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- Author, Hyojung Kim
- Role, BBC News Coreia
Tempo de leitura: 6 min
Ji Seung-ryeol tem 41 anos e se orgulha do seu senso de moda.
Ele publica frequentemente suas selfies no Instagram e, como todos sabem, quanto mais curtidas você conseguir, mais popular você é.
Ji ficou perplexo ao descobrir que homens da sua idade se tornaram objeto de ridicularização online na Coreia do Sul, por adotarem estilos associados à geração Z (os nascidos entre 1995 e 2010) e aos millennials mais jovens.
Viralizaram nas redes sociais sul-coreanas caricaturas geradas por inteligência artificial sobre esta faixa etária: um homem de meia-idade vestindo roupas streetwear e segurando um iPhone. São os chamados “jovens de 40”.
Os memes fizeram com que os adorados tênis Air Jordan da Nike e camisetas da moda de Ji se tornassem alvo de brincadeiras — e fonte de muita indignação.
“Simplesmente uso e visto coisas de que gostava há muito tempo, agora que posso pagar por elas”, conta ele à BBC. “Por que preciso ser atacado por isso?”

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O iPhone deu início a tudo
Consideradas pioneiras do gosto popular nos anos 1990, as pessoas de 40 anos sofreram uma reviravolta da opinião pública após o lançamento do iPhone 17, em setembro do ano passado.
O smartphone, considerado há muito tempo a eternização da juventude, passou subitamente a ser tratado como uma marca característica da cafonice dos jovens de 40.
Para Jeong Ju-eun, da geração Z, eles são pessoas que “tentam de tudo para parecer jovens” e “se recusam a aceitar que o tempo passou”.
Os números parecem refletir esta mudança.
A maioria dos jovens sul-coreanos ainda prefere o iPhone ao Samsung Galaxy. Mas, no ano passado, a parcela de mercado da Apple caiu em 4% entre os consumidores da geração Z e aumentou em 12% entre as pessoas na casa dos 40 anos, segundo pesquisa do instituto Gallup.
Algo similar ocorreu alguns anos atrás com os chamados millennials geriátricos, nascidos no início dos anos 1980. Na época, seu senso de humor (com emojis chorando de rir e tatuagens de bigode no dedo) foi ridicularizado como cringe — gíria de origem inglesa para algo que causa constrangimento.
O debate sobre os millennials geriátricos gerou brincadeiras autodepreciativas, reflexões e testes para determinar de qual lado você estava — se deveria promover as provocações ou se submeter a elas.
Estas mesmas tendências se mantiveram na Coreia do Sul, agora, com os jovens de 40.

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A idade é uma das primeiras coisas que os estranhos perguntam uns aos outros. Ela define o tom das interações futuras: como eles se comunicam, quem abre a garrafa de soju nas festas (normalmente, é quem tem mais idade) e a forma de virar o copo da bebida (sempre de costas para os mais velhos).
Mas os memes dos jovens de 40 também representam o ceticismo cada vez maior dos jovens coreanos em relação a esta reverência quase forçada aos mais idosos.
Há poucos anos, o termo kkondae também esteve na moda entre os jovens sul-coreanos. Ele descreve uma irritante espécie de idosos rígidos e condescendentes.
As redes sociais exacerbaram esses atritos. Nelas, “diversas gerações se misturam no mesmo espaço”, segundo o professor de sociologia Lee Jae-in, do campos Sejong da Universidade da Coreia.
Para ele, “o antigo padrão, em que diferentes gerações consumiam espaços culturais separados, praticamente desapareceu”.
Geração sanduíche consciente de si própria
Popularizada nos círculos de marketing nos anos 2010, a expressão “jovem de 40” identificava originalmente consumidores com sensibilidade jovem.
Eles eram conscientes com a saúde, ativos e confortáveis com o uso da tecnologia. Por isso, eram um alvo demográfico importante para as empresas.
“No passado, as pessoas na casa dos 40 anos já eram consideradas velhas”, afirma o analista de tendências Kim Yong-sup, amplamente creditado pela criação da expressão “jovem de 40”.
Com o aumento da idade média na Coreia do Sul, essas pessoas “deixaram de ficar à beira da terceira idade e passaram a ocupar posição central na sociedade”, segundo ele.
Mas o termo de marketing passou por uma virada sarcástica e viralizante.
No ano passado, a expressão “jovem de 40” foi mencionada na internet mais de 100 mil vezes — mais da metade delas, em contexto negativo, segundo a plataforma de análise SomeTrend.
Muitas vezes, a expressão apareceu ao lado de palavras como “velho” e “repugnante”.
Um meme derivado da expressão é “doce jovem de 40”, uma designação sarcástica para homens de meia-idade que gostam de paquerar mulheres jovens.

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Alguns consideram que as brincadeiras sobre os jovens de 40 são uma forma de zombar de pessoas de sucesso. Afinal, eles estão no auge da carreira e acumularam riqueza em tempos de estabilidade econômica e no boom do setor imobiliário.
Do outro lado, estão os jovens millennials e a geração Z. Eles nasceram duas décadas depois e enfrentam a disparada dos custos de moradia e a feroz concorrência no mercado de trabalho.
Para eles, os jovens de 40 representam “a geração que teve sucesso pouco antes de se fechar a porta das oportunidades”, segundo a psicóloga Oh Eun-kyung.
“Eles não são vistos apenas como indivíduos com gostos pessoais, mas como símbolos de privilégio e poder”, afirma ela. “É por isso que a energia do deboche se concentra neles.”
Mas Ji Seung-ryeol, o entusiasta da moda de 41 anos que viveu na chamada era de ouro, conta outra versão desta história.
Como jovem formando que entrou no mercado de trabalho durante a crise financeira da Ásia no final dos anos 1990, ele se lembra de mandar cerca de 70 currículos para conseguir um emprego.
Para ele, sua geração “aproveitou muito pouco enquanto crescia e só começou a usufruir das coisas mais tarde, na idade adulta”.

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Agora, no seu ambiente de trabalho, ele costuma se sentir preso entre dois mundos distintos.
A geração acima dele criou um “sistema rígido, vertical, onde você faz o que mandam”. E, abaixo dele, surge “uma geração que pergunta ‘por quê?'”.
“Somos uma geração que vivenciou duas culturas”, descreve ele. “Ficamos presos no meio do caminho.”
A capacidade de atravessar duas gerações já foi motivo de orgulho. Mas Ji afirma que passou a ficar inseguro ao interagir com seus colegas mais jovens, por medo de ser considerado kkondae, ou jovem de 40.
“Hoje em dia, raramente promovo reuniões para beber”, ele conta.
“Tento manter as conversas concentradas nas preocupações do trabalho ou da carreira e só compartilho histórias pessoais quando as discussões se aprofundam naturalmente.”
Para Kang, que também tem 41 anos e anda na moda, no centro do meme dos jovens de 40 há um desejo profundamente humano.
“Conforme você fica mais velho, buscar a juventude se torna totalmente natural. Querer parecer jovem é algo presente em todas as gerações.”