Estão previstos para este ano 14 leilões de rodovias federais e oito de ferrovias, pacote que deve gerar investimentos de R$ 300 bilhões ao longo dos contratos. Para atrair investidores, o governo tem apostado no BNDES como fonte de financiamentos. O banco encerrou 2025 com uma carteira de empréstimos estimados em R$ 22 bilhões para concessionárias de rodovias e em R$ 3,7 bilhões para as de ferrovias. O objetivo do BNDES é superar tais valores neste ano.
Faz sentido econômico que um banco estatal de fomento ofereça crédito a projetos de interesse público, em especial para investimentos de longo prazo de maturação, como as obras de infraestrutura. O importante é garantir que sejam projetos bem formatados do ponto de vista financeiro, já que o setor privado só entra em negócios que sejam rentáveis. Num modelo bem estruturado de concessões, o Tesouro não é instado a arcar com custos ou prejuízos de obras faraônicas, as contas públicas são poupadas — e o país ganha com investimentos para recuperar estradas precárias ou construir ferrovias necessárias.
Que um partido como o PT — historicamente resistente a privatizações e a investimentos privados — tenha se rendido à realidade é uma notícia alvissareira. Significa que o país sedimenta uma política de Estado num setor crítico, a infraestrutura de transportes. Como as concessões ao setor privado estão consolidadas, o secretário executivo do Ministério dos Transportes, George Santoro, assegura que as eleições marcadas para este ano em nada afetarão o calendário de licitações.
O BNDES será responsável pela estruturação de quatro leilões rodoviários: a Rota dos Sertões (BR-116, entre Bahia e Pernambuco); Rota Gerais (BRs-070 e 251, em Minas); Rota Agro-Central (BRs-070, 174 e 364, entre Mato Grosso e Rondônia); e Rota Integração do Sul (BRs-116, 158, 290 e 392, no Rio Grande do Sul). Além desses, estão previstos vários outros, alguns com a participação das atuais concessionárias. No campo ferroviário, haverá concessões para Corredor MG-RJ, Anel Ferroviário Sudeste, Malha Oeste, Corredor Leste-Oeste, Ferrogrão, Malha Sul (três trechos) e Ferrovia Norte-Sul. Está prevista até licitação para transporte de passageiros entre Brasília e Luiziânia.
A qualidade precária das rodovias brasileiras, exposta na última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte, mostra por que os investimentos serão bem-vindos. Apenas 32,5% dos mais de 114 mil quilômetros de estradas analisados (52,6% das pavimentadas no Brasil e 6,6% de toda a malha rodoviária) são considerados de “ótima” qualidade. Outros 19,5% são vistos como “ruins” ou “péssimos”. As vias com melhor avaliação costumam ser aquelas sob gestão privada, pois recebem mais investimentos em manutenção. O indicador que sintetiza melhor a situação diz respeito aos problemas no pavimento: eles ocorrem em 64,4% das estradas sob gestão pública e em 34,4% das vias sob concessão.
Por certo, o setor privado só assumirá as estradas com tráfego razoável. Há muitas vias de baixa circulação, mas vitais para a população do interior. Elas têm de ser mantidas com recursos públicos. Para isso, o governo tem o dever de manter uma gestão fiscal responsável e um plano coerente que lhe permita arcar com os investimentos necessários.