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sexta-feira, janeiro 30, 2026

O próximo unicórnio pode ser uma empresa de uma pessoa só

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Sarah Gwilliam, moradora de Santa Monica, na Califórnia, nunca fez planos para ser empresária. Consultora de marketing por quinze anos, ela perdeu o pai no início de 2025 e percebeu, ao gerenciar o espólio e o próprio luto, quanto é difícil lidar com a morte de entes queridos. A ideia de abrir um negócio para ajudar outras pessoas a atravessar esse momento delicado surgiu naturalmente, mas por um tempo pareceu um devaneio que ela jamais colocaria em prática. Até que, por acaso, enquanto se distraía em uma rede social, Sarah viu um post da Audos, plataforma que permite usar inteligência artificial para criar empresas do zero. Em poucas semanas, pôs anúncios no ar, conseguiu mais de 1 000 usuários conversando com seu chatbot e atraiu os primeiros clientes pagantes. “Seria impossível sem IA”, diz ela sobre a Solace, startup que oferece desde orientação psicológica e espiritual para o luto até ajuda para escrever obituários.

Sarah faz parte do fenômeno dos solopreneurs (corruptela de “empreendedor solo”, em inglês). O pró­ximo unicórnio pode sair desse meio. “Na minha rodinha de CEOs tech, temos uma aposta sobre quando surgirá a primeira empresa com valor de 1 bilhão de dólares de uma pessoa só”, disse Sam Altman, presidente da OpenAI, em setembro passado. Para Dario Amodei, da Anthropic, isso acontecerá já neste ano. Dados da Stripe, uma plataforma de pagamentos, mostram que as 100 maiores empresas de IA atingiram uma receita anual de 1 milhão de dólares em onze meses. Em dezembro, Nicholas Thorne, cofundador da Audos, demonstrou ser possível criar um negócio completo — com página na internet, aplicativos e agente de atendimento — em apenas vinte minutos. “O que conseguimos colocar no mercado é incomparavelmente melhor do que há três meses”, disse Thorne a VEJA NEGÓCIOS. A Audos cobra 15% da receita das empresas que usam suas ferramentas, oferecendo sessenta dias gratuitos e 150 dólares de capital inicial para marketing. “Viemos do mundo de venture capital, onde se arrisca de olho no unicórnio que vai recompensar os fracassos”, explica Thorne. “Com a IA, invertemos a lógica: reduzimos o risco de abrir uma nova empresa e conseguimos lucro na quantidade de sucessos.”

A empresa bilionária de uma pessoa só, se de fato vier a existir, será um marco na história do capitalismo. Mas o impacto real do fenômeno dos solopreneurs já se faz perceber nos milhares de pessoas-empresas que conseguem inovar, criar valor, sustentar suas famílias e girar a economia. A mudança cultural já começou: executivos se orgulham de liderar equipes cada vez mais enxutas. Segundo a Carta, um negócio que ajuda startups a gerenciar participações acionárias, o tempo médio para contratar o primeiro funcionário subiu de seis meses em 2022 para nove meses em 2024. Dados do governo americano confirmam: enquanto o número de autônomos informais se mantém estável em cerca de 10 milhões desde 2021, o de trabalhadores autoempregados com empresa subiu de 6,2 milhões para 7,1 milhões desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022.

Sam Altman, da OpenAI: quando surgirá o primeiro empreendedor solo bilionário? (Sven Hoppe/Picture Alliance/Getty Images)
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A tecnologia vem sendo usada pelos mais diversos perfis. A paulista Daniela Marzagão, por exemplo, é consultora com carteira assinada em uma companhia farmacêutica e nas horas vagas toca a Meditec, uma plataforma de educação corporativa. Ela fundou a empresa há dois anos, num período sem emprego fixo, mas ao conseguir a nova colocação precisou achar uma maneira de manter a empresa rodando. Daniela tratou de estudar como usar as ferramentas de IA para ganhar eficiência. Em três meses, programou e desenvolveu oito produtos sozinha. “Se antes eu dedicava 100% do meu tempo à empresa, agora entrego 10%, e ainda assim acelerei o desenvolvimento”, diz Daniela, que fatura em torno de 50 000 reais mensais com seu negócio.

Já Seth Zion, que vive nas montanhas da Virgínia, representa outro extremo. “Eu não tinha nenhum interesse em inteligência artificial, pois o que me atraía em todas as minhas empresas sempre foram as relações com clientes e fornecedores”, diz Seth. Ao criar a iSurvive, plataforma de preparação para emergências, ele se converteu. Após “conversar” por meses com a IA para ajustar o modelo de negócio, programar e resolver burocracias, ele conseguiu seu primeiro cliente pagante. “A IA é capaz de fazer a parte mais técnica, e ganha-se tempo no refinamento das ideias e na testagem dos conceitos, mas ainda acho que o diferencial de cada empresa está em seu lado humano”, pondera Seth.

Nicholas Thorne com seu sócio, Henrik Werdelin: sua plataforma cria empresas em vinte minutos
Nicholas Thorne com seu sócio, Henrik Werdelin: sua plataforma cria empresas em vinte minutos (Audos/.)
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Os robôs de fato precisam de um chefe que saiba o que está fazendo. Experimentos da Anthropic revelam limitações da IA como empreendedora. A companhia deu a seu modelo Claude a missão de operar uma máquina de salgadinhos e refrigerantes. O “iCEO” ofereceu descontos excessivos e faliu a empreitada. Pesquisa da Rand Corporation mostra que 80% dos projetos de IA corporativos falham, mais do que o dobro das startups tradicionais. Vendas complexas entre empresas ainda exigem relacionamentos humanos. “E há o risco estrutural fundamental, porque se o fundador fica doente, a empresa para”, diz Tom Coshow, da consultoria Gartner. Outro problema é que, se a tecnologia derruba barreiras, também facilita as cópias. “Sem expertise única, é difícil sustentar uma vantagem competitiva”, diz Annabelle Gawer, especialista em negócios digitais da Universidade de Surrey, no Reino Unido. Empreender nunca vai deixar de ser arriscado, nem de premiar os melhores.

Publicado em VEJA, janeiro de 2026, edição VEJA Negócios nº 22

[Fonte Original]

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