Você sabia que Aerith morreu no Final Fantasy 7 original? Lógico que sabia, esse é um spoiler de mais de 25 anos de idade, de uma das cenas mais replicadas e comentadas da história dos videogames. Embora hoje, olhando de forma avulsa e sem contexto, ela possa parecer sem graça e até de uma certa forma mal feita em comparação aos gráficos mais atuais, em 1997 ela era uma amostra do ápice visual dos RPG’s e causou muito impacto por sua profundidade e qualidade, mas você sabe como e porque essa cena existe?
Ela é muito mais importante para o jogo do que os jogadores sabem, por isso vamos conhecer os bastidores deste que é um dos momentos mais memoráveis da história dos videogames e entender definitivamente porque teve todo aquele impacto.
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O conceito
Quando a Square Enix, que na época era apenas Square, iniciou a produção de Final Fantasy 7 em 1994, logo após lançar o Final Fantasy 6, ela reuniu novamente as principais mentes criativas da empresa, que haviam criado e tornado a franquia um sucesso incrível no Japão naquele momento.
No time se encontravam nomes consagrados como Hironobu Sakaguchi (produtor), Yoshinori Kitase (diretor), Tetsuya Nomura (designer), Yoshitaka Amano (ilustrador), Nobuo Uematsu (compositor) e vários outros, porém o foco principal deles era fazer algo completamente diferente do que fizeram no passado e dar um passo a frente em vários âmbitos relacionados a criação de games. Por isso, muita coisa foi tentada e em diversas plataformas diferentes, incluindo Super Nintendo e posteriormente Nintendo 64, até entenderem que apenas o Playstation da Sony, com sua mídia de CD-ROM conseguiria contar a história que eles queriam e da forma como queriam. Essa história é a vida e morte de Aerith Gainsborough.
Na época, tradicionalmente, a primeira coisa que ficava pronta durante o desenvolvimento de um Final Fantasy era a história e em volta dela posteriormente era feito todo o resto. O conceito principal de Final Fantasy 7 começou quando o diretor Yoshinori Kitase viu uma pesquisa que mostrava que muitas crianças japonesas achavam que após uma pessoa morrer ela voltaria à vida, como nos videogames.
Ele achou isso muito errado e problemático para o futuro daqueles jovens, pois cresceriam sem entender o peso da dor e da perda e assim poderiam banalizar ou diminuir a importância do viver. Foi nessa vontade de mostrar a importância da vida que a Square começou a criar o enredo para Final Fantasy 7, e para causar a reflexão desejada, era preciso retratar bem a morte também, então foi decidido que alguém em algum momento na história tinha que morrer.
“Quando um personagem de um videogame morre, ninguém pensa que é muito triste. Afinal, eles são apenas personagens de um jogo – você pode simplesmente reiniciar o game e tentar novamente, ou pode sempre revivê-los de alguma forma. Eu senti que a vida deles simplesmente não tinha muito peso. Com “vida” como tema para FF7, pensei que deveríamos tentar retratar um personagem que realmente morre para sempre, que não pode voltar”, explicou Tetsuya Nomura, à Polygon.
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Matando Aerith
Só que os desenvolvedores não queriam se prender ao conceito que eles consideravam clichê dos cinemas e videogames da morte do protagonista principal para provar o seu amor e heroísmo. Por isso que, enquanto criava os personagens, Tetsuya Nomura teve a ideia de “matar” um personagem diferente do habitual, mas ainda sim um dos 3 protagonistas que eles tinham feito até aquele momento para a história.
Quando essa proposta surgiu em sua cabeça, ele ligou para o diretor Kitase o mais rápido possível, afinal seria algo de muito impacto em todos os níveis possíveis do desenvolvimento. Após uma longa discussão e debate na ligação, eles perceberam que Cloud não deveria morrer porque é o protagonista principal e Barret seria óbvio demais para ter impacto, já que a franquia já vinha tirando a vida de personagens com esse arquétipo nos games anteriores.
Sobrou para Aerith, a última dos três protagonistas até então planejados, a responsabilidade de ser sacrificada, para assim, com sua morte, dar grande profundidade ao tema vida, mas como isso aconteceria? Eles queriam algo mais realista, com impacto verdadeiro e sentido, não romantizado como nos filmes de Hollywood. E isso explica muito a escolha de palavras para o que Cloud diz logo após o ataque de Sephiroth:
“…Cale-se. O ciclo da natureza e o seu plano estúpido não significam nada. Aerith se foi. Aerith não vai mais falar, não vai mais rir, chorar… ou ficar com raiva… E nós… o que NÓS devemos fazer? O que é essa dor? Meus dedos estão formigando. Minha boca está seca. Meus olhos estão queimando”
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Nas palavras de Kitase para a revista EDGE, “no mundo real as coisas são muito diferentes. Você só precisa olhar ao seu redor. Ninguém quer morrer assim. Pessoas morrem de doenças e acidentes. A morte chega repentinamente e não há noção de bom ou ruim. Deixa, não uma sensação dramática, mas um grande vazio.Quando você perde alguém que você amava muito, você sente um grande espaço vazio e pensa: ‘Se eu soubesse que isso aconteceria, teria feito as coisas de forma diferente”.
É para gerar essa conexão que Aerith foi desenvolvida para ser muito importante, atraente e insubstituível no gameplay, mas também este é o motivo pelo qual decidiram que a morte deveria ser algo inesperado, exatamente como acontece na vida real em vários casos, para assim dar esse impacto que eles buscavam e deixar um sentimento de vazio no jogador. Por isso foi em um momento completamente repentino ainda antes da metade do jogo. O que surpreendeu até alguns dos desenvolvedores do jogo.
Impacto em Final Fantasy 7
Só que o conceito de impacto da morte foi levado a sério demais pela equipe. A ideia original era matar quase todos os personagens principais de Final Fantasy 7 a partir da segunda metade do jogo durante a cena em que pulam de paraquedas em Midgar. O jogador escolheria os 3 que iriam sobreviver terminando o jogo apenas com eles.
Só que a ideia acabou posteriormente descartada, não por ser trágico demais, mas porque diminuiria o peso da morte de Aerith que representa o vazio da perda da pessoa amada, o que para eles era o mais importante. Inclusive esse também é um dos motivos do porque o jogador perde tudo que deu a Aerith durante o jogo, causando ainda mais peso na perda dela quando se percebe isso posteriormente.
Entretanto, no meio do desenvolvimento, a Square percebeu que ao matar a protagonista feminina, só restariam homens no comando da história por todo o resto do jogo, por isso decidiram criar mais uma mulher como personagem principal. Tifa nasceu após Aerith e por causa dela, sendo uma espécie de substituta no enredo e ao mesmo tempo completamente oposta em seu design, já que Aerith foi feita doce, pura e amigável exatamente para gerar mais impacto.
Outro que foi feito pensando em Aerith e sua história foi Sephiroth, que inicialmente seria irmão dela, o que resultou nos estilos de cabelos tão parecidos. Depois a equipe ainda testou colocá-lo como um interesse amoroso anterior da personagem, mas também não deu certo. Tudo isso foi para buscar formas de aprofundar a história e a relação dela com o mundo a sua volta, sempre focando em dar o máximo de peso para a peça central do jogo, a icônica cena.
A música tema de Aerith
A intenção desde sempre era surpreender e ensinar, por isso o momento quase não tem música e a que toca a seguir é uma melodia bonita, não exatamente triste. Só que imediatamente após o lançamento do game, vários relatos de pessoas chorando com o momento chegaram até a Square Enix.
A situação fez o compositor Nobuo Uematsu pensar que deveria ter feito algo mais emocionante para o momento ao invés da trilha que ficou, mesmo ele acreditando que a música como está funcionou bem. Afinal, como ela não é exatamente o que se espera para esse tipo de momento, as pessoas puderam criar suas próprias interpretações sobre em suas cabeças.
As músicas foram feitas por Uematsu pensadas no que ele via e sentia em cada cena, e no caso desta em questão, uma das coisas que mais ressaltou a ele foi o que ele sentia sobre a personagem. “Quando eu estava compondo, eu realmente não pensei na morte dela, mas senti que ela não era uma personagem muito feliz. Ela era realmente inocente e pura, mas tinha um tipo de vida trágica”, explicou o compositor.
A repercussão da morte de Aerith
Essa cena é tão importante para o jogo que, por mais de 20 anos após o lançamento de Final Fantasy VII, a Square Enix solicitou nos Estados Unidos que a imprensa não colocasse imagens da morte de Aerith em mídias relacionadas para não estragar a surpresa aos jogadores, mesmo tanto tempo depois. Essa quase que dependência deste momento gerou preocupações internas durante o desenvolvimento.
A ideia era obviamente muito ousada e arriscada, não só em termos de impacto com os jogadores de videogame da época, mas por ela também ser a central que faz a história realmente funcionar em Final Fantasy 7. Isso fez a equipe não ficar completamente segura se era realmente a decisão correta matar Aerith, por isso o designer Tetsuya Nomura frequentemente se questionava se esse foi o caminho certo a seguir, chegando posteriormente até a pensar em tentar mudar a vítima para Tifa.
Outro que não estava tranquilo sobre isso foi o roteirista da cena, Kazushige Nojima. Imediatamente após o lançamento, ele usou o dinheiro que recebeu com o trabalho no jogo para poder comprar o seu primeiro computador pessoal e acessar a internet, algo muito raro em 1997. A primeira coisa que ele decidiu fazer foi buscar opiniões dos jogadores sobre a morte de Aerith, e foi assim que ele descobriu que a repercussão para esse momento foi extremamente negativa por parte do público.
Os jogadores japoneses estavam extremamente revoltados com a morte da personagem tão querida e não conseguiam aceitar aquilo, relatando com detalhes as horas de choro e incredulidade com o que tinham visto acontecer.
Esse foi um sinal importante para a Square Enix, pois essa repercussão provou que a ideia deu muito certo e eles atingiram o objetivo que queriam, já que as pessoas estavam realmente se importando muito com a perda de Aerith e sentiam muita falta do tempo que tinham com ela no jogo, gerando o tal do sentimento de vazio. Isso demonstrou a conexão forte dos jogadores com a personagem e o sucesso do ensinamento acerca da importância da vida. Um feito e tanto para a equipe de Final Fantasy 7, que conseguiu retratar com maestria para um videogame este tão difícil e complexo tema.
O fato é que desde o começo, Aerith foi feita para morrer. “Quando reflito sobre Final Fantasy VII, o fato dos fãs terem ficado tão ofendidos com a morte repentina provavelmente significa que tivemos sucesso com a personagem. Se os fãs tivessem simplesmente aceitado sua morte, isso significaria que ela não era uma personagem eficaz”, disse Nomura em entrevista a revista EGM, e exatamente para não perder esse impacto que Aerith não teria como voltar em algum momento no Final Fantasy 7 original ou em alguma das sequências diretas para o jogo, como geralmente acontece na indústria em histórias como essa.
Na época, fãs japoneses chegaram a fazer um abaixo assinado entregá-lo ao diretor Kitase pedindo que Aerith voltasse, mas ele negou o renascimento afirmando que “há muitos significados na morte de Aerith e isso nunca poderia acontecer”. Porém, exatamente pela crítica inicial tão severa à morte de uma personagem principal que para evitar problemas ninguém do núcleo principal de Final Fantasy 8 morre.
Aerith morre – o meme
Com o impacto da cena, muitas zoeiras foram criadas, incluindo uma série de paródias dos fãs e referências em outras obras. Um meme chamado “Aeris Dies” foi criado, dando spoiler da icônica cena de Final Fantasy 7 a qualquer momento em qualquer lugar. Aeris foi uma das versões do nome Aerith durante suas localizações no ocidente antes dele ser definido assim pela Square Enix.
A cena também possui diversos erros de continuidade. Se você reparar, a escada atrás de Aerith aparece as vezes na frente e as vezes atrás dela dependendo do momento. Já o piso do local no vídeo tem cores diferentes do visto no gameplay. Quando Sephiroth desce, ele está com as mãos nuas, mas quando vai retirar a espada, ele está magicamente usando luvas.
Na cena de despedida, onde Aerith afunda nas águas, Cloud segura o corpo dela as vezes na direita e as vezes na esquerda, além disso ele consegue ficar de pé naquele local que deveria ser extremamente profundo. Por fim, ela afunda com seu cabelo todo arrumado normalmente, sendo que ela havia perdido o laço pouco antes quando foi golpeada.
Legado do sacrifício
Apesar dos problemas técnicos vistos apenas pelos mais nerds, a cena de Aerith se tornou tão icônica que é até hoje frequentemente listada entre os momentos mais importantes da história dos videogames por diversos veículos de comunicação, sendo considerada um divisor de águas para a indústria.
A cena e seu impacto se tornaram objetos de estudos em livros e universidades pelo mundo, sendo também aclamada pela crítica, que entendeu seu peso para a história e o sucesso de Final Fantasy 7. Aerith ficou conhecida como uma espécie de lenda dos games por quebrar o clichê de donzela indefesa.
Além de se tornar um sucesso, ela apareceu em diversos outros jogos, como as franquias Kingdom Hearts, Little Big Planet e até Super Smash Bros com sua roupa disponível para ser usada em um Mii. Já Tetsuya Nomura, o idealizador da personagem, é até hoje chamado pelos fãs de “o cara que matou a Aerith”.
Final Fantasy VII original vendeu mais de 14 milhões de cópias em todo mundo, um número absurdo para um jogo de 1997, e recebeu diversos prêmios de melhor jogo do ano, além de ser frequentemente citado como um dos melhores jogos da história, e tudo isso aconteceu principalmente graças a forma como a Square deu vida a história: matando alguém.
Como Final Fantasy VII Remake e suas continuações chegando em múltiplas plataformas atualmente, a história de Aerith segue novos rumos, e não vamos entrar em detalhes para evitar spoilers. Ainda assim, independente dos caminhos, uma coisa é certa: o destino da personagem nos anos 90 marcou gerações e segue memorável até hoje.