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domingo, janeiro 11, 2026

Melatonina: nunca se pesquisou tanto sobre o suplemento no Brasil, mostra levantamento do Google; veja as principais dúvidas

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Nos últimos cinco anos, o interesse por “melatonina” no Google saltou 150%, chegou ao maior patamar já registrado e ultrapassou a procura até mesmo por “clonazepam”, princípio ativo do rivotril, no Brasil. Segundo um levantamento exclusivo do Google Trends, as buscas sobre o suplemento cresceram acima da média mundial no mesmo período, que foi de 70%, e o país é o 7º que mais tem interesse sobre o assunto.

Paralelamente, a procura por “higiene do sono”, um conjunto de práticas que prometem auxiliar o indivíduo a dormir, também subiu 220%, novamente acima do aumento de 80% a nível global. Os números revelam um cenário em que mais e mais brasileiros sofrem com queixas na hora de descansar e buscam medidas para ajudar a cair no sono.

A Associação Brasileira do Sono (ABS) estima que duas a cada três pessoas no país têm alguma dificuldade do tipo. Dados do Episono, pesquisa realizada na capital paulista pelo Instituto de Sono, revelam uma prevalência de 15% de diagnóstico formal de insônia crônica, quando as queixas ocorrem ao menos três vezes na semana e perduram por pelo menos três meses.

Além disso, é alto o número de brasileiros que recorrem a remédios. De acordo com um estudo publicado na Revista de Saúde Pública, com base em dados da última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, 8,5% da população, o equivalente a cerca de 18 milhões de pessoas, usam medicamentos para dormir.

A melatonina, embora não seja um remédio, é comumente buscada como uma ferramenta para ajudar o sono. Entre as perguntas mais buscadas no Google nos últimos 12 meses sobre o suplemento, estão “para que serve”, “o que é” e “criança pode tomar”. Abaixo, especialistas ouvidos pelo GLOBO respondem essas e outras dúvidas sobre o suplemento.

— A melatonina é um neurohormônio produzido no sistema nervoso central por uma glândula chamada pineal. Seu pico ocorre no período noturno e, ao longo do dia, ela fica baixa. Isso porque ela tem uma relação com o nosso ciclo de vigília-sono — explica a neurologista Dalva Poyares, professora de Medicina do Sono na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A substância também é encontrada em alguns alimentos, como frutas e carnes, e, desde 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a venda de melatonina sintética como suplemento alimentar, limitando o consumo diário a 0,21 mg.

Melatonina é bom para dormir?

No corpo, a melatonina tem um papel importante na regulação do ciclo circadiano. No entanto, os especialistas reforçam que não existe hoje indicação do consumo de melatonina como tratamento da insônia ou para ajudar a dormir.

— Não temos estudos que demonstrem um benefício da melatonina para insônia. Ela não é um indutor do sono, ela não ajuda a iniciar e a manter o sono — diz Dalva.

Lucio Huebra, neurologista e médico do sono do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, lembra que as diretrizes tanto brasileiras, como internacionais, não recomendam essa indicação:

— Para o tratamento da insônia são indicadas medidas comportamentais, higiene do sono, terapia psicológica como a terapia cognitivo comportamental para insônia e em casos refratários o uso de indutores do sono por períodos curtos, na menor dose possível.

Para que serve a melatonina?

Existem alguns cenários em que a melatonina pode ser indicada, conta o endocrinologista Márcio Mancini, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM):

— Uma situação interessante é ao viajar e mudar o fuso horário. Porque o organismo se acostuma a produzir melatonina em determinado horário, então a suplementação ajudaria a se adaptar ao novo fuso. Mas é importante ter em mente que a melatonina não é uma panaceia e que deve ser usada com indicação médica.

Outros casos em que pode haver recomendação são indivíduos com distúrbio do ritmo circadiano, algumas pessoas com transtorno do espectro autismo (TEA), casos de cegueira e insensibilidade à luz e de sonambulismo e parassonias.

— A suplementação de melatonina não é indicada para qualquer indivíduo, pois a grande maioria da população tem sua produção e liberação saudável, de forma adequada para o equilíbrio do ritmo circadiano e funcionamento do sono. O maior benefício é para esses casos específicos, com indicação — diz Huebra.

Dalva, da Unifesp, acrescenta ainda que há uma concepção errada de que é preciso suplementar a melatonina em idosos, porque há uma queda natural da produção do hormônio ao longo da vida. Geralmente, essa diminuição não leva à necessidade de reposição, diz.

No geral, a suplementação com melatonina costuma ser bem tolerada, com os estudos mostrando baixos níveis de toxicidade e sem evidência de dependência, tolerância ou abstinência. No entanto, alguns efeitos adversos podem ocorrer, geralmente leves e transitórios, como sonolência matinal, tontura, dor de cabeça e náusea.

Recentemente, pesquisadores apresentaram um estudo nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração que analisou dados de 130,8 mil adultos diagnosticados com insônia crônica ao longo de 5 anos n, etre os que tomavam melatonina a longo prazo, por ao menos um ano, foi observado um risco de problemas cardíacos até 3,5 vezes maior.

No entanto, o trabalho é observacional, ou seja, apenas constatou uma associação entre o uso de melatonina e o desfecho cardíaco, sem mostrar que é necessariamente uma relação de causa e consequência. Para os especialistas, é algo inicial que precisa ser mais estudo, mas é improvável que a melatonina seja de fato responsável.

— Existe um viés que é: as pessoas que tomam melatonina podem ter mais problemas no sono que aumentam sabidamente o risco de problemas cardíacos, como apneia do sono. Não vejo hoje nenhum mecanismo biológico razoável para imaginar que a melatonina pode estar fazendo mal. Ao contrário, temos experimentos que mostraram que a falta de melatonina leva a problemas metabólicos — diz Mancini.

Mesmo que seja segura, e embora a substância seja vendida como suplemento alimentar no Brasil, os especialistas afirmam que não se deve tomar melatonina sem indicação médica, especialmente em doses altas, acima de 2 mg.

— A melatonina é um hormônio, então tem que haver um critério e um acompanhamento. E são necessários mais estudos sobre a segurança desse uso a longo prazo. As doses muito altas podem levar a quadros de sonolência porque vai prejudicar a queda matinal da melatonina no dia seguinte — afirma Dalva.

Criança pode tomar melatonina? Quem não pode?

A aprovação da Anvisa é para pessoas com idade igual ou maior que 19 anos, ou seja, a melatonina não deve ser consumida por crianças no Brasil. Além disso, o suplemento é contraindicado para gestantes, lactantes e pessoas envolvidas em atividades que requerem atenção constante.

Huebra complementa que a melatonina também deve ser evitada em pacientes com doenças graves do fígado, pois sua metabolização ocorre no órgão. Porém, ele explica que as restrições são orientadas pela ausência de estudos científicos garantindo a segurança nesses públicos, com um caráter preventivo.

Pode tomar melatonina de dia?

— É prejudicial tomar melatonina do dia porque você pode desregular o ciclo circadiano e inverter todo o ritmo do metabolismo — afirma Mancini.

[Fonte Original]

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