A vasta maioria dos brasileiros (87%) prioriza o bem-estar e reconhece que ele está diretamente associado ao equilíbrio emocional e mental. Ainda assim, devido a fatores como salário, tempo e trabalho, somente 33% conseguem investir de forma regular e contínua em serviços ligados ao autocuidado. Entre aqueles da classe DE, o cenário é pior: 35% investem apenas de forma ocasional e 25% não investem por falta de condições financeiras.
É o que mostra uma nova pesquisa conduzida pelo Instituto Locomotiva, em parceria com a QuestionPro, que ouviu 1,5 mil pessoas de 18 anos ou mais entre 17 e 23 de junho do ano passado. Os entrevistados, de todas as regiões do país, foram selecionados a partir de uma amostra nacional, ponderada por gênero, idade, escolaridade e classe social, seguindo parâmetros da PNAD Anual 2022, do IBGE. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais.
Os resultados mostram que o cenário é desigual entre os brasileiros. Enquanto 81% daqueles da classe AB dizem ter tempo próprio para o bem-estar, esse percentual cai para 66% nas DE. Metade da população afirma dispor de apenas uma a duas horas por dia para se dedicar ao cuidado pessoal, e o trabalho excessivo aparece como o principal fator que limita esse tempo, sobretudo entre os de menor renda.
— O investimento em bem-estar é um esforço presente em todas as rendas. O que muda não é a vontade de se cuidar, mas a frequência possível. Nas classes mais altas, o cuidado cabe de forma regular na rotina. Nas classes mais baixas, ele acontece de maneira ocasional, não por falta de prioridade, mas porque as limitações financeiras empurram o autocuidado para os intervalos da vida — afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.
Em relação às categorias de bem-estar, alimentação saudável, atividade física e lazer concentram os maiores contrastes entre as classes sociais. O acesso a opções melhores para incluir no cardápio, por exemplo, é de 69% nas classes AB, mas cai para 50% entre os das classes DE. Já o acesso a exercícios físicos cai de 57% para 33%, e a momentos de lazer e viagens, de 43% para 27%.
— O bem-estar dos brasileiros é construído na disputa diária entre desejo e possibilidade. A pesquisa mostra que, para muitos, não falta vontade de se cuidar, falta tempo. A rotina marcada por trabalho, deslocamentos e responsabilidades impede que o cuidado consigo mesmo aconteça de forma contínua. O país revela que o cotidiano, mais do que a intenção, define quem consegue priorizar o próprio equilíbrio — destaca Meirelles.
A pesquisa também mostrou que, para 89% dos brasileiros, a situação financeira afeta o bem-estar – e, para 50%, o impacto é forte. As preocupações do tipo lideram a lista de fatores que prejudicam o equilíbrio emocional, especialmente entre as classes C, D e E.
Novamente de forma desigual, 72% dos brasileiros das classes AB avaliam sua saúde mental como boa, percentual que cai para 49% entre os das classes DE. Somente 5% dos membros das classes mais ricas classificam sua saúde mental como ruim ou muito ruim, número que chega a 16% entre os das classes de menor renda.
A percepção de melhora no bem-estar nos últimos anos também acompanha o nível de renda: 61% dos brasileiros afirmam que seu bem-estar melhorou nos últimos cinco anos, percentual que sobe para 69% na classe AB e cai para 53% na classe DE.
Quando questionados sobre quem é o principal responsável por promover essa melhora, 61% dos brasileiros de maior renda apontam a si mesmos, percentual que cai para 51% nas classes DE, enquanto família, trabalho e religião ganham mais peso como redes de sustentação emocional.
Em relação ao trabalho, 38% dos brasileiros afirmam que ele impacta positivamente seu bem-estar, 31% dizem que não há impacto e 31% avaliam que o trabalho afeta negativamente sua qualidade de vida. Nas classes AB, o número daqueles que relatam impacto positivo sobe para 42%.
No dia a dia, as ações mais adotadas para cuidar da saúde mental citadas pelos entrevistados estão ligadas a práticas acessíveis e à rotina pessoal: 50% citam a prática de exercícios físicos, 49% mencionam lazer e hobbies, 48% o contato com amigos e familiares, 37% a alimentação equilibrada e 23% recorrem à meditação ou a práticas de relaxamento.