o financiamento da dívida, segundo duas fontes. De acordo com documentos judiciais, isso envolve a Amber assumir US$ 3,8 bilhões (R$ 21,66 bilhões) em dívida com garantia de primeiro grau e emitir US$ 2,85 bilhões (R$ 16,25 bilhões) em notas conversíveis. Também é mencionado um investimento em capital próprio de US$ 25 milhões (R$ 142,5 milhões) feito por uma afiliada da Elliott.

Há ainda os executivos e magnatas do setor de energia que ajudaram a estruturar a Amber, incorporada em agosto de 2024 com o objetivo específico de disputar a Citgo. O presidente da Amber é Jeff Stevens, ex-cofundador — ao lado do bilionário Paul Foster — da Western Refining, criada em 1997 a partir de uma única planta em El Paso, no Texas. Stevens e Foster venderam a Western por US$ 6 bilhões (R$ 34,2 bilhões) em 2017 para a Andeavor, então comandada por Greg Goff, atual CEO da Amber. Dois anos depois, em 2019, a Andeavor foi vendida para a Marathon Petroleum por US$ 36 bilhões (R$ 205,2 bilhões).

Goff e Stevens, que mantiveram ações da Marathon, passaram a conhecer a equipe de energia da Elliott — liderada por John Pike — quando todos estavam do mesmo lado em campanhas ativistas subsequentes contra a Marathon. Primeiro, conseguiram pressionar o CEO Gary Heminger a se aposentar em 2019. Em seguida, ajudaram a orquestrar a venda, em 2020, da subsidiária Speedway, que na época operava 4.000 postos de combustíveis, por US$ 21 bilhões (R$ 119,7 bilhões) para a controladora japonesa da rede 7-Eleven. A Elliott também vem pressionando há anos a Phillips 66, na qual possui US$ 2,7 bilhões (R$ 15,39 bilhões) em ações, defendendo a venda de ativos.

A proposta vencedora da Amber pela Citgo foi controversa muito antes da mais recente iniciativa de Trump. Após uma década de litígios, meses de depoimentos e um longo processo de leilão, o juiz federal Leonard Stark, de Delaware, que publicou uma decisão de 168 páginas explicando seu veredito, decidiu a favor da Amber, apesar de sua oferta ser US$ 2 bilhões (R$ 11,4 bilhões) inferior à de pelo menos um concorrente.

O principal rival da Amber na disputa pela Citgo foi um consórcio liderado por uma pequena mineradora canadense chamada Gold Reserve — que teve minas expropriadas pelo falecido presidente venezuelano Hugo Chávez em 2011 — e que inicialmente contava com o apoio do credor Koch Industries. O vice-presidente executivo da Gold Reserve, Paul Rivett, segue indignado por não ter vencido com uma oferta de quase US$ 8 bilhões (R$ 45,6 bilhões). “Por que a Citgo está sendo vendida para um licitante com oferta menor?”, questiona Rivett, que afirma ter financiamento do J.P. Morgan já alinhado. “Isso jamais deveria ter acontecido.”

Na decisão que aprovou a proposta da Amber, o juiz explicou que o administrador especial — agente do tribunal responsável por supervisionar o leilão — recomendou a oferta da Amber por considerar que ela tinha maior probabilidade de ser concluída. Segundo a Gold Reserve, que entrou nesta semana com um recurso de última instância na Corte de Apelações do Terceiro Circuito dos EUA para tentar reverter a decisão, o processo de leilão da Citgo foi contaminado por conflitos de interesse: o escritório de advocacia Weil, Gotshal & Manges e o banco de investimentos Evercore, principais assessores do administrador especial indicado pelo tribunal, também recebiam honorários da Elliott por outros serviços jurídicos. O juiz de Delaware já havia rejeitado essas alegações, classificando-as como “procedimentalmente defeituosas” e “baseadas em argumentos já renunciados”, recusando-se a reconhecer sua legitimidade.

Outro ponto relevante: nem a Venezuela nem a PDVSA receberão qualquer parcela dos US$ 5,9 bilhões (R$ 33,63 bilhões). Todo o valor será destinado ao pagamento de créditos de cerca de uma dúzia de empresas e investidores que adquiriram títulos lastreados nesses ativos. Entre eles está a ConocoPhillips, que deve receber US$ 1,4 bilhão (R$ 7,98 bilhões); a mineradora canadense Rusoro, que deve ficar com US$ 400 milhões (R$ 2,28 bilhões) em dinheiro e US$ 650 milhões (R$ 3,705 bilhões) em dívidas conversíveis; e a Red Tree Investments, afiliada do hedge fund Contrarian Capital Management, sediado em Greenwich, que deve receber pelo menos US$ 330 milhões (R$ 1,881 bilhão).

Outro grande vencedor é o hedge fund nova-iorquino Tenor Capital Management, com US$ 9 bilhões (R$ 51,3 bilhões) sob gestão, que adquiriu os créditos da mineradora extinta Crystallex contra a Venezuela após a nacionalização de seus projetos de mineração pelo governo Chávez em 2011. Depois de anos financiando litígios, a Tenor ficará com a maior parte de mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) pago pela Amber para quitar as reivindicações da Crystallex.

O administrador especial e o juiz acabaram favorecendo a Elliott e a Amber porque elas já haviam negociado previamente com outro grupo de credores que compraram títulos emitidos pela Venezuela em 2016. Esses papéis — conhecidos como títulos PDVSA 2020 — eram garantidos por 50,1% das ações da Citgo, o que colocava seus detentores em potencial conflito com outros credores, como a Gold Reserve. Durante o processo, a Amber fechou um acordo com um grupo que detinha mais de 75% desses títulos, comprometendo-se a comprar todos eles e extingui-los por US$ 2,1 bilhões (R$ 11,97 bilhões).

A Gold Reserve, por sua vez, apostou que não precisaria negociar com esses detentores, já que a validade dos títulos estava sendo questionada em outro processo no Tribunal do Distrito Sul de Nova York. Se fossem considerados inválidos, os credores não receberiam nada do leilão da Citgo. No entanto, em setembro passado, a juíza Katherine Failla decidiu que os títulos PDVSA 2020 eram válidos. “Em essência, Gold Reserve e Amber apostaram em lados opostos de um jogo que só poderia beneficiar um deles”, escreveu o juiz Stark. “No fim, o número da Amber saiu, e o da Gold Reserve não.”

A Elliott tem ampla experiência em mercados de dívida soberana em dificuldades. Singer, hoje com 81 anos, ficou famoso por comprar títulos problemáticos da Argentina após o colapso econômico de 2001 e mantê-los por mais de uma década, até vencer a disputa em 2016. O grupo recebeu US$ 2,4 bilhões (R$ 13,68 bilhões) por títulos adquiridos por apenas US$ 117 milhões (R$ 666,9 milhões), com valor de face de US$ 617 milhões (R$ 3,517 bilhões).

A Oaktree também tem histórico na Venezuela. Em 2010, comprou uma empresa de serviços petrolíferos submarinos em dificuldades e, posteriormente, obteve uma sentença arbitral de US$ 644 milhões (R$ 3,671 bilhões) contra a PDVSA em um tribunal de Londres.

Goff, de 64 anos, não parece interessado em desmembrar a antiga Citgo. Sua estratégia é manter e modernizar as plantas, que vêm processando cerca de 800 mil barris por dia. “Estamos ansiosos para trabalhar com a talentosa equipe da CITGO e fortalecer o negócio por meio de investimentos em capital e excelência operacional”, afirmou Goff no primeiro — e único — comunicado à imprensa da Amber.

Décadas atrás, antes das sanções, as refinarias eram otimizadas para o processamento de petróleo pesado e ácido da Venezuela. Com as sanções dos EUA, esse insumo foi em grande parte substituído por petróleo proveniente dos Estados Unidos, do México e do Canadá. Uma eventual volta ao petróleo venezuelano dependerá do fim das sanções e do preço que esse óleo poderá alcançar. Se a Amber conseguir aproveitar uma oferta abundante de petróleo com desconto, isso pode destravar um valor significativo.

Embora a Elliott esteja pagando apenas US$ 5,9 bilhões (R$ 33,63 bilhões), a Citgo pode valer muito mais. Analistas citados em documentos judiciais estimam o valor da empresa entre US$ 11 bilhões e US$ 13 bilhões (R$ 62,7 bilhões a R$ 74,1 bilhões), enquanto representantes da Venezuela afirmam que o ativo poderia chegar a US$ 18 bilhões (R$ 102,6 bilhões), com base em um potencial de longo prazo mais otimista.

No último ano, a Citgo gerou cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) em lucro operacional (Ebitda), o que indica que a Amber está pagando aproximadamente seis vezes o Ebitda pelos ativos. Esse múltiplo representa um desconto relevante frente a grandes refinadoras dos EUA, como Valero e Marathon, negociadas a 11 e 10 vezes o Ebitda, respectivamente.

Outro indicador é o valor por barril de capacidade diária de processamento. Com valor empresarial implícito de US$ 5,9 bilhões (R$ 33,63 bilhões) e capacidade de 800 mil barris por dia, o acordo avalia a Citgo em US$ 7.300 (R$ 41.610) por barril processado diariamente. Esse patamar é comparável ao da Valero Energy, que processa 3,2 milhões de barris por dia em 15 refinarias e possui valor empresarial de US$ 52 bilhões (R$ 296,4 bilhões), equivalente a cerca de US$ 16.000 (R$ 91.200) por barril/dia.

Algumas operadoras menores, com porte semelhante ao da Citgo, são negociadas a valores bem mais elevados. A HF Sinclair, com capacidade de 700 mil barris/dia, é avaliada em US$ 15.000 (R$ 85.500) por barril/dia. Já a Delek, com 400 mil barris/dia, chega a US$ 13.000 (R$ 74.100) por barril/dia. Isso sugere que, se Goff e sua equipe conseguirem melhorar as operações e ampliar o Ebitda da Citgo — possivelmente com o impulso de petróleo venezuelano mais barato —, poderão adicionar vários bilhões de dólares ao valor da Amber.

A Amber, a Elliott e Stevens preferiram não comentar oficialmente, já que a operação ainda não foi concluída. A cautela é compreensível, dado que ainda existe a possibilidade de a decisão do juiz Stark ser revertida em instância superior ou de a venda ser reavaliada diante de mudanças geopolíticas. A nova presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, declarou recentemente que o país não reconhece — nem reconhecerá — a venda forçada da Citgo e também recorre da decisão judicial. A PDVSA, que já alegou que a empresa está sendo vendida por um valor muito abaixo do justo, afirma que a Venezuela deveria receber parte dos lucros.

Essa reivindicação soa absurda para alguns dos grandes vencedores, que enfrentaram um longo caminho até chegar a esse desfecho. Entre eles está Gordon Keep, diretor da Rusoro Mining, que espera receber US$ 1,6 bilhão (R$ 9,12 bilhões) com o acordo da Amber, incluindo títulos conversíveis. Em entrevista por telefone, Keep explicou que a reivindicação da Rusoro remonta a 2011, quando Chávez expropriou suas minas de ouro, incluindo a Choco, que produzia 100 mil onças por ano. “Nós já fomos uma empresa relevante”, afirmou Keep, hoje com 69 anos. Após a conclusão do negócio, ele espera que a Rusoro distribua aos acionistas um volume de caixa significativamente superior ao atual valor de mercado da companhia, de US$ 675 milhões (R$ 3,8475 bilhões). Sobre os US$ 650 milhões (R$ 3,705 bilhões) que a Venezuela ainda deve à empresa, conclui: “Vamos buscar outras formas de receber.”



[Fonte Original]

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