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segunda-feira, janeiro 5, 2026

Com base em mapa do século XVII e imagens de satélite, pesquisadores buscam primeiros quilombos dos Palmares

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A partir de janeiro, pesquisadores pernambucanos e alagoanos vão a campo em busca daqueles que podem ser os mais antigos quilombos dos Palmares. Antecedendo em décadas o mais famoso, liderado por Zumbi, esses locais podem oferecer informações inéditas sobre modo de vida e organização das comunidades fundadas por escravizados fugidos dos engenhos de açúcar.

A pesquisa tem como base os relatos do comandante holandês Johan Blaer, que liderou uma expedição militar contra quilombos em 1645, e um mapa descoberto nos arquivos da Universidade de Harvard. Batizado de Brasilia Qua Parte Paret Belgis (A parte do Brasil que pertence aos neerlandeses), ele foi feito pelo naturalista George Marggraf e ajudou a localizar áreas, como rios e morros, descritos por Blaer. Tendo cruzado essas informações com imagens de satélite, os pesquisadores acreditam ter encontrado os locais dos antigos quilombos.

Primeira página do relato da expedição do holandês Johan Blaer — Foto: Reprodução

Atualmente, o local demarcado como o quilombo dos Palmares é apenas a Serra da Barriga, em Alagoas. Historicamente, no entanto, sabe-se que o território era mais amplo, explica o arqueólogo Flávio Moraes, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), um dos pesquisadores do projeto.

— Na Serra da Barriga foram feitas diversas escavações e nunca encontramos cultura material, que nos mostrasse como era o cotidiano desse povo — diz Moraes, acrescentando que a pesquisa pode ser a oportunidade de ver a história do país sob lentes menos usuais. — Tudo relacionado ao povo negro está muito associado à senzala, à escravidão, às correntes, esse aspecto pejorativo. Palmares tem essa simbologia de ser um local em que o povo negro buscou liberdade.

Relatos vagos da presença de quilombos no Brasil colônia remontam ainda ao século XVI, poucas décadas após a chegada da nau de Pedro Álvares Cabral. A formação desses núcleos intensificou-se conforme a importância econômica do Brasil cresceu no império português. Mais próxima do centro econômico da colônia, onde se concentrava a produção açucareira, a região entre o atual Pernambuco e Alagoas acabou povoada por diferentes quilombos, que conviveram e se sucederam ao longo dos anos. O de Zumbi, na Serra da Barriga, seria o mais recente e o último deles, tendo prosperado até a morte do seu líder em 1695, durante investida das forças do bandeirante Domingos Jorge Velho.

Os três quilombos procurados pelos pesquisadores da Ufal e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) são os mais antigos com registros sólidos. Menções a eles aparecem em documentos da época, como os da expedição de Blaer.

— Um deles tinha sido abandonado porque, segundo os guias informaram aos holandeses, a área era insalubre. Uma segunda comunidade encontrada tinha sido parcialmente destruída por expedição anterior. A de Blaer encontrou um quilombo que estava ativo. Aconteceram escaramuças, batalhas, e alguns escravizados foram assassinados e outros, capturados — diz o arqueólogo Onésimo dos Santos, que participa do projeto.

Mapa descoberto em Harvard ajudou a localizar área descrita por Blaer — Foto: Reprodução
Mapa descoberto em Harvard ajudou a localizar área descrita por Blaer — Foto: Reprodução

Segundo os pesquisadores, no relato da expedição, há ainda a menção a um rei que liderava os quilombos daquela região: Dambij, conforme escrito no documento holandês. Uma hipótese levantada é a de que a palavra refere-se não a um nome, mas a um título, sendo apenas a forma grafada pelos holandeses do mesmo termo que foi entendido pelos portugueses como Zumbi.

— Nenhum dicionário kimbundo traz a palavra zumbi com o sentido de líder. Ou tem zambi como deus ou como espírito — diz Onésimo, destacando que há proximidade fonética entre as duas palavras — Dambij era o holandês escrevendo o que o guia indígena falou.

A expectativa é que pedaços de cerâmicas, urnas funerárias e vestígios de construções tragam pistas sobre o modo de vida dos escravizados que escapavam dos engenhos. Onésimo afirma que, ao se reunirem nos quilombos, eles tendiam a reproduzir o modo de vida rural que tinham na África. Os relatos de holandeses e portugueses do período indicam também que os moradores dessas comunidades tinham domínio de técnicas de fundição, o que permitia a fabricação de armas de metal.

— O que chamamos de quilombo é uma praça fortificada, não necessariamente era onde as pessoas viviam o dia a dia, mas era para onde se dirigiam quando atacadas, o mesmo princípio dos castelos medievais — diz Onésimo.

O arqueólogo explica que as habitações estariam nas proximidades do quilombo, que contaria com muralha de madeira e trincheira, na qual estacas serviam para bloquear o avanço dos inimigos. Fortificações semelhantes já foram identificadas pelos pesquisadores em países como Angola, acrescenta Onésimo. Os pesquisadores acreditam ainda ter localizado resquícios destas estruturas em dois locais que serão estudados mais profundamente este ano.

Reconstitução — Foto: Reprodução
Reconstitução — Foto: Reprodução

Os arqueólogos também pretendem verificar se encontram evidências do convívio de indígenas e escravizados. Entre os documentos levantados, está o relato de uma expedição holandesa de 1644 contra um quilombo da região, no qual há menção à captura de africanos e indígenas.

— Nossa hipótese é de que essa convivência vinha do fato de que os escravizados eram sequestrados na África, colocados dentro de um navio, desembarcados em algum lugar no Recife e seguiam a pé para engenhos do litoral. Eles não tinham conhecimento do interior. Eles seguiam, pelo menos os primeiros, os indígenas, que, esses sim, conheciam essas terras — diz Onésimo.

Apesar de registros materiais dos quilombos na região ainda não terem sido localizados, os pesquisadores afirmam que indícios da presença dessas comunidades aparecem em nomes que batizam ou batizavam a geografia local.

— Levantamos muitos mapas, inclusive do século XIX e início do XX. Ainda existem vários topônimos com nomes em kimbundo, mas nos mapas mais antigos temos mais. Tem o riacho Caçamba, o riacho Cafuxi e outros nomes. Alguns mudaram ao longo do tempo e hoje se chamam riacho São Pedro, por exemplo.

O projeto é fruto de parceria entre Ufal e UFRPE. A pesquisa tem apoio da Fundação Cultural Palmares (FCP). No feriado do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, a fundação firmou um Termo de Execução Descentralizado, garantindo o repasse de R$ 300 mil aos pesquisadores.

Flávio Moraes afirma que a pesquisa é conduzido em contato com a comunidade local e o movimento negro. O objetivo é garantir que o trabalho científico não viole interesses e vontades daqueles cuja história está ligada aos quilombos:

— Precisamos entender o que eles querem. Enquanto pesquisadores, não podemos simplesmente violar esses espaços que podem ter a ancestralidade desse povo.

[Fonte Original]

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