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Quando se fala em Lamborghini, chamar qualquer coisa de “versão de entrada” é um equívoco. Sim, é a forma mais barata de ter um superesportivo zero-km da marca italiana, mas está muito além de um mero ponto inicial. O Temerario tem um legado enorme para honrar — e faz isso com facilidade.
Na estrada, é totalmente desnecessário o Temerario girar até 10.000 rpm, especialmente porque a maioria dos motoristas jamais tocará o topo de 8.000 rpm; mas, em pista, tudo faz sentido. Resposta de acelerador afiada, pico de potência no ponto e o som icônico.
Nos andares de cima, o V8 biturbo de 4,0 litros soa mais como uma superbike TT ziguezagueando pela Ilha de Man. Ao ouvir o motor rasgar as 5.000 rpm, o instinto é mudar de marcha — mas saber que ele continua subindo até dobrar isso é incompreensível.
Com esse foco declarado em desempenho e potência absolutos, é fácil esquecer que o Temerario usa tecnologia híbrida, incorporando três motores elétricos — como o Revuelto — para aprimorar o conjunto. Como parte da estratégia voltada ao futuro da marca, a eletrificação permite elevar a performance ao mesmo tempo em que oferece carros mais sustentáveis.
O Temerario mantém o interior com assinatura aeronáutica da marca. Mas, crucialmente, a Lamborghini esculpiu alguns centímetros extras de altura para capacetes de track day — embora Peter Crouch ainda sairia com o pescoço torto.
Um painel digno da NASA de botões adorna o volante; é preciso um breve “treinamento” para entender o que cada comando faz. O botão mais tentador deixa clara sua função: drifting. Não consigo imaginar por quê, mas, por algum motivo, a Lamborghini não ficou muito animada com a ideia de eu experimentar isso — as reputações o precedem, suponho… Mesmo assim, é uma injeção de alegria que tantas vezes falta quando fabricantes se levam sério demais.
A estética externa do Temerario também parece brincalhona. Ele aposta forte em motivos geométricos, com detalhes hexagonais em tudo, das luzes diurnas ao escapamento “monstruoso”. Diferente de Lamborghinis antigos, que precisavam de asas gigantes para gerar downforce, o Temerario é puro trabalho na traseira, com aerodinâmica inteligente produzindo aderência de sobra.
Algo incomum: a metade inferior de ambos os pneus traseiros fica exposta, abrindo espaço para levantar borracha queimada sem ferir a carroceria impecável — bem pensado, considerando que uma repintura de fábrica passa de US$ 65 mil.
Como se espera, o visual teatral é páreo apenas para a performance absurda. O launch control é, sem dúvida, seu truque de festa. Pé esquerdo cravado no freio, direito vibrando no acelerador contra o assoalho — ele se sente em casa sob o brilho vermelho e verde da “árvore de Natal” do autódromo.
Solto o freio e o carro comprime, enquanto a traseira tenta chegar antes da dianteira. Não é exatamente como montar um touro irritado, mas, se você vacilar, pode muito bem virar a história de advertência do toureiro que não escapou.
A Lamborghini não estava blefando quando disse que ele faz 0–100 Km/h em 2,7 s. Não cheguei aos 343 Km/h de máxima declarada, mas bati 271 km/h em uma milha reta — com tempo suficiente para frear antes do muro do fim.
Performance em linha reta não é, por si só, passaporte para brilho em pista; felizmente, o Temerario não decepciona em agilidade. A downforce traseira aumentou em mais do que o dobro em relação ao Huracán EVO e, com o pacote aerodinâmico Alleggerita em fibra de carbono, melhora 158%.
Embora o carro seja “empurrado” ao chão com força de entortar a coluna, a suspensão e o torque vetorial elétrico o fazem parecer um hovercar vitaminado. O feedback do asfalto chega suavizado ao banco e ele é muito mais confortável em pista do que algo tão rápido e ágil teria “direito” de ser.
Apesar do nome, como costuma acontecer com superesportivos de rua, o Temerario arredonda muitas das arestas brutas do automobilismo de pista. Quem procurar uma arma de track day pode se frustrar com a falta de selvageria e migrar para algo com pedigree mais de corrida.
Para igualar o ímpeto à frente, há um conjunto enorme de freios carbono-cerâmicos. A eletrônica permite que os três motores ajudem a recuperar energia e a frear. Trabalhando discretamente, recarregam a bateria enquanto preservam os freios. Essa tecnologia híbrida, combinada ao novo sistema de arrefecimento, deve permitir mais voltas antes de os discos ficarem incandescentes.
A direção é leve ao toque, tornando-o um daily driver sem esforço, mas ainda com peso suficiente para contornar curvas travadas. Ao contrário de outros “supercarros de todo dia”, a natureza dócil do Temerario se traduz em um supercarro que você realmente poderia dirigir diariamente sem precisar marcar sessões de “medicina pseudo-chinesa” para curar as dores.
As montadoras adoram exaltar modos de condução que, sinceramente, pouco fazem além de enrijecer eletricamente a direção ou apertar o banco. Num sopro de ar fresco, o Temerario tem uma separação nítida entre seus acertos. Os modos Città, Strada, Sport e Corsa têm personalidades distintas e painéis exclusivos. Città brilha no urbano, com modos híbrido e de recarga. Strada deve ser o melhor para o dia a dia, eficiente porém esportivo. Achou uma estrada divertida? Sport libera os 907 cavalos e amplifica o V8. Corsa é reservado aos track days e usa o sistema híbrido só para performance.
Mesmo com a mecânica complexa, tudo parece “azeite de oliva” de tão liso e deliciosamente analógico. O temperamento espevitado pega em você na hora — ele pede curva de circuito ou uma estrada sinuosa nos Dolomitas.
A Lamborghini gosta de dizer que o Temerario é “fuoriclasse”, fora de série — e é difícil discordar desses italianos malucos. É o tipo de carro que ninguém pediu, mas agora todo mundo quer. Claro, sempre será uma compra emocional, mas seu trem de força híbrido e o conforto no uso diário já são desculpa suficiente para fazer soar como uma escolha sensata para a sua cara-metade.

