Crédito, O Agente Secreto/Divulgação
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Em 10 de dezembro de 1975, está registrada em papel uma rara “certidão de nascimento” de uma lenda urbana.
Naquela edição de quarta-feira do jornal Diario de Pernambuco, pela primeira vez se falava de uma “perna fantasma” (mais tarde, “cabeluda”) que aterrorizava moradores do Grande Recife — uma lenda que, 50 anos mais tarde, seria imortalizada e projetada internacionalmente com O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa.
A “Perna Cabeluda” aparece na segunda metade no filme, nas notícias de jornal e atormentando homens homossexuais que aproveitam o escuro dos arbustos do Parque 13 de Maio, no centro do Recife, para exercer sua sexualidade.
Mas, muito além de um elemento nonsense ou de realismo mágico comum em filmes do diretor Kléber Mendonça Filho, a Perna representa uma história maior e real sobre repressão, censura e violência institucional no Recife (e no Brasil) dos anos 1970, durante a ditadura militar.
“Lendas como essa no Recife eram usadas para sublimar as dores da sociedade”, diz Roberto Beltrão, jornalista, escritor e organizador de livros sobre as muitas assombrações famosas na capital pernambucana, entre eles Treze Noites com a Perna Cabeluda.
Após a primeira aparição no jornal, a lenda ganhou popularidade nas ruas da cidade ao ser retratada em diversos textos e reportagens na imprensa, o que é mostrado em O Agente Secreto.
A presença de textos ficcionais nos jornais da época era comum, explica Beltrão, como uma forma de ocupar espaços que seriam de histórias que poderiam incomodar o regime militar.
“Os censores estavam dentro dos jornais, que tinham muita dificuldade de retratar assuntos espinhosos para o regime”, diz.
“Então, histórias absurdas passaram a fazer parte da imprensa porque precisavam vender jornal e não havia liberdade de você estar lidando com os verdadeiros problemas da sociedade.”
Portanto, histórias de violência contra determinados grupos reprimidos, como mulheres ou os homossexuais, também acabavam sendo contadas em tom de fantasia.

Crédito, O Agente Secreto/Divulgação
Além de uma assombração assustadora, a Perna ganhou no Recife e em outros Estados do Nordeste ares de uma polícia moral contra aqueles que desafiavam os bons costumes — e mereciam ser chutados e levar rasteira.
O temor da repressão moral e física da ditadura era latente no Recife dos anos 1970, explica o advogado e cientista político Manoel Moraes, pesquisador na Universidade Católica de Pernambuco e membro da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara.
Quando se fala em ditadura no Brasil, diz Moraes, pouco se comenta sobre a repressão longe do eixo Rio-São Paulo — isso apesar de Pernambuco ter tido proporcionalmente mais mortes cometidas oficialmente pelo regime do que os Estados do Sudeste.
“Muitas vezes a gente aqui fica em segundo plano nessa discussão”, lamenta.
A consolidação de uma história fantástica
A primeira notícia sobre a “perna fantasma” relatava que ela caminhava nas paredes de uma casa de São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana do Recife.
Nos dias seguintes, o assunto repercutiu em “suítes”, jargão no jornalismo para novas reportagens sobre um mesmo assunto.
Mas a consolidação ocorreria em 1976, com um texto ficcional de Raimundo Carrero, então repórter do Diario, depois premiado escritor pernambucano.

Crédito, Biblioteca Nacional/Acervo Diario de Pernambuco
Na concorrida edição de domingo do jornal, Carrero contava a história da Perna Cabeluda que pulava igual a um saci-pererê e atormentava e se deitava ao lado de mulheres indefesas.
“Ele não faz a relação com as notícias [de 1975]. Mas eu acho que ficou no subconsciente”, avalia Beltrão.
Carrero traz pela primeira vez o modus operandi pelo qual a perna ficaria famosa, chutando e dando rasteira nas pessoas. A edição também traz a primeira iconografia da perna, peluda e usando um sapato.
Em recente entrevista ao Diario de Pernambuco, Carrero disse que era proibido para o jornal publicar, além de críticas ao governo, casos de violência contra a mulher.
“A maior parte das histórias [da Perna Cabeluda] que começaram a circular envolviam casos de violência contra a mulher”, declarou o escritor.
Apesar de absurda, a lenda foi se espalhando pela cidade, comentada em programas de rádio e causando medo na vida real.
“Ela se adaptou tanto ao imaginário popular que estudiosos da literatura cordel identificam que ela se tornou na época o terceiro tema mais recorrente dos folhetos, perdendo só para o Padre Cícero e Lampião“, diz Beltrão. A lenda se espalhou até para Estados vizinhos, como o Ceará.
Em sua pesquisa, o escritor identifica que o medo no Recife de fato durou cerca de dois anos. Depois, “virou grea”, gíria pernambucana para brincadeira.
“Porque era tão surreal que era difícil de acreditar”, diz o escritor.
A Perna Cabeluda virou frevo, bloco de carnaval e fantasia nos anos seguintes — inclusive uma dentro da boca de um tubarão exibida em foto no Diario, que inspira outra cena de O Agente Secreto.
Recife foi uma das cidades que mais viveu a repressão militar

Crédito, Andrea Rego Barros/Prefeitura do Recife
O mundo fantástico trazido pela Perna Cabeluda está ligado ao ambiente de uma cidade bastante reprimida, explica o advogado Manoel Moraes, membro da Comissão da Verdade pernambucana.
Recife era sede do Quarto Exército, utilizado como centro de operações e local de detenção de presos de Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte.
Além disso, Pernambuco era o epicentro das ligas camponesas e onde se destacaram figuras como Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife famoso pela sua luta por Justiça social e contra ditadura, e Paulo Freire, idealizador do Movimento de Cultura Popular.
“Há um apagamento da história da repressão do Nordeste, que é muito grave, até porque ela se confunde ainda com o coronelismo local, com o crime de pistolagem, como é mostrado no filme”, diz Moraes.
O pesquisador explica que, anos antes do golpe militar de 1964, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, o recém-criado DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) se tornou um órgão poderoso em Pernambuco, atravessado pela violenta política local.
“No Recife, os delegados do DOPS se tornaram verdadeiros precursores da política pernambucana”, explica.
“Eles se tornaram donos de cartórios, os filhos foram para política ou magistratura. Montaram uma verdadeira estrutura que, quando o golpe se instalou em 1964, esses grupos vão se fortalecer.”
Esse cenário, na avaliação de Moraes, fica evidente em O Agente Secreto com o personagem do delegado que mata pessoas e invade comércios.
“O filme passa de forma brilhante como essa estrutura de segurança pública local já era repressiva, engendrada no malfeito, no crime organizado, com conexões com pistoleiros.”
É nesse cenário que surge a Perna Cabeluda.
Terreno fértil para lenda urbana

Crédito, Roberto Beltrão e Editora Mirada
A Perna Cabeluda é apenas uma entre as muitas lendas urbanas que assombraram o Recife.
Ao lado de figuras como Biu do Olho Verde, Galeguinho do Coque — todos citados na música Banditismo por uma Questão de Classe, de Chico Science & Nação Zumbi —, além da Velhinha da Caxangá, da Emparedada da Rua Nova, entre outros.
Para Roberto Beltrão, há uma combinação de fatores que explicam por que a capital pernambucana foi terreno fértil para tanta assombração.
Primeiro, é preciso lembrar a antiguidade da cidade. Recife é a mais antiga entre as capitais do Brasil, fundada em 1537 — antes até que Salvador.
“A cidade acumula muitas histórias, muitas delas trágicas também. E elas levam um pouco de sobrenatural para uma memória coletiva”, diz Beltrão.
O escritor ressalta ainda que a cidade foi “caldeirão cultural” com muita presença indígena, negra e de europeus com uma cultura supersticiosa — mistura que gerava uma espécie de “catolicismo mediúnico” nos engenhos de cana-de-açúcar, base da economia local.
Durante o período colonial, em Pernambuco, os mortos poderosos também eram enterrados nas próprias terras.
“Acontecia de os donos de engenho se tornarem fantasmas porque em vida eles foram muito cruéis com os escravizados. As lendas apareceram como forma de lidar com muito sofrimento”, diz Beltrão.