Crédito, Reuters
- Author, Mariana Schreiber, Leandro Prazeres e Flávia Marreiro
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília e em São Paulo
Tempo de leitura: 4 min
O governo Luiz Inácio Lula da Silva disse reconhecer a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, como atual governante do país após a captura de Nicolás Maduro pelos EUA na madrugada deste sábado (3/1).
A declaração foi feita por Laura da Rocha, Secretária-Geral das Relações Exteriores, após reunião com o presidente Lula e outros integrantes do governo no Itamaraty para discutir a situação no país vizinho.
Lula, que condenou a ação contra Maduro, participou virtualmente da conversa, pois está no Rio de Janeiro, onde passou a virada do ano.
Nos bastidores, no entanto, o Planalto ainda tenta coletar informações sobre a situação atual na cúpula de poder da Venezuela e diz que Delcy Rodríguez tenta negociar com Washington e que dessa negociação depende sua permanência no poder.
“Ela só fica [no poder] se der o que eles [EUA] querem”, disse à BBC News Brasil uma fonte que acompanha as discussões do tema.
Segundo essa fonte, as negociações continuam, mas se sabe que os EUA fizeram pedidos considerados “inaceitáveis” a Caracas.
Para um diplomata brasileiro que também acompanha a situação da Venezuela, não estaria claro para o Palácio do Planalto qual é o plano dos Estados Unidos para a Venezuela sem Maduro, apesar das declarações oficiais.
À imprensa, o presidente dos EUA Donald Trump, afirmou que os EUA governarão o país após a derrubada de Maduro, até uma “transição” para uma nova administração venezuelana.
A incerteza, segundo o diplomata, se consolidou a partir da contradição entre as declarações de Trump e da vice Delcy Rodríguez neste sábado.
Trump afirmou que Rodríguez estaria “disposta” a fazer o que os Estados Unidos determinassem sobre o futuro da Venezuela. Ele disse também que Washington passaria a controlar a indústria petroleira venezuelana – o país é dono das maiores reservas de petróleo do mundo.
“Marco [Rubio] está trabalhando nisso diretamente. Ele acabou de ter uma conversa com [Rodriguez] e ela está essencialmente disposta a fazer o que nós acharmos necessário para fazer a Venezuela grande de novo”, disse Trump durante uma entrevista na manhã deste sábado.
Horas depois, porém, Rodriguez fez uma live transmitida na conta de Maduro nas redes sociais rechaçando a queda de Maduro, a quem chamou de “único presidente”. Prometeu defender a Venezuela e seus “recursos naturais”.
Já o secretário de Estado, Marco Rubio, fez espécie de novo ultimato a Rodríguez, dizendo que os Estados Unidos tomarão decisões nos próximos dias com base nas “ações e nos fatos” do governo venezuelano.
“Achamos que eles terão oportunidades únicas e históricas de prestar um grande serviço ao país, e esperamos que aproveitem essa oportunidade”, disse Rubio ao jornal The New York Times, referindo-se a integrantes do governo venezuelano.
Há pelo menos duas semanas o governo brasileiro via o então governo da Venezuela liderado por Nicolás Maduro como “isolado” e não acreditava que China ou Rússia poderiam intervir efetivamente em caso de uma ação militar norte-americana em território venezuelano, mesmo que a condenassem publicamente – como de fato o fizeram.
Na avaliação de um interlocutor do presidente Lula, China e Rússia estariam mais interessadas, neste momento, em suas próprias questões regionais como a guerra na Ucrânia, no caso russo, e a reivindicação histórica do governo chinês pelo território de Taiwan.
O temor, acordo com interlocutores do presidente Lula, é o pós-Maduro na Venezuela.
Há receio de que disputas internas dentro das Forças Armadas do país ou entre milícias armadas existentes possa levar a um quadro de desordem social semelhante ao observado em países do Oriente Médio e da África como o Iraque e a Líbia após as intervenções de países da Europa e dos Estados Unidos que depuseram os ditadores Saddam Hussein e Muamar Khadafi.
Um dos temores externados por uma fonte ouvida pela BBC News Brasil em caráter reservado era que conflitos internos possam levar à instabilidade na fronteira da Venezuela com o Brasil e aumento, por exemplo, no fluxo de imigrantes pela divisa que o país faz com o Brasil em Roraima.
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‘Fronteira brasileira nunca esteve tão tranquila’, diz ministro
Laura da Rocha, número dois do Itamaraty, também informou em Brasília neste sábado que o Brasil participará na segunda-feira de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a ação americana. O país poderá se manifestar, mas não terá direito a voto, pois não é membro do conselho no momento.
Rocha foi a representante maior do Itamaraty na reunião com Lula sobre Venezuela já que o chanceler Mauro Vieira não participou porque estava em trânsito, voltando ao Brasil após interromper uma viagem de férias.
Também participaram da reunião os ministros da Defesa, José Múcio, presencialmente, e outros dois ministros virtualmente — Ricardo Lewandowski (Justiça) e Sidônio Palmeira (Secretária de Comunicação da Presidência).
Múcio voltou a dizer que a fronteira brasileira com a Venezuela está tranquila e com baixa movimentação no dia de hoje. Cerca de 100 brasileiros que faziam turismo na Venezuela retornaram ao Brasil rapidamente pela fronteira, segundo o Itamaraty.
“A situação da fronteira nunca foi tão tranquila como está hoje. Movimento mínimo. É como se fosse um grande feriado. Até o movimento de automóvel é mínimo possível, de maneira que está tudo calmo e as fronteiras estão abertas, não há nenhuma restrição. Brasileiro que está lá pode vir”, disse.