Reconhecida tardiamente como parte da segunda geração do modernismo brasileiro, a obra de Heitor dos Prazeres (1898–1966) é hoje vista de forma consistente no meio institucional, a exemplo da 36ª Bienal de São Paulo (em sua quinta participação na principal mostra da América Latina), e em eventos do mercado, como a 23ª Art Basel Miami Beach, realizada no mês passado, na cidade da Flórida. Este ano, quando se completam seis décadas de sua morte, o artista multidisciplinar (além da pintura, atuou em música, cenografia, figurino e mobiliário) será homenageado por um dos pilares da cultura brasileira que ajudou a erguer. Fundador de escolas de samba como a Mangueira e a Portela, Heitor chegará à Marquês de Sapucaí como enredo da Unidos de Vila Isabel. Sua obra também está sendo levantada para a produção de um catálogo raisonné, com o formato digital previsto para ser lançado até 2027, além de voltar numa nova edição da biografia “Heitor dos Prazeres: sua arte e seu tempo” (2003), de Alba Lirio e Heitor dos Prazeres Filho, há anos fora das prateleiras.
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Carnavalescos da Vila Isabel e autores do enredo “Macumbembê, samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, Leonardo Bora e Gabriel Haddad já haviam trazido as cores e formas características para uma escala monumental na instalação “Roda gira”, criada em parceria com Jovanna Souza e Winnie Nicolau, que ocupou a rotunda do CCBB do Rio durante a retrospectiva “Heitor dos Prazeres é meu nome”, em 2023, com curadoria de Raquel Barreto, Pablo León de la Barra e Haroldo Costa (1930-2025). Agora, vão mostrar na Avenida as muitas facetas do artista, desde sua iniciação na música e no candomblé, através do tio, o precursor do carnaval Hilário Jovino, que o levou à casa das tias baianas da Praça Onze, como a célebre Tia Ciata.
— Vamos falar desse artista extremamente comunicador e presente em diversos espaços, que inclusive responde por vários nomes ao longo da sua trajetória. É o menino Lino, o Ogã Aladê-Nilu do terreiro de Tia Ciata, o Mano Heitor do Cavaco ou Mano Heitor do Estácio antes de ser conhecido como dos Prazeres — enumera Bora. — E mostrar também esse embaixador da cultura brasileira, que faz turnês pela América Latina com seu grupo de samba, participa do I Festival de Artes Negras em Dakar (no Senegal, em 1966, meses antes de sua morte).
Entre as referências usadas na criação do enredo, estão o documentário de 1965 de Antônio Carlos Fontoura e o depoimento do artista para o Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, em 1966 — a instituição ainda cedeu fotografias para o desfile da azul e branco.
— É um encontro muito feliz, porque a Vila Isabel gosta de falar da história do samba, da sua comunidade. E o Heitor também olhava a Praça Onze, os terreiros, as escolas de samba como esses espaços aquilombados — observa Haddad. — Ele expande esse olhar sobre a Pequena África (no Centro), a Zona Norte, a Festa da Penha, para todo o Rio. Era mais que necessário que ele protagonizasse um enredo do Grupo Especial, sendo parte dessa história, tendo ganhado, com Paulo da Portela, o primeiro concurso de escolas de samba, em 1929.
Colecionador e cofundador da MT Projetos de Arte, plataforma responsável pela produção da retrospectiva do CCBB e pela catalogação de Heitor dos Prazeres, Lêo Pedrosa diz que o projeto do raisonné será anunciado nos próximos meses.
— Ainda dependemos de captações para o meio impresso, mas o digital já teremos condições de lançar em um período mais razoável de tempo, até pelo fato de não ser uma obra tão extensa — comenta Pedrosa. — As circunstâncias da vida do Heitor não permitiram que ele se dedicasse exclusivamente à pintura. Ele começa a pintar no final da década de 1930, mas ainda seguia trabalhando como músico, compositor. A catalogação digital já vai dar uma contribuição importante para o trabalho dos pesquisadores e trazer mais segurança para o mercado.
Idealizadora da MT Projetos de Arte, Margareth Telles também ambiciona um centro cultural dedicado ao pintor:
— O ideal seria ter um Museu Heitor dos Prazeres na região da Pequena África, para contar essa história pelo olhar de quem fez parte dela. Se antes conseguimos levar 350 mil pessoas à (mostra) retrospectiva num período de três meses, sabemos agora que existe um público interessado.
Livro terá mais fotos e informações
Cocuradora at Large da 36ª Bienal de São Paulo, em cartaz até o próximo domingo, a carioca Keyna Eleison aponta que a quinta passagem da obra de Heitor dos Prazeres pelo evento — foi premiado na primeira mostra, em 1951, ganhou uma sala na edição seguinte, em 1953, e teve trabalhos exibidas em 1961 e 1979 (postumamente) — vem em um contexto de reavaliação propiciado, entre outros fatores, por uma maior diversidade nas instâncias institucionais.
— Heitor era uma liderança, influenciou uma grande parte da sociedade que, em seu tempo, não era devidamente considerada. Sempre existiram limites espaço-temporais e, dentro deles, as disputa de discurso. Agora estamos num momento de percepção em que Heitor está sendo discutido como um artista, não como um artista negro — ressalta Keyna. — São parâmetros com os quais se pode concordar os discordar, só não dá mais para evitar. E em todos esses momentos ele mostra sua grandeza. Ele não é um nome histórico (na Bienal), é um artista que se comunica com o presente.
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A mais de 370 quilômetros de São Paulo, Heitor dos Prazeres também está representado na coletiva “Chegança”, que inaugurou no mês passado o Museu Vassouras (RJ), na região do Vale do Café. Curador da mostra ao lado de Thayná Trindade, Marcelo Campos, do Museu de Arte do Rio (MAR), selecionou duas telas do artista, apresentadas junto a obras de um de seus principais discípulos, o pintor Sergio Vidal, para a sala “Vapor”, uma das três da exposição, que representa o encontro da cultura do interior com a da capital, ligadas pelos trilhos de trem que descem a serra e atravessam a Baixada Fluminense.
— O Heitor pertencia àquela geração que preservou a cultura banto, com Donga, João da Baiana, Pixinguinha, frequentadores das casas das tias baianas. Ele faz esse registro no seu disco clássico (“Heitor dos Prazeres e Sua Gente – Macumba”, de 1955), como também fazia na pintura — compara Campos. — Ao contrário de outros artistas negros acadêmicos, ele representa essas vivências dos terreiros, das rodas. Dentre os modernistas, ele não era alguém que frequentava esses espaços por uma busca estética, ele viveu isso de fato. E ele soube circular, estar também nos salões, mediando essas relações.
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Aos 82 anos, Heitor dos Prazeres Filho se anima com a homenagem da Unidos de Vila Isabel, a presença cada vez maior de trabalho do pai em museus e galerias, da catalogação de sua obra e a possibilidade de reedição da biografia publicada em 2003.
— É importante manter viva a memória do mestre. Estamos negociando um patrocínio para a reedição, a ideia é incluir mais fotos, mais algumas informações e memórias — adianta Heitorzinho, como é conhecido. — Nós éramos carne e unha. Eu trabalhava na Rádio Nacional (no Centro do Rio) e ia buscá-lo de carro no ateliê da Praça Onze. Lá era um movimento constante, além dos assistentes tinha sempre músicos e compositores, uma turma muito boa. Eu tocava com ele, levava para os shows, era um grande parceiro.