Pressionada por investidores que não estão recebendo o retorno de seus investimentos, a Fictor, holding que atua no ramo de alimentos, infraestrutura e financeiro sofreu mais um revés esta semana. A Justiça de São Paulo determinou o bloqueio cautelar de R$ 150 milhões em ativos financeiros do grupo Fictor. A decisão tem como objetivo manter uma garantia financeira exigida em contrato para uma operação de cartões de crédito empresariais feitas pela Fictor Pay.
A decisão foi proferida em regime de plantão pela desembargadora Maria Lúcia Pizzotti, no último dia 27. O texto da juíza explica que a holding “passou a acumular polêmicas, especialmente quando seu nome passou a ser cogitado como o possível adquirente do Banco Master”. Um dia antes do master ser liquidado pelo Banco Central, a Fictor anunciou ao mercado uma proposta de compra da instituição do banqueiro Daniel Vorcaro. De acordo com comunicado da Fictor, o objetivo era aportar R$ 3 bilhões no Master, em parceria com investidores árabes.
No mesmo dia do anúncio, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal suspeito de crime contra o sistema financeiro. No dia seguinte, o Master foi liquidado e o negócio com a Fictor não saiu do papel. Na decisão da desembargadora, ela cita a proposta feita pelo Fictor para a compra do Master: “mesmo após a deflagração da operação que investiga as possíveis fraudes financeiras cometidas dentro do Banco Master, no dia 17/11/2025, o Grupo Fictor, em conjunto com grupo de investidores, fez uma elevada proposta de aquisição daquela entidade”.
Oportunidade com segurança!
Com a liquidação do Banco Master, a decisão da Justiça de São Paulo aponta que “o Grupo Fictor poderia ter adquirido ações do banco”, o que geraria “sua insolvência e provavelmente o descumprimento de sua obrigação financeira junto à empresa agravante”. Segundo o despacho da juíza, “há possibilidade de dano irreparável ou de difícil reparação, uma vez que o indeferimento da medida poderia resultar em danos financeiros vultosos à empresa agravante”.
A empresa que entrou com a ação atua no processamento de cartões para a FictorPay, mas pediu sigilo do processo. A Fictor informou que não vai comentar a decisão da Justiça porque o processo foi colocado em segredo de Justiça a pedido da outra parte, aqueles que fizeram o pedido de bloqueio.
Assim, a justiça determinou o “arresto cautelar de ativos da Fictor, no total de R$ 150 milhões, correspondente ao valor mínimo do cash colateral (a garantia)”. Caso o bloqueio seja insuficiente, diz o texto, a empresa deverá recompor e manter a conta de garantia nesse valor “com recursos próprios ou de terceiros”.
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A decisão veio após recurso da empresa de processamento de cartões, já que uma decisão anterior da Justiça negou o bloqueio dos recursos por falta de provas de risco imediato. No recurso, a autora da ação mostrou que a Fictor teria retirado os recursos financeiros da garantia alguns dias após o anúncio da compra do banco Master.
Caso a Fictor não cumpra a decisão, a Justiça estabeleceu que seja aplicada multa diária de pelo menos R$ 5 milhões. Segundo o texto, a medida “mostra-se necessária e não tem caráter irreversível, tratando-se de arresto cautelar de ativos, sujeito a posterior análise quanto à sua transferência para a conta da parte agravante”.
Atraso no pagamento a clientes
A Fictor, que á a principal patrocinadora do time de futebol do Palmeiras, ficou em xeque após apresentar a proposta de compra bilionária do Master num contexto em que a empresa tem atrasado o pagamento a clientes que aplicaram em seus contratos de Sociedade em Conta de Participação (SCP). Advogados consultados pelo GLOBO observam que as SCPs têm caráter privado e que há uma “linha tênue entre estrutura societária legítima e ofertairregular de investimentos”.
A Associação Brasileira de Assessores de Investimento (Abai), entidade que representa 150 escritórios que totalizam 10 mil desses profissionais no país, entrou com pedido de consulta junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra a Fictor. A Abai pede que o “xerife” do mercado de capitais avalie indícios de oferta pública irregular de valores mobiliários (as SCPs) e atuação igualmente irregular no mercado de capitais da Fictor.
De acordo com documento protocolado pela Abai junto à CVM, nesses contratos, a Fictor oferece retornos de 2% a 3% ao mês e até 18% ao ano. No mercado, o retorno de um CDB, por exemplo, é de 1% ao mês, em média na renda fixa, o que totaliza 12% ao ano. A Selic, a taxa básica de juros, está em 15% ao ano.
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Em nota, a Fictor informou que a “restrição de liquidez em seus contratos foi resultado de contaminação reputacional externa, que gerou retração natural de investimentos e aumento de cautela por parte de parceiros e contrapartes, afetando temporariamente fluxos operacionais. Não houve alavancagem estrutural como causa do evento. A companhia adotou medidas de reforço de controles e readequação de cronogramas, com normalização progressiva e já adequadamente comunicada aos investidores.” A companhia não comentou sobre os SCPs e o rendimento prometido aos investidores.
A CVM informou que não comenta casos específicos, mas que reclamações e consultas são verificadas, recebendo o tratamento adequado.