Mensagens virais nas redes sociais atribuem os incêndios florestais na Patagônia argentina a supostos planos israelenses de povoar a região, o que reaviva teorias conspiratórias centenárias e motivou, nesta semana, denúncias de antissemitismo por parte de organizações judaicas.
“Quero os judeus fora do meu país” ou “os israelenses estão queimando a Patagônia” são algumas das mensagens que circulam em espanhol e, com adaptações, em pelo menos outras cinco línguas. As autoridades argentinas confirmaram a intervenção humana na origem dos incêndios, que já queimaram mais de 15 mil hectares, mas não apontaram responsáveis.
— Quanto aos autores, ainda não sabemos — disse na terça-feira à AFP Carlos Díaz Mayer, promotor da província de Chubut.
Mesmo assim, multiplicam-se nas redes mensagens que atribuem os incêndios a interesses estrangeiros, sobretudo israelenses, e os vinculam a um debate sobre mudanças nas leis que regulam a propriedade de terras rurais por não residentes e o uso de áreas atingidas pelo fogo.
Incêndios florestais atingem a Patagônia argentina
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Mais de três mil turistas são evacuados após incêndios florestais na Patagônia argentina — Foto: Martin Levicoy/AFP
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O governador de Chubut, uma das províncias mais atingidas, afirmou que um dos maiores incêndios foi provocado intencionalmente — Foto: Martin Levicoy/AFP
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O incêndio começou nesta segunda-feira perto desta vila andina de cerca de 50 moradores permanentes e, em poucas horas, se alastrou rapidamente devido à seca e aos fortes ventos — Foto: Martin Levicoy/AFP
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Nesta quarta-feira, o incêndio já havia afetado pelo menos 2.000 hectares, informou o governo provincial em comunicado — Foto: Martin Levicoy/AFP
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O fogo “foi iniciado com um acelerante ou gasolina, o que determina que alguém realmente teve a intenção de iniciar o incêndio”, disse procurador — Foto: Martin Levicoy/AFP
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Governador anunciou uma recompensa de 50 milhões de pesos (cerca de R$ 184 mil) por informações que levem à descoberta do foco do incêndio — Foto: Martin Levicoy/AFP
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Além de Chubut, há incêndios florestais nas províncias patagônicas de Neuquén, Santa Cruz e Río Negro, e na zona sul de Buenos Aires, de acordo com a Agência Federal de Emergências — Foto: Martin Levicoy/AFP
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Os moradores da Patagônia andina têm lembranças terríveis de janeiro e fevereiro de 2025, quando quase 32 mil hectares foram consumidos pelo fogo — Foto: Martin Levicoy/AFP
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Centenas de bombeiros combatem o incêndio com o apoio de helicópteros e seis aviões-tanque — Foto: Martin Levicoy/AFP
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As altas temperaturas, os ventos fortes e a seca representam um cenário de risco no início de 2026, no verão do Hemisfério Sul — Foto: Martin Levicoy/AFP
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Fogo se alastrou rapidamente devido a seca e fortes ventos
Um dos exemplos é a circulação da foto de uma granada que, segundo usuários, seria de origem israelense e teria sido usada para provocar os incêndios. A informação, porém, é falsa. As autoridades de Chubut confirmaram a apreensão do explosivo em dezembro, mas informaram que ele foi produzido pela empresa argentina Fabricaciones Militares.
A Organização Sionista Argentina negou na segunda-feira, em comunicado, que os incêndios tenham sido provocados por israelenses “como parte de algum tipo de plano conspiratório”. A entidade também ressaltou a gravidade da “reaparição do chamado ‘Plano Andínia’, uma corrente antissemita sem qualquer respaldo histórico ou político”.
A teoria conspiratória segundo a qual Israel pretende se apropriar da Patagônia e estabelecer ali um Estado judeu circula desde a década de 1960 e ganhou força a partir dos anos 1970. O enraizamento dessa narrativa serviu de ponto de partida para a série da Amazon “Iosi, o espião arrependido” (2022), baseada em uma história real.
Essa teoria tem antecedentes no panfleto antissemita do fim do século XIX “Protocolos dos Sábios de Sião”, que acusa os judeus de conspirar para dominar o mundo, explicou à AFP o historiador Ernesto Bohoslavsky, do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet).
Segundo o especialista, esse tipo de narrativa “que parece explicar de forma simples processos complexos” é especialmente sedutor, sobretudo nas redes sociais.
— O relato está sempre sendo atualizado. Em 2001 e 2002, por exemplo, circulava a versão de que a Argentina venderia parte da Patagônia para pagar a dívida externa — acrescentou.
O presidente da Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), Mauro Berenstein, alertou na rede X que apontar culpados sem provas “reforça uma narrativa antijudaica e de ódio”.