São Paulo completa mais um ano como a principal engrenagem urbana do agronegócio brasileiro. A cidade, que neste domingo (25) completa 472 anos, não abriga lavouras nem rebanhos, mas concentra decisões financeiras, logísticas, tecnológicas e institucionais que organizam a produção rural do interior paulista e de outras regiões do país, segundo análises do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP, e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Fundada em 1554, a cidade se estruturou a partir do abastecimento agrícola. A produção de cana-de-açúcar, café e pecuária sustentou a ocupação do território, a abertura de caminhos, a formação de capital e a construção de infraestrutura, como mostram estudos históricos do IBGE e do Instituto de Economia Agrícola (IEA-SP).
Ao longo do século 20, São Paulo deixou de ser área produtora direta para assumir a coordenação econômica do setor, movimento associado à industrialização, à urbanização e à concentração de serviços financeiros e logísticos.
Hoje, a capital paulista reúne sedes de multinacionais de alimentos, insumos, genética, trading e bioenergia. Também se consolidou como principal polo de bancos de bancos, seguradoras, gestoras de recursos e fundos especializados no financiamento da atividade agropecuária.
É na cidade que se estruturam operações de crédito privado, mercado de capitais, fusões e aquisições e emissões de CRA, Fiagro e debêntures do setor, de acordo com levantamentos da B3 e da Anbima.
Elo entre o urbano e o rural em São Paulo
A lógica que conecta São Paulo ao agro não passa pela terra, mas pelo dinheiro. Decisões sobre investimento em áreas agrícolas, armazenagem, logística, tecnologia, sustentabilidade e expansão produtiva são tomadas em escritórios localizados nos eixos da Avenida Paulista, da Faria Lima e da região central, onde se concentram instituições financeiras, escritórios jurídicos e consultorias que operam o setor.
O elo físico entre a metrópole e o campo está no Porto de Santos, o maior da América Latina. Pelo complexo portuário passam soja, milho, açúcar, café, carnes, celulose e suco de laranja destinados aos mercados internacionais, mostram os dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A logística agroexportadora atravessa diariamente a Região Metropolitana por rodovias, ferrovias, terminais e contratos de frete.
Padrões de consumo para o agro
Além do fluxo de commodities, São Paulo exerce influência direta sobre padrões de consumo que reverberam no campo. A cidade concentra renda, diversidade cultural e poder de compra capazes de induzir mudanças na produção agrícola.
Crescem as demandas por orgânicos, rastreabilidade, certificações ambientais, proteínas premium, alimentos plant-based, cafés especiais e produtos de origem controlada, movimento acompanhado por entidades setoriais como a Organis e a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC).
Como mostra a CEAGESP e o IBGE, o agro urbano e periurbano também ganha relevância estratégica. O cinturão verde que circunda a capital responde por parcela significativa da produção de hortaliças, flores, ovos e alimentos frescos consumidos localmente. Hortas urbanas e projetos de agricultura periurbana passaram a integrar políticas públicas de segurança alimentar, abastecimento e sustentabilidade, conforme programas da Prefeitura de São Paulo.
Inovação tecnológica
São Paulo também concentra o núcleo da inovação agropecuária. Agtechs, foodtechs e healthtechs ligadas à nutrição operam a partir da cidade ou de seu entorno, segundo mapeamentos do Agtech Garage e do Distrito.
Universidades, centros de pesquisa, hubs de inovação e aceleradoras conectam ciência, capital e produtores. A inteligência que chega ao campo, em forma de dados, genética, biotecnologia e gestão, passa antes pelos laboratórios, escritórios e startups da capital.
Outro papel central da cidade é o da governança. É em São Paulo que se discutem padrões de ESG, metas climáticas, rastreabilidade e exigências regulatórias impostas por mercados internacionais.
A movimentação na bolsa de valores B3 mostra que essas demandas chegam ao setor principalmente por meio de investidores, auditorias e compradores com base na cidade, obrigando empresas do agro a estruturar discursos e práticas compatíveis com padrões globais.
Eventos, feiras, congressos e encontros diplomáticos ligados ao agronegócio também têm São Paulo como principal vitrine internacional, segundo a ApexBrasil e agendas institucionais do setor.
Para investidores estrangeiros, o primeiro contato com o agro brasileiro ocorre, em geral, na cidade, antes da visita às áreas produtivas. A maior cidade do Brasil não planta soja nem cria gado, mas decide em boa parte como, quando e para onde o agronegócio brasileiro vai crescer.