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As exportações brasileiras para a Venezuela registraram um faturamento acumulado de US$ 6,95 bilhões entre 2016 e 2025, impulsionadas por uma forte retomada nos fluxos comerciais a partir de 2020. O balanço do período mostra que o Brasil enviou 10,55 milhões de toneladas de produtos ao país vizinho, com uma pauta exportadora concentrada em itens essenciais de segurança alimentar, como cereais, açúcar e proteínas animais.
A intervenção dos EUA na Venezuela, neste sábado (3), gerou condenações de governos latino-americanos, inclusive do Brasil. A tensão diplomática pode levar a maiores restrições comerciais, represálias políticas ou realinhamento de parcerias regionais, impactando diretamente acordos, logística e a confiança entre Brasília e Caracas.
Em 2024, a Venezuela foi o 29º maior comprador do agro brasileiro, com US$ 919 milhões em compras. Mas já ocupou o quarto lugar. Em 2014, o mercado venezuelano importou US$ 2,98 bilhões em produtos do agro brasileiro.
Em 2025, de janeiro a novembro, o Brasil vendeu para a Venezuela US$ 474,5 milhões em produtos agrícolas. Mais que em outros anos, as relações entre os dois países estiveram estremecidas em 2025 por causa de divergências políticas e diplomáticas, centradas principalmente na contestação brasileira às eleições venezuelanas e à postura do governo de Nicolás Maduro. Em ambos os anos, 2024 e 2025, o Brasil importou desse país, respectivamente, US$ 829 mil e US$ 1,5 milhão.
Mas, no acumulado da década, a balança comercial é amplamente favorável ao Brasil. Como as importações são irrelevantes, do ponto de vista do valor – US$ 6,2 milhões –, isso significa um superávit com a Venezuela da ordem de US$ 6,95 bilhões.
O saldo extremamente positivo mostra que a relação comercial no agronegócio é quase inteiramente unilateral: o Brasil atua como um fornecedor massivo de alimentos e insumos, enquanto as compras de produtos agrícolas venezuelanos representam menos de 0,1% do volume financeiro exportado. Importa, basicamente, pescados, cacau e cereais processados, produtos de nicho em regiões de fronteira, como a farinha de milho pré-cozida (Farinha de Arepa) e arroz, quando a logística grão se torna mais barata do que levar para o norte o arroz do Sul do Brasil.
Na, década, o setor de “cereais, farinhas e preparações” consolidou-se como o principal motor das vendas externas para o mercado venezuelano. Este segmento apresentou uma receita de US$ 2,33 bilhões, o que representa cerca de um terço do valor total exportado pelo Brasil a esse mercado. Em termos de volume, o setor movimentou 5,57 milhões de toneladas, atingindo seu ápice em 2023, quando registrou o envio de 940,2 mil toneladas.
O “complexo sucroalcooleiro” aparece como a segunda força comercial, com US$ 1,49 bilhão em faturamento acumulado e 3,15 milhões de toneladas exportadas. O desempenho deste setor mostra uma curva de crescimento consistente desde 2020, quando as vendas saltaram de US$ 37,2 milhões no ano anterior para US$ 143,1 milhões, mantendo patamares superiores a US$ 200 milhões anuais entre 2022 e 2024.
O comércio de carnes e produtos da soja também indica números expressivos, embora com dinâmicas distintas. O “Complexo Soja” alcançou US$ 905,8 milhões em vendas, com um pico de demanda em 2021, quando registrou faturamento de US$ 230,4 milhões.
Já o setor de “Carnes” apresentou uma trajetória de recuperação acentuada. Após registrar apenas US$ 4,6 milhões em vendas em 2018 e interromper as operações em 2019, o segmento retomou as atividades e alcançou US$ 96,6 milhões em 2022. No total da década, as carnes geraram US$ 585,4 milhões em divisas para o Brasil.
O que é o agro da Venezuela
O agronegócio venezuelano atravessa um momento de recuperação lenta, dependente de insumos importados e com papel modesto na economia, mas essencial para o abastecimento interno e segmentos específicos de exportação. A agricultura no país tem como eixo a produção de grãos básicos, pecuária e algumas cadeias especializadas, todas marcadas por desafios estruturais e avanços pontuais nos últimos dois anos.
Segundo estimativas oficiais publicadas pelo USDA/FAS, a produção de milho na safra 2024/25 (market year) foi projetada em cerca de 1,36 milhão de toneladas, divididas entre milho branco e amarelo, com ligeira melhora em relação às safras anteriores, apesar de limitações de tecnologia e financiamento.
A área cultivada segue restrita frente ao potencial das planícies de Los Llanos, um dos principais polos agrícolas do país. A produção de arroz beneficiado é estimada em cerca de 407 mil toneladas, com aproximadamente 600 mil toneladas em casca, refletindo a importância desse cereal na dieta venezuelana.
No setor de proteínas animais, a avicultura representa o segmento mais dinâmico do agro. Relatórios apontam que a produção de carne de frango em 2024 alcançou cerca de 548,3 mil toneladas, um incremento significativo ano a ano, impulsionado por recuperação de instalações e demanda doméstica. Ainda assim, o setor depende fortemente de ração formulada a partir de milho e farelo de soja importados, o que mantém a competitividade e a oferta vulneráveis a flutuações cambiais e logísticas.
Além de frango, outras proteínas como carne bovina e suína registraram crescimento modesto, com a bovinocultura projetando produção crescente em 2024, aproximando-se de 293 mil toneladas naquele período. O segmento enfrenta desafios em sanidade animal, genética e infraestrutura de abate, que limitam a escala produtiva.
A Venezuela também mantém nichos de importância exportadora, especialmente na cadeia do cacau fino e aromático. Embora os volumes exportados sejam modestos em comparação aos grandes produtores globais, dados de comércio internacional indicam que os Estados Unidos importaram cerca de US$ 15,3 milhões em cacau e preparações venezuelanas em 2024, segundo dados da ONU COMTRADE. Esse nicho tem valor agregado e pode ser uma das janelas de inserção externa do agro venezuelano.
No entanto, o país segue importador líquido de produtos básicos e insumos agrícolas, com as importações de produtos como milho, farelo de soja, trigo e derivados crescendo nos últimos anos para sustentar a indústria alimentícia nacional. Relatórios oficiais dos EUA apontam que em 2024 as importações agrícolas da Venezuela cresceram cerca de 9% em valor, refletindo a dependência de fornecedores externos para matérias-primas essenciais e ração. Os dados de 2025 ainda não foram fechados.
